Polícia Federal/Divulgação
PF apreende dinheiro com organização criminosa que aplicava golpes envolvendo bitcoins. Polícia Federal/Divulgação

PF apreende mais de R$ 150 milhões em bitcoins com acusado de fraude com criptomoedas

Também foi apreendido dinheiro em espécie; soma de dinheiro real e virtual é a maior apreensão da história da corporação

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 19h51
Atualizado 26 de agosto de 2021 | 12h25

RIO - A Polícia Federal fez na manhã desta quarta-feira, 25, provavelmente a maior apreensão de bitcoins e dinheiro em espécie somados da sua história. Foram cerca de R$ 150 millhões em moeda virtual, mais uma quantia de R$ 13,8 milhões em cédulas. Um dos cinco presos na ação foi Glaidson Acácio dos Santos, um ex-garçom que criou a dono da GAS Consultoria Bitcoin, sediada em Cabo Frio, na Região dos Lagos, para supostamente negociar criptomoedas. O negócio oferecia aos investidores rendimentos de 10% mensais, arrecadou bilhões, mas é acusado de fraudes financeiras a partir de um esquema de pirâmide

Segundo a polícia, Glaidson nem sequer aplicava o dinheiro recebido dos clientes. Foi na casa luxuosa em que foi preso, na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio), que foi apreendida grande quantidade de dinheiro em espécie. Fotos e vídeos com malas cheias de cédulas foram divulgados pela corporação. A contagem do dinheiro concluiu que se tratava de um valor de R$ 13.825.091,00 e mais 100 libras esterlinas. A lista de bens apreendidos na ação inclui os bitcoins (cada um valendo, pela cotação desta quarta, cerca de R$ 255 mil), 21 veículos de luxo, relógios e joias de alto valor, celulares e equipamentos eletrônicos.

A prisão fez parte da Operação Kryptos, deflagrada na manhã desta quarta-feira, 25, pela PF em parceria com a Receita Federal, o Ministério Público Federal e a Procuradoria da Fazenda Nacional. Glaidson foi um dos nove alvos de ordens de prisão – sete preventivas e duas temporárias. Foram cumpridos ainda quinze mandados de busca e apreensão. A ação foi nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará, além do Distrito Federal. As ordens judiciais foram expedidas pela 3ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. Cento e vinte 120 agentes participaram da operação.

Segundo o jornal O Globo, também foi preso Arthur Leite, operador que trabalhava na GAS e foi encontrado na sede da empresa, em Cabo Frio. Outro detido foi Tunay Pereira Lima, funcionário da GAS, capturado no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Ele se preparava para embarcar para Punta Cana, na República Dominicana, supostamente para um evento da GAS. 

Até o fim da tarde, alguns alvos ainda  eram procurados pela polícia. Entre as pessoas com prisão decretada, estava a venezuelana Mirelis Diaz Zerpa, com quem Glaidson é casado.

Os investigados poderão responder pelos crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira clandestina, emissão ilegal de valores mobiliários sem registro prévio, organização criminosa e lavagem de capitais. Se condenados, poderão ter de cumprir até 26 anos de prisão.

Ter dinheiro em casa não é crime, diz advogado

O advogado de Glaidson, Thiago Minagé, esteve na sede da Superintendência da PF no Rio nesta quarta-feira para assessorar seu cliente.  Ele afirmou à imprensa que “ter (cerca de) R$ 20 milhões em casa, por si só, não é um crime”. 

“Vinte milhões é (sic) uma quantia exacerbada e alta, mas não é uma quantia que você possa afirmar que é oriunda de prática criminosa”, disse o advogado. “Ganhar dinheiro, ter R$ 20 milhões em casa, isso por si só não é um crime.”

 Segundo ele, a prisão foi uma surpresa.

“Não esperávamos isso, não tínhamos conhecimento de algum tipo de procedimento ou investigação que pudesse levar a tal situação”, afirmou. “A partir de agora a gente vai ver qual vai ser o caminho a seguir e traçar.”

No fim da tarde, o advogado emitiu nota oficial, afirmando não poder se pronunciar por não ter tido acesso aos autos.

"A defesa de Glaidson Acácio está ciente da prisão e até o momento sem acesso ao conteúdo das investigações", escreveu ao advogado. "Apenas após a devida análise de toda documentação é que poderemos nos manifestar de forma concreta." 

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Alvo de ação da PF por fraude com bitcoins, ex-garçom virou milionário e levava vida de luxo

Milhões deram a Glaidon Acácio carros de luxo, mansões e aniversário com show particular

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 19h51

RIO - Até 2014, Glaidson Acácio dos Santos trabalhava como garçom em um restaurante da Orla Bardot, em Armação dos Búzios (Região dos Lagos), com salário de pouco mais de R$ 800 mensais. Desde que criou uma empresa que supostamente investia em criptomoedas – a GAS Consultoria Bitcoin, sediada em Cabo Frio, na mesma região – arrecadou bilhões de reais. Quando foi preso nesta quarta, 25, levava uma vida de luxo.

De vida social discreta, o ex-garçom tem uma casa luxuosa em Cabo Frio avaliada em R$ 9 milhões. Foi preso em outro imóvel, na Barra da Tijuca. Lá estavam dois carros de luxo – um Porsche e uma BMW. Ali, segundo agentes que participaram da operação realizada por Polícia Federal, Ministério Público Federal, Receita Federal e Procuradoria da Fazenda Nacional, foi apreendida uma pequena fortuna em dinheiro. Até o fim da tarde, a contagem continuava.

Casado com a venezuelana Mirelis Diaz Zerpa, o dono da GAS não costuma se expor em eventos sociais. Uma das poucas festas que geraram  imagens dele que circularam pelas redes sociais foi a de aniversário, em fevereiro deste ano, comemorado em Angra dos Reis, na Costa Verde. A festa teve um show particular do cantor sertanejo João Gabriel.

PF investigava empresa havia dois anos

Há dois anos a empresa é investigada pela Polícia Federal sob suspeita de praticar fraudes financeiras. A investigação identificou que Santos movimentou R$ 2 bilhões nos últimos anos. Para a PF, a empresa pratica pirâmide financeira – um crime. O dinheiro recebido dos investidores não era investido. O aporte financeiro decorrente da entrada de novos clientes garantia o rendimento dos investidores mais antigos. Esse sistema, no entanto, nunca se sustenta indefinidamente. Quando o número de novos clientes é insuficiente para bancar os rendimentos de todos, a pirâmide “quebra”.

Em 28 de abril passado, a Polícia Federal apreendeu em Búzios mais de R$ 7 milhões. O dinheiro estava em três malas e seria levado para São Paulo, de helicóptero. A carga seria levada por um casal que alegou trabalhar para a empresa de Glaidson.

Em depoimento à Polícia  na investigação da PF, Glaison negou trabalhar com criptomoedas. Afirmou atuar com “inteligência artificial, tecnologia da informação e produção de softwares”. Aos clientes, no entanto, o dono da GAS Consultoria Bitcoin afirmava trabalhar com criptomoedas havia nove anos.

Na Região dos Lagos, supostos investimentos em criptomoedas são esquemas de pirâmide

O município de Cabo Frio, na Região dos Lagos fluminense, concentra diversas empresas que supostamente investem em criptomoedas, como a GAS Consultoria Bitcoin, de Glaidson Acácio dos Santos, preso nesta quarta-feira, 25, sob suspeita de praticar fraude financeira.

Existe em comum entre elas, além do tipo de investimento, a promessa de rendimentos incomuns no mercado financeiro. O suposto rendimento oferecido é de 10% ao mês, como a GAS anunciava, ou até 15%, como garantem outras empresas. Uma aplicação no mercado financeiro brasileiro tradicional e regulamentado paga muito menos que isso.

O sistema geralmente usado para garantir rendimentos tão altos nada tem a ver com aplicações financeiras, mas com um esquema de pirâmide. Os aportes financeiros dos novos clientes garantem o rendimento de todos. Mas, quando a entrada de clientes se torna insuficiente para garantir isso, o sistema “quebra”. Quem aplicou perde o dinheiro. Como ações judiciais não costumam garantir o ressarcimento, não é incomum que prejudicados se vinguem com ações criminosas contra os acusados de fraudes.

Em 20 de março, Nilson Alves, dono de uma empresa de investimentos de Cabo Frio que prometia 15% de lucro mensal aos clientes, foi baleado quando estava parado em um semáforo no centro da cidade, dentro de seu BMW. Ele sobreviveu, mas ficou cego e paraplégico. Dois supostos atiradores conseguiram fugir.

Em 4 de agosto, o investidor em criptomoedas Wesley Pessano Santarém, de 19 anos, foi morto a tiros em São Pedro da Aldeia, também na Região dos Lagos. Foi abatido quando desceu de seu Porsche Boxter vermelho para ir ao cabeleireiro. Os tiros foram disparados de dentro de um carro, e os assassinos fugiram. A polícia investiga os dois casos.

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