Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Petrobrás calcula em US$ 13 bi as captações em 2015 e mira mercados asiáticos

Segundo o diretor financeiro da companhia, Ivan Monteiro, o momento é de 'escolher captações criativas'

Irany Tereza , O Estado de S. Paulo

12 Maio 2015 | 16h23

BRASÍLIA - A nova estratégia financeira da Petrobrás terá foco em captações nos mercados asiáticos e europeu. Apresentação do diretor financeiro da companhia, Ivan Monteiro, na reunião do conselho de administração de 22 de abril, mesma data em que foram divulgados os balanços do terceiro e quarto trimestres do ano passado, deixou claro que a China ganhou importância como grande parceira da petroleira. O Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, teve acesso ao áudio da reunião.

Mesmo frisando que a Petrobrás não tem necessidade imediata de caixa, Monteiro defendeu que a empresa busque este ano US$ 13 bilhões no mercado. Mas, tirando um pouco da alça de mira os títulos norteamericanos. O executivo disse que é o momento de "escolher captações criativas". Em 1º de abril, depois de uma viagem de Monteiro à China, a Petrobrás anunciou ter obtido um financiamento de US$ 3,5 bilhões, que já vinham sendo negociados com o Banco de Desenvolvimento da China (CDB).

"A gente já cobriu 2015", declarou o diretor, referindo-se ao equacionamento dos compromissos financeiros da empresa. "Não precisamos captar mais um centavo e a companhia está sendo muito conservadora na rolagem (da dívida). Estamos no momento de escolher captações criativas. Há uma possibilidade de expansão muito grande com o banco de desenvolvimento da China e com o banco desenvolvimento do Japão. O JBIC (banco japonês) nos procurou no dia seguinte ao anúncio da operação com a China e há interesse muito grande. Temos recebido (pedidos) das agências da Noruega, do Canadá, da Inglaterra e da Itália. Tem um conjunto de oportunidades bastante interessantes", disse Ivan Monteiro, como revela o áudio da reunião do conselho de administração.

A exposição do diretor financeiro aos conselheiros mostrou que a Petrobrás iniciou este ano uma nova fase na condução de sua estratégia financeira. Sucessor de Almir Barbassa, que ocupou por nove anos a diretoria financeira da Petrobrás, Ivan Monteiro era vice-presidente de gestão financeira do Banco do Brasil até desembarcar, em fevereiro deste ano, na Petrobras, levado pelo atual presidente Aldemir Bendine.

Os dois executivos do BB assumiram a petroleira depois da renúncia de Graça Foster e de toda a sua diretoria, em meio a discordâncias com o governo sobre como incluir no balanço da estatal as perdas relativas aos atos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato.

"A companhia teve uma estratégia de divulgar para o mercado que não iria haver captações no ano de 2015. Mas, terminar o ano com o caixa próximo a 5, 6 bilhões de dólares para uma companhia do porte da Petrobrás não faz sentido", disse o executivo, mostrando discordância em relação aos parâmetros anteriores.

Lembrou que o conselho concedeu aprovação prévia à captação de US$ 19,1 bilhões para este ano e comentou que a empresa iniciou 2015 com saldo inicial de US$ 26 bilhões e projeção de geração operacional em torno de US$ 23 bilhões. A dívida líquida da companhia fechou 2014 em US$ 106 bilhões.

"A companhia tem forte exposição no mercado de capitais internacional; não faz captação no mercado doméstico há 15 anos, tem grande exposição de bilaterais. Porém, tem oportunidade muito grande com mercados não convencionais, que não seja Wall Street. Estou me referindo ao mercado longo em euro e a mercados asiáticos. Além disso, (a Petrobrás) é muito atrativa porque tem muitos ativos. Temos priorizado captação por custo versus prazo. E os custos são os mais baratos que a companhia pode fazer", declarou Monteiro.

A previsão de captação total de US$ 13 bilhões em 2015 foi feita com base em premissas que situam em US$ 60 a cotação média do barril de petróleo tipo Brent e uma taxa de câmbio média de R$ 3,10 para o ano. Completa o painel de projeções a produção total de óleo e gás pela Petrobrás este ano em 2,796 milhões de barris por dia, no Brasil e no exterior. Com a captação, explicou o diretor, a empresa ficaria numa situação mais confortável, recompondo seu saldo mínimo de US$ 20 bilhões.

China. Durante a exposição, questionado por conselheiros, Monteiro negou que o empréstimo com o banco chinês considere parte do pagamento em petróleo. "(O financiamento) não envolve fornecimento (de petróleo)", afirmou o executivo, revelando, no entanto, outras formas de pagamento envolvidas na negociação que não ficaram muito claras.

"Tem um componente que é muito interessante, que é semelhante ao que BNDES faz no Brasil. Permite que situações anteriores, vamos supor que no passado a Petrobrás comprou equipamentos da China ou através de forma indireta que chegou a equipamento fornecido pela China. A gente pode recuperar isso. Não só com a China, mas com o próprio JBIC. Não é exatamente uma aquisição nova."

Defasagem. No dia da reunião do conselho, os preços de gasolina e diesel praticados pela Petrobrás destoavam da cotação internacional. Monteiro explicou que no caso do diesel a diferença era favorável à empresa: o litro no Brasil estava 13% mais caro do que no exterior. Já na gasolina a empresa estava perdendo em relação ao negociado lá fora, com defasagem de 5%. As comparações foram feitas usando o dólar americano como base e o diretor tomou o cuidado de lembrar que a metodologia trabalha com média móvel, o que traz mudanças periódicas.

Monteiro lembrou ainda que 2014 se caracterizou na Petrobrás por uma geração operacional menor do que os investimentos. Por isso a empresa teve elevada sua demanda por captações e desinvestimentos para cobrir a diferença e compromissos com amortização, juros e dividendos. "Captamos US$ 31 bi em 2014 e o saldo final ficou em US$ 26 bi. Esse movimento eleva dívida e indicadores de endividamento, além da queima de caixa" comentou, lembrado a alta alavancagem da companhia no encerramento do ano.

Investimentos. A Petrobrás será uma grande vendedora no mercado global em 2016. As operações de vendas de ativos (desinvestimentos) com a qual a companhia espera obter mais de US$ 13 bilhões em dois anos, serão concentradas no próximo ano. Para 2015, a estimativa é de conseguir apenas US$ 3 bilhões desse total.

Já os investimentos (Capex) projetados para 2016 são de US$ 25 bilhões. Comparado ao que era previsto para o ano no plano de negócios anterior da companhia, a cifra representa um recuo de 37%. Os investimentos serão concentrados em exploração e produção de petróleo, com 82% do total. "Nas outras áreas (o investimento) é somente para manutenção da infraestrutura existente", comentou Monteiro. 

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