Os equívocos das canetadas

?O agronegócio não comove as cidades?. Este comentário, feito em uma análise da seção política de um jornal de grande circulação, resume bem a situação do setor no Brasil. Se a população não se comove, a classe política também não. A reação é direta e imediata. Um grande problema em um país democrático, de extrema vocação agroindustrial, onde a maioria da população votante é urbana.Responsável pelo superávit da balança comercial brasileira, por 37% dos empregos no país, por 1/3 do PIB, e por todas as notícias positivas geradas e não propriamente atribuídas ao seu efeito renda, seja no comércio, na indústria, nos serviços, ou até mesmo no reaquecimento da construção civil, o agronegócio continua sendo o maior e o mais importante setor da economia brasileira, queiram ou não.Nada disso, entretanto, parece fazer diferença na hora da promulgação de leis, edição de portarias, medidas provisórias, acertos políticos e afins. A certeza que fica é que o setor ainda está longe de ter peso político equivalente, ou minimamente proporcional à sua relevância econômica, o que seria desejável e natural.Não raro o setor, ainda longe de poder ser considerado organizado, e talvez por esta razão, se vê obrigado a reagir a arbitrariedades ideológicas e apresentar um amontoado de justificativas, não para lograr grandes tentos, mas apenas para defender o lógico contra o irascível. A manifestação do profundo desconhecimento do encadeamento sistêmico das cadeias produtivas, por parte dos detentores do poder nas distintas esferas, os diferentes pesos e medidas, a hipocrisia, o histerismo e o radicalismo, adquirem níveis de requinte que impressionam. E irritam, para dizer o mínimo.Grandes estadistas, no auto de suas mediocridades, insistem em elaborar mirabolantes planos de abastecimento, mas se esquecem da produção, como se fosse possível dissociar uma coisa da outra. Comemoram as exportações, mas condenam as técnicas de produção, por mais seguras que sejam, e repelem a ampliação da fronteira agrícola. Querem alimentos de mais qualidade a preços baixos, mas oneram o setor produtivo e se opõem ao desenvolvimento tecnológico. Defendem as energias renováveis, os biocombustíveis, como o etanol, mas são contra os canaviais. O biodiesel sim, mas de mamona e palma, ampliar a área de soja, não.Muitos ditam regras e normas para o setor, sem jamais ter levantado de suas confortáveis cadeiras. Não têm noção do tamanho do estrago que são capazes de fazer, na canetada. Quando se deixam esclarecer, falta-lhes coragem para admitir e reparar o erro. Em defesa de suas ideologias, rechaçam a ciência e menosprezam a tecnologia, que apesar de todos os esforços contrários, têm respostas prontas e disponíveis para a esmagadora maioria das controvérsias da atualidade.Em nome da preservação ambiental, e da defesa dos interesses dos fracos e oprimidos, as maiores inconsistências. Pobre massa de manobra nas mãos de oportunistas e fantoches tomadores de decisão. A serviço de quem estão, afinal? Seguramente não do Brasil, e nem de seu povo.por Mônika Bergamaschi** Diretora-executiva da Associação Brasileira do Agronegócio da região de Ribeirão Preto (ABAG-RP)

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