Para Armínio, cenário ainda é incerto

Ex-presidente do Banco Central acredita que ainda é cedo para avaliar se a economia entrou em trajetória consistente de desaquecimento 

O Estado de S. Paulo,

15 de fevereiro de 2011 | 22h30

O ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, Armínio Fraga, acredita que é cedo para avaliar se a economia entrou em trajetória consistente de desaquecimento. "A economia deu alguns sinais de que está desacelerando, mas ainda é muito cedo para dizer se está em trajetória equilibrada ou não."

Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a economia iniciou o ano em desaceleração.

Na opinião de Fraga, o corte de R$ 50 bilhões anunciado pelo governo é suficiente para colocar as contas públicas em rota equilibrada. O problema, explica, é que o mercado financeiro tem dúvidas sobre como o corte será feito. Para ele, a pressão sobre os juros e a inflação só vai ceder quando o mercado tiver mais detalhes sobre o corte.

Fraga lembra que o governo Dilma tem caminhado na direção de corrigir desequilíbrios na questão fiscal e na política monetária. "Colocar um pouco no lugar as contas públicas, que tiveram um ano difícil e também prestar mais atenção no crédito, que vem se expandindo muito."

Um dos dados que coloca em dúvida o desaquecimento da economia é o da venda de automóveis. Alex Agostini, da consultoria Austin Rating, lembra que a venda de veículos cresceu 14,8% em janeiro, na comparação com o mesmo mês de 2010, embora tenha caído sobre dezembro. "Se isso for desaquecer, não sei fazer análise", afirma.

Na primeira metade de fevereiro, as vendas de veículos novos seguem em recuperação. Até segunda-feira foram licenciados 126,4 mil veículos, 12,8% a mais em relação a igual período de janeiro. No primeiro mês do ano, houve queda de 35,8% na comparação com dezembro, mês recorde do setor (381,6 mil unidades).

Em relação a igual período de fevereiro de 2010, o mercado está estável, mas a aposta das montadoras é de melhora na segunda quinzena, o que levará a uma alta de mais de 20% nos negócios, com vendas 270 mil unidades.

Para Thais Marzola Zara, economista da Rosenberg & Associados, está ocorrendo "uma acomodação" no mercado. Em sua opinião, a tendência nos próximos meses é de ritmo mais lento de crescimento, em parte porque as medidas de restrição ao crédito começam a afetar as vendas. "A prestação agora já não cabem em vários bolsos", ressalta.

No comércio varejista, as vendas atingiram alta recorde de 10,9% em 2010, a mais forte em dez anos e quase o dobro da apurada em 2009 (5,9%), segundo divulgou ontem o IBGE. Mas, o avanço da inflação no fim do ano passado assustou o consumidor, que pisou no freio em dezembro.

Na análise do sócio sênior da GS&MD-Gouvêa de Souza, Luiz Goes, o comércio deve reduzir o ritmo de crescimento este ano, mas vai continuar a aumentar acima do PIB. Para ele, o mercado de trabalho apresenta sinais positivos, o que deve sustentar os ganhos do trabalhador.

O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do Banco Central, Carlos Thadeu de Freitas, projeta alta entre 7,5% e 8% nas vendas este ano. Ele defende um ciclo mais curto de aperto monetário pelo Banco Central.

Para o economista da Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE, Reinaldo Silva Pereira, o ambiente favorável ao longo de 2010 não se sustentou até dezembro. Ele classifica como acomodação a estabilidade nas vendas em dezembro, o que "não sinaliza necessariamente uma queda futura no volume de vendas do comércio".

Segundo ele, o comércio foi derrubado por alimentos mais caros, que puxaram para baixo as vendas de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo em dezembro contra novembro.

(por Mônica Ciarelli, Cleide Silva, Fernando Scheller e Alessandra Saraiva)

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