Alex Silva/Estadão - 27/7/2021
Alex Silva/Estadão - 27/7/2021

Para concorrer com a Buser, alemã FlixBus, novo 'uber dos ônibus', vai estrear no Brasil este ano

Companhia, que tem valor de mercado de mais de US$ 3 bilhões, vai investir cerca de R$ 500 milhões em sua operação de intermediação de viagens rodoviárias

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 11h00

As estradas brasileiras estão prestes a receber mais um competidor no ramo de ônibus interestaduais. O unicórnio alemão FlixBus, que é uma espécie de Uber dos ônibus, está pronto para iniciar a operação no País, esperando apenas a liberação de órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Concorrente direta da brasileira Buser, a empresa separou US$ 100 milhões (cerca de R$ 507 milhões no câmbio atual) para investimentos por aqui.

“O Brasil é um dos maiores mercados do mundo e estamos à espera apenas de licenças, pois em todos os lugares do mundo operamos de maneira regular”, afirma Edson Lopes, diretor geral da FlixBus no País.

Estima-se que o mercado brasileiro de viagens interestaduais por via rodoviária seja próximo de 50 milhões de viagens por ano. Em 2020, por causa da pandemia, o número caiu 54%, mas neste ano já há uma recuperação. Lopes calcula que também com as viagens intermunicipais, o mercado é de 80 milhões de viagens por ano. 

Por isso, no longo prazo, ele acredita que é possível que a FlixBus se torne líder de mercado e com uma fatia acima de 10 milhões de passageiros. Para que esse número seja possível, a startup vai entrar no mercado com promoções agressivas, como aconteceu em outros mercados em que ela estreou. Recentemente, a companhia estreou no Reino Unido com viagens por menos de 1 euro. 

Assim como a sua principal concorrente, a companhia também quer apostar em um segmento premium, com ônibus mais confortáveis e com possibilidades de oferecer mais viagens em ônibus com acomodações leito e semi-leito. Para isso, a companhia tem feito parceria com montadoras e empresas financeiras para oferecer financiamentos para interessados.

“Isso está em discussão e queremos utilizar a nossa escala e marca para facilitar as operações”, afirma Lopes. Atualmente, cerca de 20 pessoas estão trabalhando na expansão da FlixBus, mesmo sem ela operar de fato. Lopes faz questão de dizer que a empresa “está funcionando” e que assim que tiver uma liberação do governo, irá começar a operar diversas rotas e ônibus, mas não abre quais serão as primeiras. 

A companhia também está em negociação para ocupar espaços em terminais rodoviários e quer ter também guichês para vendas físicas de passagem para democratizar o acesso aos passageiros que não tem como comprar pela internet. Os ônibus da FlixBus, apesar de serem de propriedade de terceiros, também serão inteiramente adesivados com a logomarca da empresa para potencializar a estratégia de marketing.

Mercado em expansão

A agora rival da FlixBus, a Buser inaugurou esse mercado em 2016 e de lá para cá amealhou mais de 1 milhão de passageiros e centenas de processos. Assim como a Uber quando começou a operar no Brasil, a companhia mexeu em um mercado regulado e diversas empresas do setor reprovaram a entrada de uma concorrente que sequer tinha um ônibus e, segundo eles, não cumpriam as normas estabelecidas pela ANTT. A Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terretre de Passageiros (Abrati), por exemplo, moveu ações para barrar o funcionamento da Buser, mas desistiu delas em abril de 2021.

A Justiça, vez ou outra, libera e proíbe a operação da Buser. Mesmo assim, o mercado acordou que esse tipo de serviço vai ser uma realidade, assim como os investidores. Em junho, a Buser recebeu aportes de R$ 700 milhões e afirmou que queria crescer 10 vezes em dois anos com mais de R$ 1 bilhão em investimentos. 

A FlixBus vai entrar em um mercado que já está mais acostumado com esse tipo de serviço. E vem com bastante dinheiro por trás. Os US$ 100 milhões que serão investidos por aqui virão de um aporte de US$ 650 milhões recebidos no mês passado. Agora, a companhia tem um valor de mercado de US$ 3 bilhões.

A aposta no País faz sentido, na visão de Lopes, já que não temos linhas de trens de passageiros interestaduais. Com isso, o Brasil é completamente dependente do transporte rodoviário – um mercado bem diferente do que ela costuma operar na Europa, que possui um leque de opções para os passageiros.

O executivo, no entanto, enxerga muita similaridade do Brasil com o mercado turco, onde começou a operar em 2019. “E o nosso negócio é lucrativo em todo os lugares em que atuamos”, diz ele.

Para Renato Mendes, sócio da F5 Business Growth, especializada em inovação, a entrada da FlixBus pode representar uma guerra de preços para o setor. Ele compara o negócio exatamente com os aplicativos de transporte, onde houve diversos entrantes e poucos sobreviventes, já que Uber e 99, agora controlada pelo grupo chinês Didi Chuxing, prevaleceram frente a concorrentes como Easy Taxi, Cabify, entre outros.

“Vai ter uma grande perda de rentabilidade do setor e virará uma briga de cachorro grande. Para as empresas se manterem competitivas, terão que investir muito dinheiro”, afirma.

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