Peruanos chegam ao Brasil para disputar mercado de refrigerantes

Ajegroup e San Miguel, dois grupos concorrentes dirigidos por irmãos, terão fábricas no País produzindo bebidas de baixo custo

Naiana Oscar, de O Estado de S. Paulo,

21 de outubro de 2010 | 22h30

Uma família peruana, desconhecida dos brasileiros, mas que há algum tempo incomoda grandes fabricantes de refrigerante na América Central e, mais recentemente, na Ásia, está chegando ao Brasil. A partir de 2011, os irmãos Añaños iniciam a produção em fábricas do Rio de Janeiro e da Bahia, com marcas que chegam para disputar a população de baixa renda.

Nos 12 países em que já estão presentes, o preço de suas bebidas é equivalente à metade do valor de uma tubaína.

No ano passado, a Ajegroup faturou US$ 1,3 bilhão, apesar da crise financeira mundial. O resultado deu força a uma meta antiga da empresa de entrar no mercado brasileiro de bebidas. Há pelo menos dois anos, os irmãos Añaños, avessos a aparições na mídia, mencionaram, nas poucas entrevistas que concederam, o interesse pelo Brasil. "A crise atrasou os planos, mas agora estamos chegando", diz o diretor corporativo do grupo, Alfredo Paredes. "O mercado brasileiro e nossa oferta de produtos estão cada vez mais ajustados. Não podíamos deixar passar a oportunidade de entrar num dos destinos mais importantes para consumo de refrigerantes do mundo."

Empreendedores

Além de produzir bebidas, identificar boas oportunidades de negócio está entre as especialidades da família Añaños. A empresa foi fundada na década de 80, numa cidade peruana miserável, berço do grupo terrorista Sendero Luminoso. Com os saques promovidos aos caminhões de grandes empresas, a região passou a sofrer com o desabastecimento de mercadorias, incluindo refrigerantes. Pepsi e Coca-Cola pararam de chegar aos mercadinhos e restaurantes. Na época, o patriarca Eduardo Añaños trabalhava na agricultura, mas decidiu aproveitar a escassez de bebidas para mudar de ramo. Colocou os dois filhos engenheiros a pesquisar a fórmula de um novo xarope de refrigerante. No quintal de casa, eles criaram a Kola Real, primeiro e mais famoso produto da empresa.

Foi o filho mais velho, Jorge Añaños, quem desenvolveu a bebida. Ele sempre esteve à frente dos negócios com os quatro irmãos. Mas, há três anos, uma briga entre eles tirou o primogênito da companhia. A discrição da família fez com o que o desentendimento só se tornasse público no ano passado.

Jorge criou uma nova indústria de bebidas, a San Miguel, e, num acordo com os irmãos, ficou com o direito de comercializar a marca Kola Real no mercado chileno. Lá, as duas empresas dividiram a atuação no território. A Ajegroup atua mais na capital e a San Miguel, no interior.

O acordo estava dando certo e os negócios, até aqui, eram complementares. Os irmãos seguiam com a política de internacionalização e Jorge com a meta de ganhar mercado no interior do Chile. Essa "harmonia", no entanto, parece estar com os dias contados.

Sem combinar, as duas companhias estão desembarcando no Brasil. E, aqui, serão concorrentes. A San Miguel veio primeiro e iniciou em março deste ano uma fábrica em Alagoinhas, a 70 quilômetro de Salvador. Jorge anunciou investimentos de R$ 28 milhões, na planta que será inaugurada em março do ano que vem, com 500 funcionários. "Ainda estamos estudando o mercado para identificar que marcas terão mais aceitação do público brasileiro", disse Raul Vargas, executivo da San Miguel, que está no Brasil para comandar o início das operações.

No Rio de Janeiro, a Ajegroup vai começar a produção numa fábrica com 200 funcionários, que deve ser inaugurada no primeiro semestre do ano que vem. A empresa trará para o País sua principal marca, a Big Cola. Aqui, ela será comercializada, inicialmente, em garrafas de 600 ml, mas o preço ainda não foi definido. Em outros mercados, uma garrafa de 3 litros da bebida é vendida, em média, por US$ 1.

Paredes diz que a vinda das duas empresas para o Brasil, ao mesmo tempo, foi apenas uma coincidência.

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