Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Petrobrás negocia trocar investimento chinês em refino por petróleo, dizem fontes

Um eventual investimento da CNPC poderia ajudar a estatal brasileira a finalizar a refinaria do polêmico projeto do Comperj

Reuters

19 Abril 2018 | 10h49

A Petrobrás negocia com a chinesa CNPC uma parceria que prevê a troca de petróleo da Bacia de Campos por aportes da empresa da China para a conclusão de obra em refinaria no Rio de Janeiro, que demandaria ao menos cerca de US$ 3 bilhões para ser finalizada, disseram duas fontes com conhecimento do assunto à Reuters.

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O investimento chinês em um obra da Petrobrás envolvida anteriormente no maior escândalo de corrupção do Brasil também poderá ser pago com participações da petroleira brasileira em blocos da Bacia de Campos, historicamente a mais importante região produtora de petróleo do país, mas que vem necessitando de investimentos que elevem o fator de recuperação dos campos maduros.

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Um eventual investimento da CNPC poderia ajudar a estatal brasileira a finalizar a refinaria do polêmico projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), alvo do escândalo de corrupção investigado pela Lava Jato, que levou ao cancelamento da unidade petroquímica idealizada inicialmente com a Braskem, controlada pela Petrobras e Odebrecht.

Se mantido o projeto original do trem 1 da refinaria, para cerca de 165 mil barris/dia, a nova unidade poderia ajudar o país a reduzir a necessidade de importações de combustíveis, que atingiram recordes no ano passado. Ao mesmo tempo, a negociação salienta o forte interesse dos chineses no setor no Brasil, que envolve investimentos em produção e acordos com a própria Petrobras de financiamentos garantidos com suprimento de petróleo.

“Vai sair o negócio, mas como o nome já diz é bem complexo. Mas será uma solução integrada”, disse uma fonte próxima das tratativas.

Não há definições nas negociações sobre qual seria a fatia da companhia da China no Comperj, onde a Petrobras investiu US$13,5 bilhões de dólares, segundo declarações anteriores da empresa, que disse também que não terminaria a refinaria no local sem um parceiro.

“O que está em pauta é o seguinte: ou a Petrobras vende fatias de blocos da Bacia de Campos para os chineses ou negocia com eles o compromisso de fazer os investimentos necessários na Bacia de Campos, associando isso ao Comperj. O chinês vai pegar o petróleo dele e refinar no Comperj”, disse a fonte, na condição de anonimato.

A Petrobrás já realizou baixas em valores do Comperj de mais de 6,5 bilhões de reais, desde que se aprofundaram as investigações que apontaram superfaturamento de contratos, cujos valores eram utilizados para pagamentos ilegais a políticos e ex-executivos da estatal.

O presidente da Petrobras, Pedro Parente, disse no ano passado que a Petrobras negociava investimentos na refinaria com a CNPC, sócia da Petrobras e outras companhias como Shell e Total na reserva de Libra, no pré-sal da Bacia de Santos.

Depois, em fevereiro, Parente evitou confirmar o nome da empresa chinesa ao comentar o assunto. As conversas com um grupo chinês se intensificaram recentemente e um desfecho pode sair nas próximas semanas, disse uma segunda fonte.

“Está muito bem encaminhado e deve sair em breve”, disse à Reuters uma fonte do governo do Estado, que tem acompanhado ativamente as negociações. Procurada, a Petrobrás não comentou o assunto.

Paralelamente às negociações com a CNPC, a Petrobras anunciou ao final de março um contrato de aproximadamente 1,95 bilhão de reais para a construção da Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) na área do Comperj, em Itaboraí (RJ). O contrato foi assinado com a Sociedade de Propósito Específico (SPE) formada pela empresa chinesa Shandong Kerui Petroleum e pela brasileira Método Potencial.

As obras começam ainda no primeiro semestre deste ano, e a UPGN tem previsão de operar a partir do segundo semestre de 2020.

Abrir campos. De acordo com a primeira fonte, o Comperj foi desenhado para um óleo mais pesado como aquele que é produzido na Bacia de Campos, que mais recentemente despertou interesse da norte-americana Exxon Mobil pela possibilidade de pré-sal na região —em um leilão em março consórcios integrados por Petrobras e a companhia dos EUA arremataram áreas em Campos por 6,78 bilhões de reais.

A idéia é “abrir” a Bacia de Campos para investimentos chineses, que se comprometeriam a finalizar a obra do complexo, destacou a fonte.

Segundo a segunda fonte, os cálculos estão sendo feitos entre brasileiros e chineses para fechar a conta em torno dessa associação entre a produção do óleo em Campos, o investimento necessário para concluir a obra e o tempo de uso da unidade de refino.

A estimativa da fonte próxima às negociações é que mais de 60 por cento da obra do Comperj já foi realizada e que seriam necessários mais 3 bilhões de dólares para a conclusão do empreendimento.

“Não está definido se o sócio põe tudo (para concluir a obra) ou se a Petrobras entra com uma parte pequena, já que já investiu muito dinheiro até agora”, disse uma das fontes.

Um ex-executivo da Petrobras, que também falou na condição de anonimato, disse à Reuters que o acordo entre brasileiros e chineses faz sentido, visto que a Petrobras tem interesse em concluir a obra e gastar o mínimo possível.

Apesar do sobrepreço dos contratos, o Comperj tem estrutura para ser uma planta eficiente, acrescentou ele. “A questão é saber como vão fechar a conta, que não é fácil de fazer. O Comperj já sofreu um enorme investimento, mas em termos de investimento continua uma planta cara”, disse.

Segundo esse especialista, o custo da refinaria gira em torno de 70 mil dólares o barril processado, ao passo que nos EUA a construção de um projeto do gênero sai pela metade.

“Para os chineses, 2 a 3 bilhões de dólares não é muita coisa, mas eles sabem fazer conta e não rasgam dinheiro”, adicionou.

A finalização das obras do Comperj é considerada também importante para a retomada da economia do Rio de Janeiro, que mergulhou, após as Olimpíadas, em um crise financeira, fiscal e de segurança.

“Há uma articulação política também em Brasília para ajudar o projeto e consequentemente o Estado”, disse a fonte do governo do Rio de Janeiro.

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