Parecia esfaqueamento, mas o assassino foi o airbag

Parecia esfaqueamento, mas o assassino foi o airbag

Em um alerta incomum, autoridades de segurança no trânsito dos EUA pedem para que os proprietários de mais de 5 milhões de veículos "ajam imediatamente" para consertar os airbags

Hiroko Tabuchi e Christopher Jensen, The New York Times

21 de outubro de 2014 | 17h02


Hien Tran agonizava na terapia intensiva este mês após um acidente de carro, enquanto detetives buscavam pistas que explicassem os aparentes ferimentos à faca encontrados no pescoço dela.

Uma reviravolta improvável veio pelo correio uma semana depois da morte dela, em decorrência dos ferimentos sofridos. Tratava-se de uma carta da Honda insistindo para que ela trouxesse seu Accord vermelho a uma concessionária por causa de um defeito nos airbags que poderia fazê-los explodir.

"Disseram que o responsável foi o airbag", disse Tina Tran, irmã gêmea da vítima.

Hien se tornou a terceira morte ligada até o momento ao número cada vez maior de recalls de veículos contendo airbags defeituosos fabricados pela Takata, fornecedora japonesa de autopeças. Mais de 14 milhões de veículos de 11 montadoras diferentes que usam essa peça foram alvo de recall em todo o mundo.

Depois que Hien bateu o carro, o airbag que deveria protegê-la explodiu e disparou estilhaços na direção do pescoço dela, disse o escritório do xerife de Orange County.

Na segunda feira, num alerta incomum, autoridades federais de segurança no trânsito insistiram para que os proprietários de mais de 5 milhões de veículos "ajam imediatamente" para consertar os airbags.

"Precisamos que todos recebam o recado e tomem as medidas necessárias para proteger a si mesmos e suas famílias - estamos falando de milhões de veículos", disse David J. Friedman, vice-diretor da Administração Nacional de Segurança nas Estradas.

Mas a solicitação urgente certamente criaria confusão entre os proprietários. A Honda disse não dispor de peças em número suficiente para consertar os carros imediatamente. A Toyota disse que em determinados casos optaria por desativar o airbag, deixando um aviso para que o banco do passageiro não seja usado. O próprio Friedman admitiu que lista de veículos cobertos no alerta da agência estava incompleta.

O alerta ocorre num momento de crise envolvendo a segurança na indústria automobilística, fomentada por revelações segundo as quais a General Motors teria ocultado durante anos um defeito na chave de ignição ligado a pelo menos 29 mortes. As montadoras e as autoridades federais responderam com urgência cada vez maior, solicitando o recall de mais de 50 milhões de veículos nos Estados Unidos este ano, quebrando o recorde de 2004, com 30 milhões.

Os airbags têm sido um dos maiores problemas, especialmente aqueles fornecidos pela Takata.

Uma investigação do New York Times revelou em setembro que Honda e Takata foram negligentes com o problema durante anos antes de finalmente convocar os recalls. Queixas enviadas às autoridades contra as montadoras responsabilizaram os airbags da Takata por pelo menos 139 lesões, incluindo 37 casos de pessoas que relataram que o airbag explodiu, de acordo com a investigação.

A própria Honda disse que duas pessoas (além de Hien) foram mortas pelos airbags explosivos, que também feriram mais de 30 pessoas.

Mas, para muitos dos proprietários de veículos afetados que receberem o alerta na segunda feira, consertar seus carros não será tão fácil.

Ecoando um problema que afetou os recalls convocados por causa do defeito na chave de ignição pela General Motors, as peças necessárias para a substituição estão indisponíveis, quadro que não deve mudar nas próximas semanas. "Simplesmente não há peças para consertar imediatamente cada um dos carros envolvidos no recall", disse Chris Martin, porta-voz da Honda.

A Honda está enviando notificações de recall apenas de acordo com a disponibilidade das peças, dando prioridade às áreas de maior umidade. Ele disse que pode demorar semanas até que os motoristas recebam as notificações.

Com 2,8 milhões de carros afetados pelo alerta de segunda feira, a Honda tinha uma "montanha mais alta a escalar", disse ele, acrescentando que os engenheiros da Honda "não têm uma ideia objetiva" de quando os consertos podem ser feitos. O porta-voz disse também que a possibilidade de empréstimo de carros substitutos seria avaliada caso a caso, sublinhando que isso não fazia parte da proposta.

A Toyota, que teve 844 mil veículos afetados pelo alerta, anunciou que estava entrando em contato com cerca de 247 mil proprietários da região da costa do Golfo do México para que não demorassem em fazer o conserto. A Toyota disse que, se as peças sobressalentes não forem suficientes, uma possibilidade era desativar os airbags em certos casos e deixar um aviso para vetar o uso do banco do passageiro.

"Estamos tentando nos concentrar nas áreas confirmadas pelo resultado dos testes da Takata", escreveu a porta-voz Cindy Knight num e-mail.

No centro do defeito há um propulsor que deveria queimar rapidamente e produzir gás para inflar o airbag, mas, na prática, explode com força demais e pode romper seu invólucro, disparando fragmentos de metal contra o motorista. Recentemente a Takata realizou testes nos airbags devolvidos, levando ao alerta de segunda feira.

Friedman sublinhou que o alerta tinha como alvo especialmente os donos de veículos de áreas de alta umidade, como a Flórida, onde o propulsor dos airbags apresentava maior probabilidade de explodir.

Nissan, Mazda e BMW também são mencionadas no alerta. Mas o número exato de veículos cobertos não estava claro, pois algumas montadoras incluídas recentemente em recalls ligados à Takata,como Chrysler, Ford, Mitsubishi e Subaru, não foram citadas.

"Há outras montadoras, e estamos atualizando nossos alertas", disse Friedman.

Nos casos de recall, a proporção dos carros que são realmente consertados pode ser pequena.

O Accord vermelho de Hien foi incluído num recall anterior, em 2009, revelou a Honda na segunda feira. Mas, indicando as dificuldades inerentes aos recalls, os proprietários anteriores do carro não tinham recebido o reparo, e Hien comprou o carro usado no ano passado sem nenhum conhecimento do status do airbag. Não há lei obrigando os carros usados a fazerem os reparos de recalls antes de poderem ser vendidos.

Especialistas em segurança dizem que outros casos de ruptura do airbag podem ter passado despercebidos, ou não constam como tal nos relatórios e, com isso, carros afetados são deixados nas ruas.

Um advogado da Califórnia diz, por exemplo, que um quarto motorista, Hai Ming Xu, 47, foi morto em setembro do ano passado por um airbag que explodiu em seu Acura modelo 2002. As autoridades não determinaram a origem dos seus ferimentos, embora o relatório do legista citasse rasgos no airbag e ferimentos no rosto resultantes do impacto de objeto estranho.

Como no caso de Hien, os detetives de Orange County passaram duas semanas suspeitando de assassinato, chegando até a interrogar um "possível suspeito" como parte da investigação, antes de perceber que a culpa era de um defeito no airbag.

E os problemas persistem com a Honda e sua negligência ao informar defeitos em potencial.

Em pelo menos quatro outros casos com suspeita de explosão do airbag, incluindo aquele ligado à morte de Xu, a Honda não emitiu um informe de possível alerta às autoridades responsáveis, como é exigido nos casos em que há alegações de defeitos que teriam resultado em ferimentos ou mortes, de acordo com advogados e documentos jurídicos.

Num caso diferente, em setembro de 2011, Eddie Rodriguez bateu seu Honda Civic em Porto Rico, ativando airbags que dispararam "pedaços afiados de metal" na direção dele, provocando muitos ferimentos, de acordo com um processo aberto por ele contra a Honda no ano seguinte. A Honda chegou a um acordo confidencial com Rodriguez no ano passado. A Honda disse que tinha incumbido terceiros de realizar uma auditoria para verificar se houve "possíveis imprecisões nos relatórios".

No salão de manicure de Tina Tran, as eventuais mudanças não servirão de consolo. Tina disse que a irmã gêmea tinha passado três décadas afastada dela; quando ela veio do Vietnã aos Estado Unidos em 1983, a irmã, agora morta, ficou para trás para cuidar dos pais.

Foi somente em 2012, após a morte dos pais, que Hien Tran imigrou para os EUA para reencontrar a irmã.

Na noite de 29 de setembro, Hien deixou o salão para voltar para casa.

A poucos quarteirões do seu endereço, na zona leste de Orlando, Hien vez uma conversão numa avenida movimentada e bateu quase de frente com um Dodge, de acordo com o boletim de ocorrência policial. O elo entre a morte de Hien e o airbag do carro foi revelado ao público pela primeira vez pelo Orlando Sentinel no dia 17 de outubro.

Horas mais tarde, uma preocupada Tina Tran e seu filho vasculharam o bairro, chegando a passar pelo local do acidente. Então, na manhã seguinte, veio o telefonema dos detetives, que inicialmente investigaram o acidente como homicídio.

Os paramédicos disseram que Hien jamais recuperou a consciência. Mas a irmã tem uma memória diferente. Ao lado da cama dela, no hospital, ela sussurrou repetidas vezes que sentia muito - por não ter podido protegê-la, e por terem passado tanto tempo afastadas.

"Ela abriu os olhos e olhou para mim", disse Tina. "Parecia muito triste, e chorou."/Tradução: Augusto Calil

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