Por ora, Brasil está proibido de exportar carne bovina à UE

Nenhuma propriedade agrícolabrasileira possui no momento autorização para fornecer boispara exportação de carne à União Européia, o que deverá fazercom que as vendas sejam interrompidas a partir de 31 dejaneiro, quando entram em vigor novas regras européias. Como houve uma discordância entre os governos brasileiro eeuropeu sobre o número de fazendas liberadas para exportar àUE, nenhuma propriedade conseguiu autorização sob as novasregras, válidas a partir de quinta-feira, disse um integranteda Comissão Européia nesta quarta-feira. Apenas cerca de 300 propriedades brasileiras, ou 3 porcento das fazendas, deveriam receber permissões para exportaraos 27 países integrantes do bloco europeu, segundointerpretação do comissário de Saúde do bloco, MarkosKyprianou, mas o Brasil enviou uma lista com um número maior deunidades consideradas habilitadas (2.600). Diante dessa divergência, segundo Kyprianou, ainda não háuma lista com as fazendas habilitadas a vender gado para osfrigoríficos brasileiros que exportam carne à UE. "Tínhamos considerado cerca de 300 propriedades sendoautorizadas a exportar para a UE, com base em inspeções préviase informações dos brasileiros", disse o comissário de Saúde àReuters. "Não há uma lista de propriedades autorizadas... nestemomento, não há propriedades autorizadas a exportar para a UE",acrescentou ele. Segundo Kyprianou, como o Brasil enviou na terça-feira umalista com um número muito maior, mais tempo será necessáriopara que a checagem das fazendas seja realizada. "Claro que essa situação pode mudar nos próximos dias, masno momento não há lista aprovada", disse o comissário. O governo brasileiro tinha até o final do mês para elaborara lista. As restrições impostas pela UE foram anunciadas depois deuma delegação européia ter encontrado, de acordo com o bloco, irregularidades no sistema sanitário e de rastreabilidade doBrasil, no ano passado. Além disso, as limitações seguem um forte lobby feito porfazendeiros do bloco, principalmente irlandeses, que afirmamestar sendo prejudicados pelas exportações brasileiras. Para o analista Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria, aposição da UE, "na prática, paralisa as exportações de carne innatura do Brasil para lá", a partir de 31 de janeiro. As exportações de carne industrializadas estão fora dasrestrições, uma vez que o vírus da febre aftosa é eliminado noprocesso de industrialização. Em 2007, o Brasil exportou 2,53 milhões de toneladas(equivalente carcaça) de carne bovina para todos os destinos,obtendo com essas vendas externas 4,42 bilhões de dólares. Segundo a Abiec, entidade que representa os exportadores decarne bovina do Brasil, as exportações de carne bovina para aUE somaram 543,5 mil toneladas (21 por cento do total), oequivalente a 1,4 bilhão de dólares (32 por cento). De acordo com o analista, os países integrantes do blocoeuropeu respondem pela maior parte da receita obtida com asexportações por pagarem um preço mais elevado pelo produtobrasileiro. Não havia nenhum representante da Abiec imediatamentedisponível para comentar o assunto. O Ministério da Agricultura do Brasil afirmou que semanifestará oficialmente sobre o tema mais tarde nestaquarta-feira. "Acho que os europeus, por pagarem melhor pela carnebrasileira, podem exigir o que bem entenderem. Agora, a partirdo momento que o Brasil atende a exigência, não tem por querestringirem as 300 propriedades...", afirmou Rosa. Segundo ele, o Brasil tem hoje mais de 6 mil propriedadesque atendem as exigências da UE dentro de Estados sem problemassanitários para exportar. "E dessas 6 mil, 2.600, na avaliaçãodo Ministério da Agricultura, atendem todas as exigências daUE." Assim, segundo Tito Rosa, não há como o Brasil selecionaruma lista de 300 propriedades, como quer a UE, se tem 2.600atendendo as exigências. "Qual critério seria adotado? Entãoessa regra da UE é arbitrária." O analista disse ainda que, uma vez que os frigoríficos nãosabem quais são as propriedades que serão habilitadas, "estãoparalisando abates para atender à demanda de carne in natura daUE". Em função do problema, segundo Tito Rosa, provavelmente osfrigoríficos vão utilizar o argumento para pressionar o preçopago pela arroba do boi no mercado brasileiro. Por outro lado, disse o analista, há outros fatoresaltistas para o mercado de boi, como a redução do rebanhonacional após um período de intenso abate de matrizes, e osetor está em expansão, demandando mais gado para abate, emfunção do crescimento no consumo interno e externo. (Reportagem adicional de Roberto Samora, em São Paulo)

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