Para investidor, oferta de ações da Petrobrás foi ‘abominável’

Mobius, do Templeton, diz que houve grande desrespeito ao minoritário; associação teme repetição de processo em outras estatais

Nicola Pamplona e Kelly Lima, de O Estado de S. Paulo,

24 de setembro de 2010 | 22h30

Os temores dos minoritários com relação à capitalização da Petrobrás foram confirmados na sexta-feira: o governo ampliou sua fatia na empresa, os pequenos investidores foram diluídos, e o lançamento das ações teve forte tom eleitoral. O gestor Mark Mobius, que dirige o fundo Templeton Asset Management, classificou o processo como abominável, com grande desrespeito ao minoritário.

Para o superintendente da Associação dos Investidores em Mercados de Capitais (Amec), Edison Garcia, o principal risco, agora, é que o modelo adotado com a Petrobrás se repita em outras estatais. A Amec protesta contra "inconsistências jurídicas" e problemas relacionados à governança corporativa durante a elaboração do lançamento de novas ações da Petrobrás.

"O processo inteiro é abominável e uma terrível violação dos direitos dos acionistas", comentou Mobius, que gere fundos de investimentos de US$ 34 bilhões, em entrevista à Bloomberg. "A própria ideia de o governo não usar dinheiro e estabelecer um preço questionável para as reservas (da cessão onerosa) é injusto", argumentou o investidor.

A questão do preço das reservas é uma das "inconsistências" observadas por Garcia no processo, assim como a transferência do poder decisório para o conselho de administração da companhia. "Muitas das principais questões deveriam ter sido discutidas pelos minoritários", comentou o superintendente da Amec. Ele diz, no entanto, que a entidade não vai contestar judicialmente o resultado.

"Isso é decisão de cada investidor", afirmou, destacando que a preocupação da entidade recai agora sobre as consequências da capitalização. "Teremos que ver os efeitos desse processo para o futuro do mercado de ações brasileiro, em termos de credibilidade, de governança corporativa", disse. "O sucesso da capitalização sinaliza que o governo pode repetir o modelo com outras companhias."

Ainda não há informações definitivas sobre a nova composição acionária da companhia, mas a expectativa é de diluição dos minoritários, uma vez que o governo anunciou um aumento de sua fatia para 48%, com a participação de instituições federais como o BNDES e o Fundo Soberano do Brasil. "A pergunta é: quem são os compradores?", questionou Mobius, levantando dúvidas sobre as notícias a respeito de grande demanda por investidores privados.

Embora considere que a fatia do governo ficou abaixo do esperado, o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), disse que as motivações políticas do governo prejudicaram a participação do investidor privado. "Só o fato de Lula ter ido hoje à Bolsa, vestindo jaleco e tal, demonstra a politização do processo. Se o governo tivesse colocado menos dinheiro na capitalização, a Petrobrás poderia ter atraído mais investidores", comentou.

Mesmo assim, ele diz que o governo e a Petrobrás são os principais vitoriosos na ação: o governo, por ter aumentado em 9% sua participação na empresa; e a estatal, por ter conseguido alavancar sua dívida. "Só os minoritários é que saem um pouco frustrados porque não conseguiram comprar mais", disse.

"Conheço muitas pessoas que tiveram que se endividar para tentar acompanhar a oferta", acrescenta o empresário baiano Romano Allegro, que entregou à Petrobrás um manifesto contra o tamanho da capitalização em uma das primeiras assembleias de acionistas sobre o tema, ainda em abril.

"O sucesso da oferta é bom para o País, vai garantir mais destaque para o Brasil no exterior. Mas para os minoritários foi um esforço sobre-humano", comentou o investidor.

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