Para RBS e BBVA, IOF fortalece real no curto prazo

Para os bancos, porém, o dólar deve respeitar novo piso de R$ 2

Fernando Nakagawa, correspondente da Agência Estado,

05 de junho de 2013 | 09h13

LONDRES - A retirada do Imposto sobre Operações Financeira (IOF) para investidores estrangeiros na renda fixa é positiva porque reduz as barreiras do mercado brasileiro, mas não será suficiente para reverter completamente no Brasil a tendência da moeda norte-americana, que tem subido em todo o mundo com o fortalecimento da economia dos Estados Unidos. A opinião é de algumas instituições financeiras europeias. Para casas como o Royal Bank of Scotland e o espanhol BBVA, o dólar vai recuar no curto prazo como reação à medida, mas a moeda deve respeitar um novo piso informal de R$ 2.

"Todos os ajustes realizados pelo governo brasileiro ao longo do último ano e meio foram direcionados aos fluxos de capital para a economia real porque o governo estava cada vez mais preocupado com a capacidade das empresas locais em obter financiamento barato. Portanto, a decisão de ontem sinaliza uma mudança de estratégia cambial do governo e deve gerar uma reação positiva no curto prazo, com alguns investidores aproveitando a oportunidade para aumento do carry trade", diz a estrategista para América Latina do Royal Bank of Scotland (RBS), Flavia Cattan-Naslausky.

"Mas, por si só, essa medida não é forte o suficiente para inverter a tendência do câmbio", afirma a estrategista do RBS. "Com a recuperação econômica brasileira dolorosamente lenta e a aceleração no ritmo de deterioração da conta corrente, o risco de uma intervenção para conter a força do dólar não vai embora", completa a economista, ao afirmar que, agora, passa a trabalhar com o cenário em que a moeda norte-americana deve respeitar a banda informal entre R$ 2 e R$ 2,20.

O analista para Brasil do espanhol BBVA Research, Enestor dos Santos, tem opinião semelhante e também não prevê mudanças drásticas no mercado de câmbio e compartilha a visão do novo piso de R$ 2. "A medida deve ajudar a manter o dólar entre R$ 2 e R$ 2,10. Entendo que a medida de ontem pode ser entendida como um sinal de que o governo parece contente com o dólar nesse intervalo", diz.

Para o economista, a decisão anunciada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, não chega a surpreender porque parte dos analistas e investidores internacionais já cogitava essa reversão do IOF diante da subida das cotações do dólar nas últimas semanas no Brasil.

Apesar disso, o economista do BBVA reconhece como um ponto positivo o fato de que o governo brasileiro parece estar se antecipando à provável mudança na política monetária nos Estados Unidos. "As declarações do ministro Mantega me surpreenderam um pouco pelo fato de já estarem agindo pensando na retirada dos incentivos monetários nos EUA", disse, ao comentar que outro fato que pode ser considerado como "positivo" para a imagem do Brasil no exterior foi o aumento de 0,50 ponto porcentual no juro na semana passada, fato que mostraria o compromisso do Banco Central com a meta de inflação.

Flavia Cattan-Naslausky concorda que a mudança do IOF pode ser considerada um movimento preventivo. "A decisão sobre o IOF pode simplesmente ser uma antecipação ao risco de fuga", diz ao comentar a perspectiva de mudança da política monetária nos EUA, o que levaria parte do capital que está alocado em outros países para os EUA.

A estrategista do RBS lembra, porém, a equipe econômica ainda tem outra carta na manga que poderia ser usada em uma situação mais à frente. "O governo não alterou o IOF sobre os derivativos. Diante do impacto negativo na liquidez e volatilidade visto quando essa medida foi anunciada, a alteração dessa alíquota (nos derivativos) teria tido um impacto positivo muito mais pronunciado no mercado de câmbio", diz. "O governo, porém, não parece disposto a desistir de todos os controles."

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