Paulo Whitaker/ Reuters
Paulo Whitaker/ Reuters

Por que as ações do Nubank desabaram 14,55% após o balanço

A preocupação dos investidores com o aumento da inadimplência no Brasil foi um dos fatores que levaram à queda

Matheus Piovesana e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 18h53

Apesar de trazer indicadores mais positivos do que o mercado esperava, o primeiro balanço do Nubank como companhia aberta foi recebido primeiro com euforia, mas depois a cautela falou mais alto. As ações da fintech caíram 14,55% nesta quarta-feira, 23, diante do contexto pouco favorável nas bolsas dos Estados Unidos e também da leitura de analistas de que o banco digital pode ter de pisar no freio nos próximos trimestres para evitar calotes nos crédito, pois está crescendo em linhas mais arriscadas, como empréstimo pessoal.

O Nubank fechou o quarto trimestre com prejuízo de US$ 66,2 milhões, 36% menor que as perdas do mesmo período de 2020, e sob forte influência de gastos associados direta ou indiretamente à sua disputada abertura de capital (IPO, na sigla em inglês), realizada em dezembro. Excluídos os efeitos não-recorrentes, teve lucro de US$ 3,2 milhões, queda de 79% em um ano.

A fintech surpreendeu em alguns pontos, como a receita média por cliente ativo, que foi a US$ 5,6, alta de 72% em um ano, além do esperado pelo mercado. Também teve desempenho acima do esperado na base de clientes, que chegou a 53,9 milhões deles, um salto de 61,9% em um ano. A carteira de crédito, entre cartões e empréstimos pessoais, chegou a US$ 6,5 bilhões, alta de 97% em um ano, e mesmo assim a taxa de inadimplência ficou comportada.

Na noite de ontem, os números foram recebidos com entusiasmo, e a ação do Nubank chegou a subir mais de 8% na negociação pós-fechamento (after market) na Bolsa de Nova York. Entretanto, no pregão regular de hoje, os papéis mergulharam diante do dia negativo no mercado americano, com as tensões geopolíticas entre a Rússia e o Ocidente no noticiário, mas também com a leitura do próprio balanço no radar.

Boa parte das perguntas de analistas na teleconferência, realizada ontem, estava relacionada à piora do cenário macroeconômico brasileiro em 2022, o que tende a ter impacto direto no mercado de crédito, especialmente nas linhas em que o Nubank atua. 

Ao longo do último mês, casas como BTG Pactual e Itaú BBA analisaram que, mesmo com forte crescimento, o Nubank pode ter de reduzir o ritmo se a economia de fato entrar em estagnação ou recessão. Tudo para evitar que a qualidade dos ativos do banco piore de forma acentuada.

"A inadimplência deve se normalizar gradualmente até níveis pré-pandemia", disse ontem Youssef Lahrech, executivo responsável pelas operações do Nubank (COO). A mensagem transmitida pelos executivos foi a de que a fintech está capitalizada e preparada para lidar com a piora da qualidade de ativos, mas também para ir mais devagar se necessário. "Estamos prontos para recuar se a qualidade de crédito se deteriorar mais", afirmou Lahrech. Assim, o banco digital tem condições de agir com rapidez para puxar o freio no crédito, disse ele.

Em um ambiente que deve ser marcado pela frente por juros altos e inflação elevada, a estratégia do Nubank no crédito é "muito corajosa", observam os analistas do BTG, Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Thiago Paúra. Eles pontuaram que na primeira onda da pandemia da covid-19, em 2020, o Nubank colocou o pé no freio do crescimento como medida preventiva, o que, na visão dos analistas, pode ocorrer à frente. "Dado o prazo curto da carteira, se os empréstimos desaceleram, as receitas naturalmente desaceleram também, tornando ainda mais difícil justificar a alta avaliação de mercado", comentaram.

O Nubank tem valor de mercado próximo aos de Itaú e Bradesco, os maiores bancos privados brasileiros, mas tem tido forte volatilidade nas últimas semanas, com o cenário macro mais desfavorável. Na tarde desta quarta-feira, o Nubank valia US$ 35,7 bilhões, atrás de Bradesco (US$ 37,1 bilhões) e Itaú (US$ 46,6 bilhões), que operavam em alta.

Marcha engatada

Por outro lado, o crescimento apresentado até aqui agradou. O Goldman Sachs destacou que o aumento da base de clientes foi um dos pontos positivos, especialmente porque veio acompanhado de uma maior taxa de ativação - que mede quantos dos novos clientes passam a usar de fato os produtos e serviços do banco. O número saiu de 73% no terceiro trimestre para 76% no quarto.

"Foi um trimestre sólido para a adição de clientes e para o crescimento do volume de crédito", comentou o time de análise do Goldman, que também ressaltou que a qualidade dos ativos permaneceu saudável, com alta de 0,1 ponto porcentual, para 3,5%, no índice de inadimplência.

O cofundador e CEO do Nubank, David Vélez, considerou que o primeiro trimestre do Nubank como companhia aberta mostrou que a empresa tem uma tese de investimentos comprovada, e que agora, a orientação é ir além. "Mantendo a nossa orientação de longo prazo e sempre colocando os clientes em primeiro lugar, estamos agora acelerando os esforços para crescer o ecossistema poderoso do Nu", disse ele, em comunicado junto ao balanço.

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