Ernesto Rodrigues/AE
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Para Mantega, esta é a pior crise desde 1929

Segundo o ministro da Fazenda, no entanto, Brasil está mais preparado que em 2008 para enfrentar turbulências e possui a segunda moeda mais negociada no mercado

Anne Warth e Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

16 de dezembro de 2011 | 16h08

SÃO PAULO - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou a ressaltar que há risco das economias avançadas passarem por recessão. Ele deu esta declaração durante palestra para um grupo de 30 estudantes do curso intensivo de Jornalismo Econômico realizado pelo Grupo Estado.

De acordo com o ministro, o quadro internacional tem se agravado e há vários indicadores que confirmam esta situação. "Temos lido na imprensa informações desta piora da economia internacional, com indicadores que alguns dias melhoram e outros dias pioram, mas esta é a pior crise desde 1929", disse Mantega, ponderando que a crise atual é um prosseguimento da crise de 2008. O ministro disse ainda que o maior problema para solucionar a crise na União Europeia o fato de a região ser formada por 27 países, que têm interesses diferentes. Desta forma, de acordo com ele, sempre quando se chega a uma solução a crise já está num patamar avançando.

Segundo Mantega, uma pergunta frequente é se o Brasil está preparado para enfrentar a crise. "O Brasil está até mais preparado que em 2008 para enfrentar a crise", disse o ministro. Ele acrescentou que o País tem hoje o sexto maior PIB do mundo, passou o Reino Unido e em breve vai superar a economia francesa. "É uma economia respeitável. Só perde em termos de taxa de crescimento para o PIB da China", disse Mantega.

O ministro disse que o real é hoje a segunda moeda mais negociada no mercado de derivativos, atrás apenas do dólar, mas acima do euro, do iene e da libra esterlina. "Isso não é algo recente, já é verdade há vários meses", disse. "Isso significa que há confiança na nossa moeda, que ganha respeitabilidade internacional", afirmou.

Mantega disse que o governo vai perseguir em 2012 uma taxa de crescimento de 4,5% a 5%, repetindo o mesmo cenário traçado hoje pela presidente, Dilma Rousseff. O ministro explicou, contudo, que a economia este ano deverá crescer um pouco abaixo da taxa projetada pela Fazenda, de 3,7%. "O importante é o dinamismo da economia, que vem mostrando que de 2003 a 2010 crescimento ano a ano do PIB. A média de expansão no período foi de 4% ao ano, compensando inclusive o ano de 2009 que apresentou crescimento baixo", lembrando que antes o PIB crescia a uma média de 2% ao ano.

Mantega disse ainda que o País vai continuar e estimular os investimentos. "É importante que o consumo seja atendido pela produção nacional", afirmou, ao comemorar o fato de que o Brasil é hoje um dos maiores mercados consumidores do mundo. "Passamos para algo em torno de 20% do PIB. Ainda deixa a desejar, é baixa. Gostaríamos que chegasse a 23% a 24% do PIB, e estamos caminhando nessa direção nos próximos anos".

É muito importante para o crescimento da economia em 2012 a manutenção de uma política fiscal sólida, afirmou o ministro. De forma simples, disse o ministro, significa que o governo deve economizar mais e gastar menos para evitar que a economia fique suscetível à crise externa. Ele lembrou que desde 1999, o Brasil vem conseguindo superávits primários ao redor de 3% e que esse patamar só não foi alcançado nos anos de 2009 e 2010. "Mesmo assim, conseguimos passar melhor do que outros países. E estamos caminhando para um déficit nominal zero", disse.

De acordo com o ministro, o melhor termômetro da boa situação fiscal do País é a relação dívida-PIB, que vem se reduzindo em termos relativos e que em 2011 fechará em torno de 38%. Ele também discorreu sobre a política monetária, destacando a queda da taxa básica de juro. No entanto, disse ele, o País ainda tem uma taxa de juro real "relativamente alta" e que o governo pretende perseguir uma redução desta taxa ao longo de 2012. Ainda de acordo com o ministro, a taxa de juro real até novembro estava em 4,14%. "A taxa de juro vem caindo porque a economia vem desacelerando e a inflação está sob controle", disse ele.

Liquidez

O ministro afirmou também que não falta liquidez no mercado. Prova disso foi o leilão, feito pelo Banco Central (BC), ontem. "Não há falta de crédito no Brasil. Por via das dúvidas, o BC resolveu fazer um leilão de dólares, fez uma consulta para saber se havia demanda", afirmou. "Concluímos que não há falta de dólares no mercado, está funcionando bem, o mercado spot, à vista e futuro. Prova disso foi que ninguém quis entrar no leilão".

De acordo com ele, circularam nos últimos dias informações de que havia escassez de crédito no mercado brasileiro. "O que havia era um encarecimento de crédito para comércio exterior devido à restrição de liquidez no mercado europeu", afirmou, ressaltando que os ACCs estão funcionando normalmente. "Houve encarecimento, mas não há falta de crédito. Talvez haja maior seletividade por parte das instituições financeiras.

Balança

Mantega disse ainda que projeta saldo da balança comercial do País neste ano positivo em US$ 28 bilhões. Segundo ele, o principal problema do País hoje é o déficit da balança comercial de manufaturados, uma das consequências diretas da crise financeira internacional.

Segundo ele, até outubro, as exportações de manufaturados somavam US$ 91 bilhões, enquanto as importações atingiam US$ 179 bilhões, o que gerou um saldo negativo de US$ 88 bilhões. "Esse é o principal problema que nós temos, uma consequência direta da crise internacional", afirmou.

Texto atualizado às 17h14

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