Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

‘Os sinais sobre o Brasil são positivos’

Segundo executivo da empresa, que é dona da EDP Brasil, o País representa entre 15% e 20% dos resultados globais do grupo português

Entrevista com

António Mexia, presidente da Energias de Portugal, dona da EDP Brasil

Margarida Vaqueiro Lopes | ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2017 | 05h00

Mesmo em um momento em que ainda há dúvidas sobre a retomada da economia e com a instabilidade política criada pela Operação Lava Jato, António Mexia, presidente do grupo Energias de Portugal, dono da EDP Brasil, vê potencial de crescimento por aqui e avalia que o País fez a lição de casa do ponto de vista regulatório.  Mexia diz estar “moderadamente otimista” em relação ao mercado nacional, que representa entre 15% e 20% dos resultados globais da EDP. “O Brasil constitui, depois dos Estados Unidos, nossa maior plataforma de crescimento.” Leia os principais trechos da entrevista ao Estado:

Estado: Como a EDP avalia o momento atual do Brasil?

António Mexia: A EDP nunca esteve eufórica com o Brasil, nem quando todo mundo estava. E, depois, quando todos diziam que o Brasil era um problema sem solução, não mudamos de estratégia. Nossa posição sempre foi ponderada e de longo prazo. O setor de energia sempre foi uma aposta clara de crescimento, e com enquadramento (legal) bem desenhado. Aliás, o Brasil tem coisas que a Europa devia ter, como os leilões.

O Brasil é um exemplo nesse aspecto?

O País reconheceu a necessidade de fazer concorrência não apenas no mercado de Bolsa (de energia). Obviamente, o modelo tem grandes problemas de implementação, mas é bem concebido. Grandes players mundiais se interessam pelo mercado brasileiro. Estamos há 20 anos no País, e há 11 na Bolsa. O Brasil representa de 15% a 20% dos nossos resultados operacionais e constitui, depois dos Estados Unidos, nossa maior plataforma de crescimento.

O setor elétrico tem sido marcado pelas investidas dos chineses. Como o sr. avalia isso?

A China Three Gorges (CTG) é nossa acionista e parceira. A nossa abordagem prova que eles têm ambição, mas são uma empresa disciplinada. No Brasil, somos parceiros em Cachoeira Caldeirão, Jari e São Manuel. Se há alguma coisa a dizer é: total integração nos consórcios e na cultura local. 

Mas as ofertas dos chineses têm sido bastante agressivas.

Não vejo nenhuma diferença entre a CTG e qualquer outro operador. Em alguns dos leilões, os europeus foram tão agressivos quanto os chineses.

Isso é porque acreditam na recuperação da economia?

O controle da inflação e a redução das taxas de juros são determinantes. Há quem estime que a Selic possa cair abaixo de 10% ao fim do ano. Acho que é uma época de algum saneamento sob vários aspectos da economia e me parece que o controle da inflação é absolutamente decisivo. Diria que estou moderadamente otimista. E o moderadamente é só para que não pareça estranho. Os sinais são positivos.

Qual vai ser o investimento no Brasil esse ano?

Temos investido, em média, R$ 1 bilhão por ano e nossa política é continuar neste ritmo. É possível que aumente devido à entrada na transmissão.

A EDP entrou no setor da transmissão em novembro, num leilão. É uma nova aposta?

A transmissão dá oportunidades de crescimento mantendo o perfil de risco. Haverá muitos leilões. Ao contrário do que ocorria há dois anos, não há necessidade de nova geração. Obviamente vai haver algum investimento para acompanhar o crescimento da economia, mas haverá um número limitado de leilões de nova capacidade. Por isso, no curto prazo, a questão da transmissão é importante. 

Essa aposta foi para enfrentar a diminuição da demanda?

A estimativa da demanda para este ano é de um ligeiro aumento. Todo mundo ainda se lembra dos apagões de 2014 ou 2015. A diminuição da procura trouxe alguma capacidade para o setor respirar. Hoje, nossa principal preocupação é que sejam esclarecidas as regras para eventuais sobrecontratações das distribuidoras. Porque a saída dos chamados clientes especiais, que podem comprar energia no mercado livre, não está a ser incluída na sobrecontratação involuntária. 

Que outros problemas precisam ser solucionados?

A forma para se conseguir acesso a contratos de longo prazo no gás para geração é um exemplo típico do que ainda se está a fazer. O papel do BNDES, que sempre foi muito importante na infraestrutura, é outro exemplo. É importante que o Brasil não faça uma coisa que a Europa tem feito, que é esquecer que o passado não é incerto. As pessoas tomam decisões com base em regras que devem ser estáveis e não devem ser alteradas no meio do jogo. A questão do financiamento é absolutamente essencial. 

Há chance de se resolver isso em meio ao tumulto político?

Independentemente de as pessoas dizerem que este momento é transitório, eu não quero classificar nada de transitório. Hoje, é muito normal eu estar em Londres ou em Nova York, e as pessoas se mostrarem tranquilas sobre o setor no Brasil. Porque os fundamentos e as regras estão lá. É muito importante que não se crie uma percepção errada. Os problemas do setor estão sendo tratados, as regras são estáveis. Aliás, conseguem-se aqui respostas relativamente mais rápidas que em países da Europa.

Quais são os planos da EDP para as aquisições?

O movimento de fusões e aquisições no Brasil atingiu no ano passado cerca de US$ 300 bilhões. Neste momento, acredita-se que o Brasil vai ter movimentos de consolidação, e isso inclui o setor de energia.

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