Leo Caldas/Estadão
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Patroa nordestina tem duas empregadas e não frita 'nem um ovo'

Ela admite ser comodista e mantém  duas ajudantes em casa, uma para cozinhar e passar roupa e a outra para a faxina

Angela Lacerda, correspondente,

22 de abril de 2013 | 08h00

Rosa Samico, 66 anos, foi criada em uma família sempre servida por duas empregadas domésticas. Quando se emancipou e passou a morar na sua própria casa, manteve a tradição.

Hoje, separada, divide o apartamento de 100 metros quadrados com uma filha adulta, em um bairro de classe média alta, na zona norte do Recife, mas continua empregando duas funcionárias: Sueli Soares Barreto, 37 anos, e Solange Pereira da Silva, 43 anos.

A primeira faz a faxina e lava a roupa. A segunda cozinha e passa a roupa. "Sei que não tem necessidade, mas gosto", afirma ela. "Sou muito comodista".

De estilo simples, sem nenhum tipo de sofisticação, Rosa não aprecia e não faz nenhum serviço doméstico. Admite ter sido mal acostumada: nunca lavou um banheiro, não frita um ovo.

"Acho que tem a ver um pouco com a cultura pernambucana, nordestina", reconhece. Apesar dos traços herdados da "casa grande & senzala", estudada pelo sociólogo Gilberto Freyre, ela tem pavor à escravidão.

Mesmo antes da chamada PEC das Domésticas, suas funcionárias nunca trabalharam mais que oito horas diárias e sempre tiveram carteira assinada e direitos trabalhistas assegurados.

Rosa tem dois filhos. A filha que mora com ela e um rapaz, já casado. Sua nora não se acostuma com o hábito da sogra e sempre lhe lembra da economia que poderia fazer com uma única funcionária.

Ela justifica com o argumento de que uma só não daria conta de fazer todo o serviço bem feito, pois gosta de seu apartamento bem limpo e organizado.

No íntimo, pesa a dificuldade de desempregar alguém e de quebrar um estilo de vida - de casa cheia - que lhe traz boas lembranças e vivências.

Funcionária pública estadual aposentada desde 2000, Rosa tem um salário que lhe permite manter este "luxo". "Não vivo folgada, mas vivo bem", diz, sem deixar de reclamar que recebe quase metade do salário bruto devido aos descontos de impostos.

Solange e Sueli só têm elogios à patroa. Já há 16 anos com Rosa, Sueli aprovou a PEC das Domésticas. "Tem muita gente sendo demitida, mas mesmo que eu também fosse, continuo aprovando a lei", afirmou.

Ela larga o trabalho entre as 15 e 17 horas, dependendo da necessidade. Solange confessa ter tido medo de ser dispensada. Começa a trabalhar às 8 horas e por volta das 14 horas já está se arrumando para ir embora.

"Dona Rosa não exige que a gente a sirva nas refeições, por exemplo. Se a gente acabou o serviço, pode ir embora", relata. "Eu digo que elas é que ficam me devendo hora de trabalho", brinca Rosa.

Duas empregadas

A empresária Márcia Azevedo, 37 anos, casada, dois filhos - de 10 e sete anos - tem duas empregadas domésticas por necessidade. O marido é dono de restaurante e trabalha à noite.

Ela não tem hora certa para chegar. As crianças não podem ficar sozinhas. Por isso emprega uma moça responsável pela cozinha e arrumação - que trabalha de segunda a sábado - e uma babá que fica de segunda a sexta.

A nova lei trouxe algumas dificuldades, mas ela está se acertando com suas funcionárias, para que cada um cumpra suas obrigações e tenha seus direitos respeitados.

A babá veio do interior e dorme na sua casa. Para evitar questionamentos judiciais futuros, ela não é acionada para nenhuma tarefa depois que Márcia chega em casa.

A empresária também decidiu pagar mensalmente um adicional de 10 horas extras, numa espécie de banco de crédito para cobrir eventualidades. "A lei é positivas, mas as pessoas têm de ter tranquilidade para se ajustar", defende.

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