ONU aprova documento contra fome após protesto da América Latina

A cúpula alimentar da ONU terminou naquinta-feira com a promessa de aliviar a fome que afeta ouameaça 1 bilhão de pessoas, apesar das queixas de alguns paíseslatino-americanos contra alguns termos da declaração final, oque quase impediu sua aprovação. O texto afinal aceito promete um compromisso com "aeliminação da fome e a garantia de comida para todos, hoje eamanhã". Ativistas e delegados disseram que o documento tem omérito de colocar a questão dos alimentos na ordem do dia. "Pelo menos as nações se uniram para reconhecer oproblema", disse o secretário norte-americano de Agricultura,Ed Schafer. A FAO (órgão da ONU para alimentação e agricultura)convocou esta cúpula para discutir a crise alimentar mundial,provocada por diversos fatores --uso intensivo de terras para aprodução de biocombustíveis, mudanças climáticas, aumento dopreço dos combustíveis e crescimento da demanda, especialmentena Ásia. Nos últimos dois anos, o preço de alimentos como milho,arroz e trigo mais do que dobrou, e o Banco Mundial diz quemais 100 milhões de pessoas podem passar a sofrer com a fome,que hoje já afeta 850 milhões no mundo. A FAO diz que aprodução de alimentos precisaria crescer 50 por cento até 2050para acompanhar a demanda. A ONG humanitária ActionAid elogiou a atenção dedicada pelomundo ao evento, mas lamentou a falta de compromissos "sériosde longo prazo" dos governos. Ativistas cobraram mais empenhodos países desenvolvidos durante a cúpula de julho do G8 noJapão. "Há uma crescente conscientização de que os países ricosnão podem continuar a dar com uma mão e a tirar com a outra",disse Barbara Stocking, da ONG Oxfam. "A menos que hajamudanças nas políticas injustas de comércio internacional,biocombustíveis e agricultura, a crise da agricultura nospaíses em desenvolvimento vai continuar." PROTESTO LATINO A Argentina, exportadora de carne e grãos, contestou otrecho da declaração final que criticava restrições aexportações --como o recente tributo que taxa as exportaçõesargentinas de soja. Os EUA defenderam na cúpula que tais restrições agravam ainflação mundial dos alimentos. A forte acumulação de estoquesde arroz na Ásia seria também um dos principais fatores portrás da disparada dos preços do produto, que provocou atéconfrontos em países mais pobres. "Entendemos que os países queiram proteger sua oferta dealimentos e assegurar alimentos suficientes para seus próprioscidadãos, mas quando há um fechamento do mercado, os preços naverdade sobem", disse Shafer a jornalistas em Roma. Cuba, Venezuela, Argentina e outros paíseslatino-americanos também fizeram outras objeções à declaraçãofinal, e o representante de Cuba, Orlando Requeijo Gual, disseque o texto "negligencia francamente as necessidades vitais dosque sofrem com a fome". Criticando as sanções dos EUA à ilha, ele denunciou "assinistras estratégias de usar grãos para (produzir)combustível". Os EUA e o Brasil defenderam o uso do milho e da cana,respectivamente, para a produção de etanol, alegando que esse éum fator marginal no aumento global de preços. A declaraçãofinal cita apenas a existência de "desafios e oportunidades"para os biocombustíveis. (Reportagem adicional de Laura MacInnis, Phil Stewart eAlister Doyle em Roma)

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