Pacotes de estímulos de países ricos ameaçam os emergentes, alerta FMI

Afrouxamento monetário dos países desenvolvidos, chamado pela presidente Dilma Rousseff de 'tsunami monetário', oferece riscos à economia mundial, segundo o relatório do Fundo

Altamiro Silva Júnior, correspondente,

11 de abril de 2013 | 14h17

NOVA YORK - As políticas de estímulos econômicos dos bancos centrais de países desenvolvidos para tentar estimular as economias podem ter um efeito colateral indesejado e representar um risco no médio prazo para a estabilidade do sistema financeiro, alerta um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado nesta quinta-feira.

A conclusão do estudo é de que essas políticas, que incluem manutenção de juros muito baixos por longo período e compras bilionários de ativos no mercado, podem gerar riscos nas instituições financeiras que ainda não se tornaram evidentes. Os riscos serão maiores na medida em que essa estratégia se prolongar.

 

"Os bancos centrais dos maiores países avançados vêm tomando medidas sem precedentes para combater a instabilidade financeira e recessão mais profunda e prolongada desde os anos 1930", destaca o documento.

Lagarde, do FMI: alerta para risco de 'bolhas'

Ao inundar o mercado financeiro de recursos e prover liquidez direta para os bancos, essa estratégia reduz as vulnerabilidades e instabilidade no sistema financeiro no curto prazo, evitando também uma recessão ainda mais profunda. Mas ela pode ter efeitos indesejáveis e que colocam a estabilidade dos bancos em risco. 

 

Entre estes riscos, o FMI cita que a reestruturação ou reparo dos balanços de alguns bancos pode sofrer atrasos, sobretudo no que diz respeito à provisão para créditos de liquidação duvidosa, na medida em que estas instituições se apoiam na manutenção dos programas de estímulos dos bancos centrais, que, além de comprar ativos no mercado, têm injetado dinheiro diretamente nos bancos.

A presidente do FMI, Christine Lagarde, enfatizou em palestra em Nova York que muitos bancos precisam ser reestruturados na zona do euro, com limpeza de seus balanços e fortalecimento das bases de capital.

O FMI recomenda a manutenção das políticas monetárias acomodatícias dos bancos centrais até que a recuperação das economias esteja bem estabelecida. Nesse ambiente, a necessidade de supervisão dos reguladores aumentou, sobretudo para identificar potenciais riscos e ameaças a estabilidade do sistema financeiro.

A recomendação do Fundo é usar medidas macro e microprudenciais para limitar esses riscos. A própria presidente do FMI, Christine Lagarde, enfatizou em palestra que essas políticas monetárias que buscam estimular a economia fazem sentido no momento, embora haja riscos indesejáveis.

 

No estudo, o FMI avaliou quatro casos em que bancos centrais têm mantido juros muito baixos e comprado ativos: Estados Unidos, Japão, Inglaterra e a zona do euro. A conclusão é de que, no curto prazo, essas políticas não tiveram impactos negativos na estabilidade do sistema financeiro.

Ao contrário, elas contribuíram para melhorar o desempenho de alguns bancos. Mas é no médio prazo que há o risco dessas medidas afetarem os bancos, destaca o estudo.

 

Por isso, o FMI faz recomendações a reguladores e dirigentes de bancos centrais com o objetivo de evitar a geração de riscos maiores nos bancos. Entre as sugestões citadas, o estudo fala da necessidade de melhorar o provisionamento de alguns bancos e salienta que as casas financeiras que precisam de reparos no balanços sejam alvo de uma supervisão ainda mais cuidadosa dos reguladores. O Fundo recomenda ainda atenção aos níveis de capital e liquidez dos bancos, levando em conta efeitos sistêmicos e contracíclicos.

 

"As autoridades devem ficar atentas para a possibilidade de o risco migrar para outras partes do sistema financeiro, como fundos de pensão e seguradoras", conclui o estudo, que fará parte do Relatório de Estabilidade Financeira Global, previsto para ser divulgado na semana que vem em Washington no encontro de primavera do FMI, que deve reunir 188 países.

Em meio aos juros muito baixos, há a tendência de os agentes buscarem ativos mais rentáveis e, consequentemente, de maior risco, no mercado doméstico ou no exterior. O risco imediato é de se gerar bolhas em determinados mercados.

 

Um terceiro fator de preocupação, aponta o FMI, é que os bancos centrais passaram a deter quantidades imensas de ativos financeiros, principalmente lastreados em hipotecas, como nos Estados Unidos. A venda desses ativos em um segundo momento, quando os BCs saírem de seus programas de compras de papéis, pode causar turbulências no mercado, principalmente se essas vendas forem rápidas. Outro ponto é que a mudança de um cenário de juros muito baixos, como o atual, para outro, de taxas mais altas, pode afetar os números e as operações dos bancos.

 

Há ainda um impacto das políticas acomodatícias no mercado de empréstimo interbancário. Nesse mercado, um banco empresta dinheiro a outro para cobrir eventuais necessidades imediatas de recursos. O relatório do FMI alerta que, após o fim dessas políticas de injeção de recursos, o interbancário pode se ajustar a um nível novo, mais baixo, pois muito dessa liquidez vem sendo provida por bancos centrais. Por fim, há sempre o risco de que as políticas dos bancos centrais afetarem outros países.

 

A própria estratégia dos bancos centrais de saírem ou pararem com essas políticas, como vem sendo discutido nos EUA pelo Federal Reserve, representa um desafio. Em mercados que tiveram intervenção pesada dos bancos centrais, a saída pode trazer oscilações abruptas de preços, afetar a formação de expectativas e do funcionamento desses mercados.

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