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Guy Perelmuter
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Os riscos da falta de riscos

Como uma sociedade sustentada pelo governo pode buscar aprimoramento e inovação?

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2017 | 06h00

Já há exemplos ao redor do mundo de programas que buscaram ou buscam, ao menos em parte, implementar a ideia de pagar uma renda mínima para uma parcela da população: Estados Unidos, Canadá, Uganda, Índia, México e Brasil (através do Bolsa Família) são países que já podem produzir estatísticas relacionadas aos seus programas de assistência. Mas a avaliação da efetividade desses programas não é simples, e tipicamente gera argumentos pró e contra a existência dos mesmos.

Em 2010, a Comissão de Petições do Parlamento Alemão recebeu em audiência Susanne Wiest, defensora do conceito da renda básica universal, rejeitando a proposta como “irrealizável” por diversos motivos: falta de motivação para as pessoas trabalharem, custos de implementação, potencial crescimento na imigração e impacto nos preços dos bens de consumo.

A Suíça realizou, em junho de 2016, o primeiro referendo mundial sobre o pagamento de uma renda mensal de US$ 2,5 mil aos seus habitantes – e a proposta foi rejeitada por 76,9% dos eleitores (possivelmente porque não eliminava outros programas governamentais de assistência). Recentemente, o governo da Finlândia começou a pagar 560 euros mensais para dois mil desempregados – que vão continuar a receber esse valor por dois anos, mesmo se acharem emprego. O modelo de pagamento de uma renda básica mínima segue em discussão em países como Escócia, Holanda e França. E no Canadá, que na década de 70 implementou um programa de renda mínima em Manitoba, é bem provável que três cidades da província de Ontário (onde vive cerca de 40% da população do país) em breve tenham programas similares.

Mas é preciso contemplar com extrema cautela os efeitos de longo prazo que programas de renda mínima podem ter sobre o indivíduo e a sociedade como um todo. Além do potencial custo que programas dessa natureza impõem ao orçamento de qualquer país, qual o risco de uma parcela relevante dos beneficiados optar por simplesmente não buscar nenhuma atividade produtiva, uma vez que sua subsistência estaria garantida? Não seria um programa desse tipo um risco para o nível de educação e produtividade?

Olhando para o passado e para a forma como a inovação afetou o mercado de trabalho e a qualidade de vida das pessoas, as perspectivas podem ser consideradas positivas. Se por um lado empregos foram eliminados ou substituídos, por outro diversas novas carreiras foram criadas e os benefícios gerados pelas novas tecnologias foram aproveitados por uma larga parcela da população.

Apesar da preocupação de um número crescente de economistas com o efeito do “desemprego tecnológico” em carreiras que exigem um grau maior de qualificação, ainda parece prematuro imaginar que o mundo irá simplesmente deixar de oferecer trabalho. As novas tarefas, os novos processos e as novas possibilidades serão, por si só, um motor de crescimento para os futuros entrantes no mercado de trabalho.

Mas esse debate tende a se aprofundar nos próximos anos. Enquanto isso, uma das questões mais importantes é a correta avaliação do impacto da criação de novas carreiras e linhas de negócios que invariavelmente surgem durante processos de inovação em larga escala. Semana que vem iremos falar sobre quais os empregos com maior probabilidade de serem eliminados e quais as carreiras aparentemente menos suscetíveis aos riscos da automação. Até lá.

*Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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