Para BC, dinâmica dos salários representa risco ‘muito importante’

Relatório de Inflação do BC enfatiza o impacto dos reajustes dos salários no aumento dos preços

Renata Veríssimo e Fabio Graner, da Agência Estado,

29 de junho de 2011 | 11h22

O Banco Central enfatizou no Relatório de Inflação de junho o impacto dos reajustes dos salários na inflação. "O Copom avalia que um risco muito importante para a dinâmica dos preços ao consumidor advém da dinâmica dos salários", afirmou. A palavra "muito" foi incorporada ao documento em relação à versão de março. O BC lembra que haverá concentração de negociações salariais importantes no segundo semestre, quando a inflação acumulada em doze meses se encontrará em níveis próximos ao limite superior do intervalo de tolerância.

Na avaliação da autoridade monetária, o mercado de trabalho se mostra aquecido, a despeito de sinais bem incipientes de moderação. "O nível de emprego tem crescido de forma vigorosa e gerado as mais baixas taxas de desemprego desde o início do cálculo da série em março de 2002", afirma. O BC também destaca que o rendimento médio real, depois de crescer de forma vigorosa em 2010, mostra certa moderação, em parte explicada pela elevação das taxas de inflação nos últimos trimestres.

Para o Banco Central, "um aspecto crucial" é a possibilidade de que o aquecimento no mercado de trabalho levar à concessão de aumentos reais dos salários em níveis não compatíveis com o crescimento da produtividade. Segundo o relatório, algumas evidências disponíveis mostram que aparentemente isso tem ocorrido em certos setores. "Em ambiente de demanda aquecida, esses aumentos salariais tendem a ser repassados aos preços ao consumidor", destaca. O BC afirma que a moderação salarial constitui elemento-chave para a obtenção de um ambiente macroeconômico com estabilidade de preços.

Preocupado com o impacto do aumento da renda na dinâmica da inflação, o Banco Central discretamente indicou ter alguma preocupação com os reajustes previstos para o salário mínimo, que nos próximos anos será corrigido pela inflação mais a variação do PIB de dois anos antes de cada reajuste. "Os aumentos previstos para o salário mínimo nos próximos anos podem impactar direta e/ou indiretamente a dinâmica dos preços ao consumidor", menciona o BC, sem entrar em mais detalhes. Para 2012, ano em que a autoridade promete entregar a inflação em 4,5%, o salário mínimo deve subir mais de 10%.

Salário real

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, afirmou que o salário real no setor de serviços tem crescido nos últimos anos acima da produtividade, o que representa uma pressão de custos no setor. Ele indicou que este movimento tem relação com o processo de ganhos reais do salário mínimo, que desde 2003 subiu 76,5%.

Segundo Hamilton, o setor de serviços emprega proporcionalmente mais pessoas que têm seus vencimentos vinculados ao salário mínimo.

Além da pressão de custos, o diretor do BC também menciona que à medida que há um enriquecimento da população, a demanda por serviços aumenta. Ele apontou dados que mostram que os mais ricos consomem até 20% de sua renda familiar com serviços.

Hamilton também mencionou que os núcleos de inflação (do IPCA em geral) tanto mensais como em 12 meses seguem elevados.

O BC fez um box no Relatório Trimestral de Inflação divulgado hoje sobre as pressões de demanda e custo na inflação de serviços.

Expectativas

Hamilton informou que a projeção do mercado para o superávit primário em 2011 subiu de 2,70% do Produto Interno Bruto (PIB) previsto no relatório trimestral de inflação anunciado em março para 2,83% do PIB no relatório trimestral de inflação divulgado hoje. Segundo ele, a estimativa do mercado para 2012 recuou de 3% do PIB para 2,80% do PIB.

O Relatório de Inflação do Banco Central aponta como outra fonte de risco ao IPCA o comportamento das expectativas de inflação. Embora reconheça que houve certa acomodação na dinâmica das previsões para a alta dos preços, o Comitê de Política Monetária (Copom) avalia que existe o risco de que os níveis elevados da inflação mensal e da taxa acumulada em 12 meses verificados desde o fim de 2010 continuem a influenciar as expectativas de inflação, tornando sua dinâmica mais persistente.

O Copom avalia ainda que a geração de superávits primários compatíveis com as projeções de inflação contribui para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta e solidificar a tendência de redução da razão dívida pública sobre o PIB.

O BC destaca que seu cenário prospectivo central está condicionado à materialização das trajetórias com as quais trabalha para variáveis fiscais. O documento lembra o corte orçamentário anunciado pelo governo que reforça a visão de que está em curso um processo de consolidação fiscal.

Política fiscal contracionista

Hamilton avaliou que há claramente uma política fiscal contracionista neste ano, que ajuda no combate à inflação. Ele recomendou a leitura de um box sobre a questão dos impulsos fiscais, que está na página 37 do relatório de inflação. Hamilton explicou que este box mostra, considerando o cenário de cumprimento da meta fiscal prevista para 2011, que a economia brasileira contará com uma política contracionista, que levará a um aumento no esforço fiscal (já se desconsiderando os efeitos do ciclo econômico) do governo central de 0,8% a 1% do Produto Interno Bruto (PIB). As metodologias utilizadas foram as do FMI, da OCDE e o chamado método "holandês". "A política fiscal não é neutra neste ano. Isto ajuda a inflação", afirmou.

Em sua apresentação sobre o relatório de inflação, Hamilton destacou que a demanda interna no Brasil, embora em trajetória de moderação, conta com fatores de impulso, como a confiança de empresários e consumidores, o aumento da massa salarial e do emprego e também o crédito. Ele destacou que o consumo das famílias já cresce a taxas mais moderadas.

(Texto atualizado às 13h41)

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