Para Eichengreen, país que não quer juro alto faz ajuste fiscal

Segundo o professor da Universidade da Califórnia, o Brasil e outros emergentes terão de continuar com a política de aperto monetário ou fiscal em 2011 se quiserem manter as rédeas da inflação

Luciana Xavier, da Agência Estado,

08 de dezembro de 2010 | 19h23

O Brasil deve fazer sua parte para manter a inflação sob controle e o real menos forte, em vez de reclamar da política de alívio quantitativo do Federal Reserve. É o que deixa claro o economista Barry Eichengreen, professor de Economia e Ciência Política da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Segundo ele, o Brasil e outros emergentes terão de continuar com a política de aperto monetário em 2011 se quiserem manter as rédeas da inflação. "Se eles não gostam de subir juros e se não gostam de moeda forte, eles têm uma alternativa: apertar a política fiscal. Isso vai limitar o vigor do real", afirmou Eichengreen, em entrevista à correspondente da Agência Estado, em Nova York.

Para Eichengreen, os EUA podem precisar de mais afrouxamento quantitativo caso a taxa de desemprego continue a crescer. Já a Europa deverá adotar um Plano Brady para reestruturar a dívida de países do bloco. Autor de vários livros, Eichengreen lançará seu próximo em janeiro, com o título "Exorbitant Privilege", onde traça a ascensão e declínio do dólar. Leia, a seguir, a íntegra da entrevista:

Agência Estado - O senhor acha que 2011 será um ano melhor para a economia dos Estados Unidos?

Barry Eichengreen - A situação parece um pouco melhor nos Estados Unidos. Parece que a cura do sistema financeiro continua em curso, que as encomendas e a produção da indústria estão reagindo e que a confiança do consumidor está se fortalecendo um pouquinho. Mas há duas preocupações no horizonte. Uma é que o mercado imobiliário continua a se enfraquecer e a taxa de desemprego está crescendo de novo. Então, está claro que as perspectivas são incertas, mas estou um pouco mais otimista agora do que no passado recente.

AE - O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, disse esta semana que o Fed pode promover mais alívio quantitativo, se necessário. O senhor acredita que será necessário?

Eichengreen - Política fiscal seria mais eficiente, mas por razões políticas o uso da política fiscal está fora da mesa, o que faz do Fed a última alternativa para se realizar políticas. Se a economia enfraquecer, o Fed é o único executor de políticas disponível nos EUA e QE2 ou QE3 (do inglês quantitative easing) é o único instrumento disponível. Pode ser necessário (mais alívio quantitativo). Pense que QE2 é como uma política de seguro. Se a economia melhorar, se a taxa de desemprego começa a declinar, então não será necessário. Se a deflação for evitada, então não será necessário. Mas se o desemprego continuar a crescer, o Fed terá de fazer muito mais do que comprar US$ 600 bilhões em títulos.

AE - Com tão poucas armas para lutar pela retomada da economia, 2011 deverá ser um ano mais difícil pelo menos para o presidente Barack Obama?

Eichengreen - Claro. Sem dúvida ter a Câmara de Representantes controlada pelos republicanos é mais difícil para Obama do que tê-la nas mãos dos democratas.

AE - Se o Fed continuar com alívio quantitativo, isso deve levar a mais desvalorização do dólar. A guerra cambial será acirrada?

Eichengreen - Vamos voltar um pouco. Não acho que o QE2 irá ter um grande impacto na economia. Ele terá pequeno impacto nos juros e na economia. Nesse caso, mesmo um impacto pequeno é melhor do que nada. Mas, se terá um pequeno impacto nos juros e na economia, deve também ter peso menor sobre o dólar. Não vejo uma queda acentuada no dólar por causa da compra de US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro pelo Fed nem na compra de US$ 1 trilhão porque essa compra terá impacto reduzido nos juros e na economia.

AE - Então por que os emergentes, incluindo o Brasil, criticam tanto a política de alívio quantitativo? Há exagero nessas críticas?

Eichengreen - Acho que os autoridades brasileiras precisam se perguntar o seguinte: o Brasil estaria melhor se os EUA deslizassem para deflação, como no Japão? O Brasil estaria melhor se os EUA tivessem um duplo mergulho na recessão? O Brasil e outros mercados emergentes estão sentindo os efeitos de um crescimento lento, decepcionante da economia norte-americana e seu movimento em direção às exportações. Este é o problema fundamental e não o QE2. O QE2 é apenas uma pequena tentativa de fazer algo sobre o problema.

AE - Com tantas incertezas ainda nos EUA, como fica o cenário para os emergentes?

Eichengreen - Se os EUA continuarem a crescer, os emergentes podem crescer também. Países como China e Brasil e outros emergentes terão de continuar a apertar a política monetária para limitar a inflação. Se eles não gostam de subir juros e se não gostam de moeda forte, eles têm uma alternativa: apertar a política fiscal. Isso vai limitar o vigor do real. E vai controlar o problema da inflação.

AE - O senhor acredita que o governo de Dilma Rousseff será capaz de fazer o aperto fiscal necessário?

Eichengreen - Precisamos lhe dar uma chance. Precisamos ter algumas evidências maiores para saber se ela será capaz ou não.

AE - Falando de Europa, a situação pode piorar em 2011 na zona do euro?

Eichengreen - A Europa está rapidamente chegando a um momento decisivo. Ou a situação pode se deteriorar demais, se eles continuarem no caminho atual, se eles continuarem tratando os problemas como individuais. Ou eles podem reconhecer que têm um problema sistêmico e que precisam fazer duas coisas: fortalecer seus bancos e reestruturar suas dívidas, não na Grécia ou Irlanda, mas em boa parte da zona do euro. Se eles fizerem essas duas coisas juntas, acho que eles conseguem sair da crise.

AE - O senhor acha possível que eles consigam fazer o que é necessário para sair da crise?

Eichengreen - Toda vez que a Europa teve de decidir entre seguir adiante ou retroceder, ela escolheu a primeira opção. A história sugere que ela ainda pode fazê-lo. No final de semana, houve discussões sobre a criação de eurobônus, envolvendo todos os países da zona do euro. Outra opção seria a adotar um Plano Brady (plano de reestruturação da dívida externa) para a Europa, como o da América Latina, em 1989, e acho que eles podem fazer algo nesse sentido.

AE - Mas a Alemanha está se mostrando resistente a conceder ajuda e à criação do bônus soberano europeu...

Eichengreen - A Alemanha tem de fazer o mesmo que deve fazer o ministro da Fazenda do Brasil quando ele critica o alívio quantitativo e se perguntar: qual é a outra alternativa? As autoridades alemãs não gostam da ideia de abrir seus bolsos para ajudar a soberania da Europa. Mas eles tem de se perguntar qual a outra opção. Se os problemas se agravarem, os bancos alemães serão afetados. Há conversas na Alemanha sobre reintroduzir uma moeda nacional. Não creio que isso ocorrerá, mas se ocorresse as exportações industriais da Alemanha seriam destruídas. Eles precisam pensar com cuidado sobre que outra alternativa existe.

AE - O euro deve sobreviver a esta crise?

Eichengreen - O euro vai sobreviver, pois acabar com ele e reintroduzir moedas nacionais seria caótico, iria gerar uma crise financeira maior do que as que vimos até agora. 

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