País reage e barra chocolates da Argentina na fronteira

Segundo fontes da indústria argentina, pouco mais de meia tonelada de produtos do país vizinho estão parados nas alfândegas brasileiras

Raquel Landim e Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

30 de setembro de 2011 | 23h00

O governo brasileiro decidiu reagir ao protecionismo da Argentina e voltou a barrar produtos na fronteira. Dessa vez, o setor atingido é balas, chocolates e confeitos. Segundo fontes da indústria argentina, já chega a pouco mais de meia tonelada o volume de produtos do vizinho parados nas alfândegas brasileiras.

Alguns caminhões faziam fila na fronteira nesta sexta-feira, 30, e outros sequer deixaram os estacionamentos de suas fábricas nas províncias de Buenos Aires e Córdoba, já que não haviam recebido do Brasil as respostas para seus pedidos de entrada no País.

Segundo informações do setor alimentício argentino, entre as empresas atingidas estavam a maior fábrica de guloseimas da América Latina, a Arcor (que conta com fábricas no Brasil mas também exporta ao mercado brasileiro produtos fabricados na Argentina), a Felfort (especializada em chocolates) e a Ferrero.

No dia 12 de setembro, o Brasil incluiu balas, chocolates e confeitos no sistema de licenciamento não automático de importação, o que significa que essas mercadorias estão sendo liberadas manualmente. O mecanismo vale para todos os países, mas os pedidos argentinos estão sendo examinados com lupa.

O Brasil é o maior mercado importador de chocolates "made in Argentina". Dos US$ 140 milhões em chocolates exportados em 2010 pelo país, US$ 35 milhões foram destinados ao Brasil. Conforme informações extra oficiais, a Câmara da Industriais de Produtos Alimentícios (Cipa) solicitou ao secretário de Indústria da Argentina, Eduardo Bianchi, que intercedesse com seus colegas em Brasília a favor dos empresários argentinos.

Reação. A medida do Brasil é uma reação às barreiras argentinas. Os fabricantes brasileiros de balas e chocolates também enfrentam travas às suas vendas no vizinho. Outros setores afetados são calçados e linha branca.

Essa é a segunda vez que a administração Dilma Rousseff adota licenciamento não automático de importação contra produtos argentinos. Em maio, barrou a entrada dos automóveis. Como é um setor muito relevante, a medida quase provocou uma crise diplomática entre os dois países.

A situação foi contornada depois de uma reunião entre Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento no Brasil, e Débora Giorgi, titular da pasta da Indústria da Argentina. Os dois se comprometeram a agilizar a liberação das licenças, mas a Argentina não cumpriu sua parte.

O Instituto Nacional de Alimentos (Inal) não está emitindo as autorizações para que balas e chocolates brasileiros circulem dentro da Argentina. Dessa maneira, não há fila de caminhões na fronteira com produto brasileiro, mas os itens ficam retidos nos depósitos dos importadores. Fontes da indústria de balas no Brasil dizem que há mercadoria com validade vencida.

O caso mais grave, no entanto, é do setor de calçados. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), estão parados a espera das licenças de importação da Argentina 3,4 milhões de pares.

Segundo Heitor Klein, secretário executivo da entidade, o setor já perdeu o Dia das Mães da Argentina, que é comemorado em 17 de outubro. "Mesmo que as licenças saíssem agora, não conseguiríamos colocar esses sapatos nas vitrines a tempo", disse.

"O governo brasileiro precisa adotar uma forte barreira contra a Argentina. É a única linguagem que eles entendem. Mas as eleições na Argentina estão atrapalhando", disse Klein. Os setores calçadista brasileiro e argentino tem um acordo informal de limitação de exportações. Para este ano, o acordo previa o embarque de 15 milhões de pares, mas até agora o Brasil só exportou 6 milhões de pares.

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