Para economistas, Brasil seguirá ganhando com demanda chinesa

Participantes do seminário Perspectivas para o Agribusiness em 2011 e 2012 acreditam que demanda chinesa por matérias-primas continuará em ascensão por muito tempo

Ana Conceição, da Agência Estado,

26 de maio de 2011 | 15h44

A economia da China pode estar em desaceleração, induzida pelo próprio governo, mas sua demanda por matérias-primas continuará em ascensão por muito tempo, o que manterá os preços dos produtos agrícolas sustentados, segundo participantes do seminário Perspectivas para o Agribusiness em 2011 e 2012, promovido nesta quinta-feira, 26, em São Paulo. "O consumo de carnes, ovos e leite na China tem aumentado, fruto do crescimento da renda e da urbanização, e é algo que não tem volta", disse André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult. Outros emergentes também estão puxando o consumo e devem continuar a fazê-lo. "Vivemos um mercado em desequilíbrio na maioria das commodities agrícolas. Temos um choque de demanda", diz o consultor.

Para o economista Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria, salvo a hipótese de um tropeço, a China deve crescer 8% a 9% ao ano nas próximas duas décadas. "O consumo doméstico vai crescer muito. O país, portanto, continuará importando muita commodity." Ele lembra que os chineses conseguiram dois feitos inéditos na história recente: crescer sem parar por 30 anos e tirar milhões da pobreza. Nesse bojo veio a mudança dos hábitos alimentares, que beneficia o Brasil.

Outro lado da moeda é a profissionalização da atividade agrícola chinesa, em especial a de produção de carnes. Segundo dados apresentados por Pessôa, a China produz 50 milhões de t de carne suína por ano. Dez anos atrás, 75% eram concentrado em pequenos produtores, que utilizavam basicamente ração feita com milho. Hoje 65% da produção se concentra em médios e grandes produtores, que usam farelo de soja.

A China vai depender cada vez mais de importações de soja e de outros excedentes agrícolas. "Ela e outros países terão que ter estoques reguladores bem mais altos", avalia Pessôa. "É uma grande oportunidade para o Brasil." Ele ainda pondera que a demanda de cereais para a produção de biocombustíveis na Europa, nos Estados Unidos e em outras regiões não dá sinais de queda, o que também contribuirá para manter os preços sustentados no longo prazo.

Financeirização - Um eventual percalço no caminho da alta das commodities é a cada vez maior financeirização desses mercados. O hedge (proteção) inflacionário, contra a queda do valor do dólar, é um dos motores que tem elevado o preço das commodities. Segundo cálculos de Pessôa, da Agroconsult, tomando o preço atual da soja em Chicago, de cerca de US$ 13,50 por bushel, deflacionado ao câmbio de janeiro de 2007, o valor cairia para US$ 11,10.

"Se houver uma valorização do dólar ante uma cesta de moedas, alguma deflação de preços agrícolas deve ser verificada. Não acredito que isso vai acontecer, mas no longo prazo é algo que tem que ser considerado, pondera. Da mesma forma, algum episódio que promovesse uma forte saída dos fundos especulativos inverteria para baixo a tendência dos preços agrícolas, independente dos fundamentos de oferta e demanda. "Uma elevação de 2 a 3 pontos porcentuais nos EUA faria parte dos recursos migrar para fundos referenciados em taxas de juros norte-americanas". Mas é improvável que isso aconteça no curto prazo, reconhece.

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