Tiago Queiroz/Estadão - 6/2/2019
'A grande tendência são as aquisições entre as próprias startups', diz Gustavo Gierun. Tiago Queiroz/Estadão - 6/2/2019

'Os gestores de fundos vão ser mais cuidadosos em 2022', diz CEO da Distrito

Gustavo Gierun acredita que o cenário de juros altos e turbulência eleitoral pode desacelerar as captações por startups neste ano

Lucas Agrela, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2022 | 05h00

Após o recorde no ano passado, o cenário de juros altos e turbulência eleitoral de 2022 pode reduzir as captações por startups, diz Gustavo Gierun, CEO da Distrito. Para ele, os investidores devem ser mais cuidadosos e buscar de negócios que necessitem de menos capital para crescer. Mas ele ainda crê na força das fintechs. “Muito se fala de uma bolha das fintechs, mas o mercado de startups ainda crescerá de forma intensa por mais cinco ou dez anos.”

Após o IPO do Nubank, o entusiasmo com as fintechs deve se manter em 2022?

O segmento de fintechs é o que mais atrai investidores no Brasil. É improvável que o segmento deixe de ser o que mais atrai investimentos. O mercado brasileiro se torna cada vez mais digital. Ainda temos muita concentração bancária, e os novos entrantes têm pouco do mercado. Fora isso, os órgãos reguladores incentivam a competição, a inovação e a democratização de serviços financeiros. Portanto, o número de fintechs vai continuar crescendo, atraindo investimentos de fundos locais e estrangeiros. 

As fintechs podem passar por uma fase de fusões? 

As corporações tradicionais buscam produtos e serviços para melhorar a experiência do consumidor, assim como bons profissionais. Isso pode levar a aquisições de fintechs. Mas a grande tendência são as aquisições entre as próprias startups, as mais maduras comprando as mais novas. 

E o risco Brasil, com eleições e juro alto?

O gestor de venture capital pensa no longo prazo e antecipa mudanças de comportamento do consumidor com prazo de até 20 anos. Por isso, é menos sensível ao cenário político e a turbulências de países emergentes. O País sofre crises a cada cinco anos, e há cada vez mais aportes. Os gestores devem ser mais cuidadosos, mas isso não deve levar a uma ruptura Falando em novas captações ou novos fundos, aí sim temos um desafio grande. Com juro alto, e subindo, o investidor vai olhar com mais critério o risco de retorno da alocação de capital.

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Puxado por fintechs, investimento em startups triplica no País em 2021

Fundos de 'venture capital' investiram R$ 46,5 bilhões no ano passado, 4.º recorde seguido, segundo a Abvcap, enquanto aportes em grandes empresas sofreram retração

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2022 | 05h00

A corrida pela digitalização e a grande liquidez global levaram os fundos de venture capital, que investem em startups, a bater um novo recorde anual de aportes no Brasil. Esses fundos aportaram R$ 46,5 bilhões no ano passado em startups brasileiras, triplicando a cifra registrada um ano antes, segundo pesquisa da KPMG e da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), obtida com exclusividade pelo Estadão. Foi o quarto ano consecutivo de resultado recorde.

O impulso veio principalmente das startups ligadas ao setor financeiro (fintechs) e ao segmento de seguros (insuretechs), que concentraram quase 30% desse montante, conforme o levantamento. A lista dos dez maiores aportes em startups realizados no ano passado mostra bem esse domínio, com quatro operações ligadas ao setor financeiro. 

Como resultado da grande injeção de liquidez nas startups, o Brasil teve uma “avalanche” de novos unicórnios, como são chamadas as empresas que passam a ter uma avaliação no mercado superior a US$ 1 bilhão. Entre elas estão a MadeiraMadeira, Mercado Bitcoin, C6 Bank, Facily e Olist.

Na contramão

Já fundos de private equity, que investem em empresas mais maduras, no entanto, foram na direção contrária, mostra o levantamento da KPMG e Abvcap. Os investimentos dessas gestoras no Brasil caíram 19%, para R$ 7,3 bilhões, refletindo os fracos indicadores econômicos locais. 

O presidente da Abvcap, Piero Minardi, aponta que esse descolamento dos investimentos para as startups é uma realidade brasileira. Em outros países, essas cifras costumam andar juntas – em geral, os cheques dos fundos de private equity são mais gordos. 

O problema, aqui, é a falta de confiança no avanço do Produto Interno Bruto (PIB) – hoje, o mercado prevê um crescimento inferior a 0,3% para 2021, resultado muito abaixo da média global. “O venture capital é menos sujeito ao crescimento da economia”, frisa Minardi, que comanda o fundo americano Warburg Pincus no Brasil. A gestora que está por trás de grandes negócios, como a Petz.

Minardi lembra que, ao longo dos últimos anos, os private equities também tiveram suas atividades abaladas pela volatilidade do câmbio – o que continuar a ser um problema ao longo de 2022. 

Realidades distintas

Sócio líder de Private Equity e Venture Capital da KPMG no Brasil, Roberto Haddad comenta que o salto da indústria de venture capital no País ficou mais evidente em 2020, momento que os recursos para esse tipo de investimento se voltaram ao Brasil. “Hoje o jovem sabe que, se ele tiver uma ideia bem executada, ele terá dinheiro disponível”, afirma.

De acordo com Haddad, os fundos dedicados a negócios em estágio inicial devem continuar aquecidos neste ano, sendo que ainda há muitos setores a ser explorados, como as agritechs (startups dedicadas ao ramo agropecuário) e healthtechs (de saúde). 

Além disso, o especialista aponta que esse segmento é menos sensível aos percalços da economia e se abala menos com os juros e a taxa de câmbio, que tecnicamente podem acabar com a rentabilidade dos fundos de private equity.

A disparada do dólar passou a ser um problema para os fundos voltados a grandes empresas que fizeram investimentos há alguns anos no País. Isso porque o fundo que comprou um negócio na época de câmbio a R$ 3 ou R$ 4 agora pode perder dinheiro mesmo se vender o negócio por um valor superior, em reais. Na conversão para dólar para “pagar” a matriz, o negócio corre ainda o risco de valer menos do que o valor originalmente pago. “O câmbio é nosso gargalo. Essa incerteza é nosso calcanhar-de-aquiles.”

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