Parlamento grego aprova pacote de austeridade e violência castiga o país

Governo de Papandreou precisa aprovar nesta quinta-feira lei permitindo que cortes de 78 bilhões de euros possam ser postos em prática imediatamente

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

29 de junho de 2011 | 23h00

Por uma margem apertada de votos e diante das piores cenas de violência desde o colapso da economia mundial, o Parlamento grego aprovou um novo plano de austeridade de 78 bilhões até 2015 e fez com que mercados de todo o mundo respirassem aliviados.

Mas se a batalha no Parlamento foi vencida, a aprovação fez eclodir uma verdadeira revolta em Atenas que ameaça agora a capacidade do governo em implementar a reforma. A população alerta que não cederá nem aceitará pacificamente as medidas draconianas. Nesta quinta-feira, 30, o governo de George Papandreou ainda precisa aprovar uma lei permitindo que os cortes entrem em vigor imediatamente.

O pacote era a condição imposta pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para liberar mais uma parcela do resgate para a Grécia, além de negociar um novo plano de 120 bilhões para evitar um colapso do país.

Em Atenas, a percepção é de que o voto garantiu ao governo de Papandreou liquidez para continuar administrando o país. Em Bruxelas, garantiu a estabilidade do euro. Para o FMI, evitou mais uma crise mundial.

Na ruas, no entanto, a insatisfação da população explodiu. Prédios públicos foram incendiados, dezenas de pessoas acabaram em hospitais e a violência se instalou. "O real desafio é agora lidar com a recessão e com uma sociedade que não aguenta mais os cortes que estão sendo obrigada a fazer", alertou o analista político Kostas Panagopoulos, por telefone ao Estado.

Para muitos, a aprovação do novo pacote apenas vai prolongar a recessão no país. Em 2010, quando o primeiro plano foi adotado, o desemprego no país dobrou.

Repercussão. O temor era de que uma rejeição do pacote no Parlamento ontem fizesse reviver a onda de turbulência que marcou o mundo em setembro de 2008, após a quebra do Lehman Brothers. Não por acaso, a chanceler alemã, Angela Merkel, foi uma das primeiras a comemorar a decisão em Atenas. "Esse foi um passo importante para o futuro da Grécia, mas também para a estabilidade do euro."

John Lipsky, diretor-gerente interino do FMI, também comemorou, apontando que a "aprovação das medidas de austeridade é uma boa notícia".

Papandreou havia alertado que sem a aprovação do pacote, a Grécia teria dinheiro em caixa para menos de uma semana. Pelo novo plano de austeridade, está previsto a elevação de impostos para arrecadar 40 bilhões, demissão de 150 mil funcionários públicos, redução em 15% nos salários, cortes de diversos privilégios sociais, além da privatização das principais empresas e portos do país, com a meta de arrecadar outros 50 bilhões.

O plano foi aprovado por 155 votos a favor, 138 contra e 5 abstenções. Os socialistas que votaram contra acabaram expulsos ontem mesmo do partido.

No mercado financeiro, a reação foi positiva. Mas essa pode ser apenas uma reação imediata.

Tanto na UE como em outros mercados, a percepção é de que já se reconhece que a Grécia não pagará todo o empréstimo que receberá, diante da dívida que atinge 160% de seu Produto Interno Bruto (PIB). O risco país de Irlanda, Portugal, Itália e Espanha caíram e o euro ganhou terreno. A Bolsa de Frankfurt subiu 1,7%; Paris, 1,8%; e Londres, 1,5%.

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