FABIO MOTTA|ESTADÃO
Participação da petrolífera na distribuidora de combustíveis é hoje avaliada em cerca de R$ 20 bilhões. FABIO MOTTA|ESTADÃO

Ofertas de ações de empresas brasileiras podem movimentar R$ 80 bi este ano

Operações devem ser lideradas, em boa parte, por empresas estatais, como Petrobrás, que planeja vender participação na BR Distribuidora, e Caixa, que deve se desfazer de fatia na petroleira

Renée Pereira, Mônica Scaramuzzo e Cristiane Barbieri, O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2019 | 05h00

Apesar das incertezas sobre a retomada do crescimento econômico, as empresas deram início a um forte movimento de oferta de ações na bolsa paulista (B3) e também no exterior, que pode levantar este ano cerca de R$ 80 bilhões – o maior valor desde 2010, segundo fontes ouvidas pelo Estado. O valor inclui tanto operações de abertura de capital (IPO, na sigla em inglês), quanto emissão de ações de companhias já listadas na Bolsa (chamada ‘follow-on’).

A expectativa é que sejam feitas entre 25 e 40 operações neste ano. Boa parte será conduzida por companhias que já têm ações em Bolsa e que pretendem fazer ofertas primárias e secundárias no mercado. No primeiro caso, as operações são para captar recursos para projetos de expansão, por exemplo. Na oferta secundária, a venda de ações é para remunerar os acionistas, que diluem sua participação ou saem do negócio.

Essas operações deverão ser lideradas, em boa parte, por estatais. São os casos da Petrobrás, que planeja vender sua participação na BR Distribuidora, e da Caixa, que deve se desfazer de fatia na petroleira. Juntas, podem levantar cerca de R$ 20 bilhões, segundo fontes. Outras estatais também devem seguir o mesmo caminho, forma mais rápida e menos burocrática que a venda direta da empresa. Em fevereiro, a resseguradora IRB, que tem participação do Banco do Brasil e outros bancos privados, fez uma oferta de R$ 2,5 bilhões.

Após a paralisia no período eleitoral, o setor privado também reagiu. Localiza e Burger King levantaram R$ 2,6 bilhões. No início do mês, a empresa de energia Eneva fez uma oferta secundária de cerca de R$ 1 bilhão. A varejista Centauro captou R$ 772 milhões em seu IPO. Fora do País, a empresa de pagamento Stone movimentou quase US$ 800 milhões na Nasdaq, nos EUA, para permitir a saída de investidores do negócio.

Outras operações estão prestes a ser realizadas. Na próxima quinta-feira, a empresa de locação de caminhões Vamos, do grupo JSL, deverá concluir seu IPO, com expectativa de captar R$ 1,1 bilhão. A CPFL Energia – controlada pela chinesa State Grid – já fez o pedido para oferta pública na Securities and Exchange Commission (SEC), a comissão de valores mobiliários dos EUA. A intenção é fazer a operação no Brasil e no exterior.

O mercado ainda aguarda para os próximos meses ofertas das empresas de energia AES Tietê e Light, da Cemig – as companhias não comentam. Segundo especialistas, o apetite por ações dos setores de infraestrutura e tecnologia é maior, uma vez que não estão ligados diretamente ao consumo, que ainda patina. “Quando há boas histórias, os investidores têm interesse em comprar”, afirma Alessandro Zema, presidente do Morgan Stanley, que projeta até US$ 20 bilhões em ofertas de ações.

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Com juro menor, grande investidor busca diversificação

Habituados a ter boa parte do patrimônio em renda fixa, donos de grandes fortunas buscam alternativas e aumentam aposta em Bolsa

Renée Pereira, Mônica Scaramuzzo e Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2019 | 05h00

Com a queda da taxa de juros para o menor patamar da história (6,5% ao ano), os investidores têm buscado alternativas para ampliar seus ganhos. Famílias endinheiradas, por exemplo, que antes aplicavam boa parte do seu patrimônio em renda fixa, agora estão tendo de ousar mais, em um movimento que acaba beneficiando o mercado de capitais. 

No primeiro trimestre deste ano, o volume de oferta de ações movimentou R$ 5,1 bilhões – todas referentes à venda de papéis de empresas que já estão listadas na bolsa (follow- on). O montante é equivalente a 45% das operações de todo o ano passado, quando foram movimentados R$ 11,3 bilhões.

O diretor executivo do Bradesco, Bruno Boetger, reforça que a indústria de asset management (gestão de recursos) tem sido obrigada a buscar maior rentabilidade, o que explica parte da demanda por novas ofertas de ações no mercado.

O responsável pela área de Equity Capital Markets Citi Brasil, Marcelo Millen, também vê na queda dos juros o maior interesse dos investidores por ações de empresas. Segundo ele, a busca por alternativas para elevar os ganhos tem gerado uma nova leva de gestores independentes de recursos que têm de colocar o dinheiro para funcionar.

De acordo com Millen, as plataformas eletrônicas, como a XP, ajudaram muito no processo. Até então, havia poucos gestores e eles eram sempre ligados aos conglomerados financeiros. Agora, há um grupo desses profissionais que têm de R$ 1 bilhão a R$ 3 bilhões de patrimônio e quer ativos para investir. “Esse processo de fragmentação da indústria de fundos é muito importante porque abre espaço para o mercado local. É alternativa que dá mais agilidade para o poupador.”

Previdência. Nesse ambiente, há uma melhora de humor. “Mesmo com os ruídos (em Brasília), o otimismo continua”, diz Boetger. Para ele, a expectativa é que haja neste ano entre 30 e 40 operações (entre aberturas de capital e ofertas de empresas já listadas). Os números do chefe global de banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenlees, são um pouco menores, entre 25 e 30 operações.

O executivo afirma que, apesar da tramitação mais difícil que o esperado da reforma da Previdência, o apetite por operações no mercado de capitais está maior. As expectativas do mercado, de forma geral, refletem o entendimento de que a proposta passará no

Congresso. Segundo Boetger, do Bradesco, há cerca de US$ 150 bilhões de investimento estrangeiro para entrar na bolsa brasileira se a reforma for aprovada. 

Várias empresas estão com processos em andamento com a intenção de aproveitar o momento que a proposta passar pelo Congresso. Millen, do Citi Brasil, afirma que prepara duas grandes operações de follow-on e IPO, que devem ficar o segundo semestre. Para o chefe do banco de investimentos do Credit Suisse, Bruno Fontana, emissões de empresas já listadas devem responder por boa parte das operações. “É um dos instrumentos mais fáceis e rápidos de se acessar o mercado.”

Especialista em mercado de capitais do Stocche Forbes Advogados, Henrique Filizzola diz que as empresas estão aguardando o momento adequado para fazer as ofertas – o escritório está com três possíveis operações para fechar.

“As empresas que já estavam se preparando desde o ano passado foram a mercado num ambiente de expectativa, no início do ano. Houve uma gradação dessas expectativas, mas, mesmo assim, há operações na rua”, diz Joaquim Oliveira, do escritório Cescon Barrieu Advogados. 

 

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