Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Plano para eletrificação de carros no Brasil pode atrair R$ 150 bi em investimentos, prevê BCG

Setor automotivo vai levar ao governo estudo que serve de referência para a criação de política de longo prazo para a descarbonização de veículos, que está atrasada no País

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 19h33

Dirigentes da indústria automobilística iniciam nos próximos dias peregrinação em vários ministérios para apresentar estudo que sirva de referência para a criação conjunta entre iniciativa privada e poder público de uma política de longo prazo para a descarbonização de veículos no Brasil.

Feito pelo Boston Consulting Group (BCG), o estudo mostra cenários para a participação de carros eletrificados na frota brasileira até 2035 e um papel importante do etanol, tanto para gerar energia em carros a célula de combustível e híbridos, como para abastecer a enorme frota de modelos flex que será mantida por vários anos, além dos biocombustíveis.

Na visão da Anfavea e do BCG, a definição de planos e estratégias, como vários outros países já fizeram, em especial os mais desenvolvidos, é uma oportunidade única para promover uma “avalanche” de investimentos no País, que podem superar R$ 150 bilhões nos próximos cinco anos. Só para a instalação de 150 mil postos de carregamento de baterias seriam necessários cerca de R$ 14 bilhões.

O valor leva em conta aportes da indústria automobilística e toda sua cadeia produtiva, dos setores sucroalcooleiro e energético, infraestrutura, poder público e até fabricantes de baterias e semicondutores. “A eletrificação não está na nossa mão, sozinhos não conseguimos fazer pois dependemos da transição dos biocombustíveis, de infraestrutura, de um sistema tributário mais amigável com as novas tecnologias”, disse o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes.

Ele lembrou também que todos os países e regiões que definiram estratégias para a eletrificação incluíram incentivos como descontos ao consumidor, créditos em impostos, isenções e subsídios. Moraes afirmou, contudo, que a ideia não é passar a conta para o governo, mas criar mecanismos,  junto com a iniciativa privada, que tenha atratividade e retorno para investidores e que beneficiem sociedade.

Participação dos elétricos na frota

Para a indústria, diz o presidente da Anfavea, esse debate é fundamental e inadiável, pois o setor precisa saber como direcionar seus investimentos para as próximas gerações de veículos e para inserir o Brasil nas estratégias globais de motorização com foco na descarbonização. Segundo ele, as matrizes estão dispostas a apoiar projetos locais, mas cabe ao País criar um ambiente regulatório para que as empresas não importem modelos elétricos, mas produzam localmente.

Hoje, os carros eletrificados (híbridos e elétricos) representam menos de 2% das vendas. Pelas simulações do BCG, essa participação pode chegar entre 12% e 22% em 2030, dependendo dos cenários previstos (como custo do combustível, da energia, das baterias, do veículo e dos impostos),  e de 32% a 62% em 2035.

Segundo Masao Ukon, sócio sênior do BCG Brasil e líder do setor automotivo na América do Sul, “mesmo no cenário mais conservador, o mercado brasileiro teria 432 mil veículos leves eletrificados aos ano em 2030, subindo para 1,3 milhão ao ano em 2035”. Já os veículos pesados (caminhões e ônibus) serão de 10% a 26% das vendas em 2030 e de 14% a 32% em 2035, na mesma lógica de análise.

“Não consigo imaginar que todos esses veículos teriam de ser importados”, afirmou Moraes, ressaltando também que a cadeia automotiva emprega atualmente 1,3 milhão de pessoas “e cabe ao País se preocupar com elas.” Com essa projeção de mercado para os eletrificados, o executivo vê também a possibilidade de atrair novas fabricantes, como de baterias e semicondutores.

Outro tema do estudo, e que também será levados aos vários ministérios, entre os quais o de Economia, Infraestrutura, Meio Ambiente e Energia é um programa de inspeção veicular para retirada de veículos velhos das ruas, grandes responsáveis por emissão de poluentes e acidentes.

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