Mohamed Sadek/The New York Times
Mohamed Sadek/The New York Times

Onda de legalização da maconha já provoca falta do produto nos EUA

A aprovação do uso da cannabis em Nova York e Nova Jersey leva a uma corrida de empresas para aumentar a produção e atender a demanda que pode chegar a US$ 6 bilhões na região. Ao todo 16 Estados já legalizaram o produto

Tracey Tully, The New York Times

25 de maio de 2021 | 14h57

Foi dada a largada da corrida para cultivar maconha legalmente nos Estados de Nova York e Nova Jersey, nos Estados Unidos.  No condado de Orange, em Nova York, há planos para a construção de uma linha de cultivo e processamento de cannabis no terreno de uma antiga prisão estadual. Cerca de 40 quilômetros ao sul, em Nova Jersey, um complexo industrial que já pertenceu à gigante farmacêutica Merck (conhecida como MSD fora dos Estados Unidos) será convertido em um polo ainda maior de produção da erva. Em Winslow, Nova Jersey, a cerca de 50 quilômetros da cidade de Filadélfia, um novo complexo de cultivo interno acaba de realizar a primeira colheita.

O advento da legalização do uso adulto de maconha em Nova York e Nova Jersey é o sonho de qualquer empresário. Alguns estimam que o mercado potencial da região densamente povoada chegará a mais de US$ 6 bilhões em cinco anos. Mas a pressa para produzir em escala industrial evidencia uma outra realidade fundamental na região metropolitana de Nova York: a já existente escassez de maconha legal.

No mercado de uma década de cannabis medicinal de Nova Jersey, o abastecimento de flores secas de maconha, a parte mais potente da planta fêmea, raramente atendeu à demanda, de acordo com lobistas do setor e autoridades estaduais. Com o início da pandemia e a subsequente explosão da demanda, a erva ficou cada vez mais escassa, afirmaram pacientes e comerciantes.

A lacuna de fornecimento diminuiu desde que o inventário de flores de maconha e produtos feitos à base de extração de resinas da planta mais que dobrou no Estado, entre março do ano passado e abril deste ano. Ainda assim, pacientes e empresários afirmam que cepas mais populares de cannabis se esgotam com frequência nos dispensários.

“Há muito pouco estoque”, afirmou Shaya Brodchandel, diretor executivo da Harmony Foundation e presidente da Associação de Comércio Canábico de Nova Jersey. “Quase não existe atacado. Assim que colhemos, vendemos tudo direto no varejo.”

A Harmony comprou o terreno da Merk em Lafayette, Nova Jersey, no fim do ano passado e aguarda autorização para começar a construir suas instalações, afirmou Brodchandel.

Por ser ainda ilegal sob a lei federal, a maconha não pode ser transportada através de fronteiras estaduais. Produtos à base da erva devem ser produzidos e manufaturados nos mesmos Estados em que são comercializados.

Lei bancárias federais também tornam quase impossível para empresas canábicas obterem financiamentos convencionais, o que cria obstáculos para pequenas startups e vantagens para empresas multiestaduais e internacionais cheias de dinheiro para investir.

O Estado do Oregon, que emitiu milhares de licenças de cultivo após legalizar a maconha seis anos atrás, tem excedentes de produção da erva. Mas muitos dos outros 16 Estados onde a cannabis para uso não medicinal foi legalizada enfrentaram problemas de abastecimento similares aos de Nova York e Nova Jersey enquanto a produção aumentava lentamente para atender à demanda.

“Sempre falta flor nos mercados mais novos”, afirmou Greg Rochlin, diretor executivo da divisão Noroeste da TerrAscend, uma empresa canábica que opera no Canadá e nos Estados Unidos e este mês inaugurou o 17.º dispensário de maconha medicinal de Nova Jersey.

Em Nova York, onde o programa de cannabis medicinal é menor e mais restritivo do que em Nova Jersey, os produtos disponíveis incluem óleos, tinturas e flores picadas para uso com vaporizadores. Mas a venda de florescimentos de maconha a granel, para serem fumados, ainda é proibida, e apenas 150 mil dos 13,5 milhões de adultos com mais de 21 anos do Estado são registrados como pacientes.

Com a modesta demanda, houve pouco incentivo para aumentar o fornecimento. Até agora.

Projeções otimistas

As vendas de maconha para uso de adultos poderá começar daqui a um ano em Nova Jersey e no início de 2023 em Nova York, preveem especialistas do setor.

“Eu seria um idiota se não estivesse fabricando o produto”, afirmou Ben Kovler, fundador e diretor executivo da Green Thumb Industries, uma empresa canábica que opera em ambos os Estados.

“Não há muito estoque dando sopa”, afirmou ele, em um momento em que uma forte “maré" de demanda pode ser sentida no horizonte. “É improvável que o fornecimento seja suficiente”, afirmou  Kovler.

Sua empresa, disse ele, está esperando a aprovação definitiva do Estado de Nova York para começar a construção de instalações no terreno que abrigou a Instituição Correcional de Mid-Orange, uma penitenciária masculina que funcionou na cidade de Warwick, Nova York, que foi fechada em 2011.

A Citiva, uma empresa competidora, também está construindo um centro canábico na região. Um laboratório de testagem de maconha e uma fábrica de extração de CBD, a UrbanXtracts, já estão por lá.

“Estamos chamando a área de polo canábico”, afirmou Michael Sweeton, presidente da câmara municipal de Warwick.

“É a pura expressão da ironia”, acrescentou ele, comentando o papel reinventado para uma prisão que ficava lotada com até 750 detentos durante a guerra às drogas e gerava 450 empregos.

Nova York também permite que indivíduos cultivem até seis plantas de maconha para uso pessoal; já Nova Jersey não permite o chamado autocultivo.

O desafio social

Nos próximos meses, os Estados deverão emitir regulações para regular o novo setor. Ambos qualificam a legalização da cannabis como um imperativo de justiça social e destinaram grande parte da quantia que o setor deve recolher em impostos a comunidades negras prejudicadas de maneira desproporcional por iniquidades no sistema de Justiça criminal.

Tentar equilibrar o objetivo de constituir mercados com foco em equidade social e racial  com a dominância inerente das corporações multiestaduais já estabelecidas nas regiões será crucial, afirmaram autoridades de Nova York e Nova Jersey.

“Supõe-se que elas sejam capazes de ajudar a dar partida no mercado”, afirmou Norman Birenbaum, diretor de programas de cannabis em Nova York, a respeito das 10 empresas de maconha medicinal já licenciadas para operar no Estado. Mas isso não deveria ocorrer “em detrimento dos recém-chegados”, afirmou ele.

Jeff Brown, responsável pelos programas canábicos de Nova Jersey, afirmou que o mercado comporta novatos - e depende muito deles.

As empresas já presentes no Estado, afirmou ele, “não conseguirão por si só atender à demanda do mercado para uso pessoal” de maconha.

Os desafios da cadeia de fornecimento se renovaram em Nova Jersey, onde os dispensários de cannabis medicinal deverão ser os primeiros estabelecimentos onde adultos poderão comprar legalmente a erva sem receita médica.

Primeiramente, porém, os dispensários precisarão provar que terão capacidade de manter um amplo fornecimento para os pacientes e que contarão com instalações adequadas para atender ambos os tipos de clientes.

O mercado de Nova Jersey cresceu desde 2019, quando o governador no Estado, Phil Murphy, do Partido Democrata, autorizou uma grande expansão do programa de maconha medicinal, que havia definhado na gestão de seu antecessor, Chris Christie, do Partido Republicano.

O número de dispensários triplicou. Atualmente, 500 mil plantas são cultivadas no Estado, em comparação a 50 mil em 2018, afirmou Brown.

Em março deste ano, mais de 9 toneladas de produtos derivados de cannabis estavam disponíveis em Nova Jersey, contra 3,6 toneladas em março de 2020, afirmou ele.

Ainda assim, o preço das flores de cannabis oscila entre US$ 350 e US$ 450 a onça (28,35 gramas) sem desconto. Na Califórnia, uma onça de maconha de boa qualidade custa cerca de US$ 260, de acordo com o site priceofweed.com, um diretório de preços da erva citado com frequência.

“Produtos populares se esgotam, e os preços ainda estão acima de onde queremos vê-los”, afirmou Brown. “A solução para isso é mais concorrência.” / Tradução de Augusto Calil

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