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Leo Lara/Stellantis
Leo Lara/Stellantis

'Preço de commodities vai inflacionar o mercado de carros', diz presidente de dona da Fiat e Peugeot

Para Antonio Filosa, executivo que lidera na América Latina a Stellantis, empresa que também controla a Jeep e a Citroën, o Brasil precisa planejar já o futuro da economia no pós-covid

Entrevista com

Antonio Filosa, presidente da Stellantis na América Latina

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 05h00

Presidente do maior grupo automotivo da América Latina, Antonio Filosa diz que o País precisa planejar a retomada do desenvolvimento econômico para desenhar o Brasil do pós-pandemia. Para ele, o maior desafio será a recuperação de empregos. “Isto só será possível a partir do fortalecimento da indústria e do setor de serviços.”

Além da pandemia e da falta de semicondutores que tem paralisado várias fábricas, o executivo vê com grande preocupação o movimento inflacionário, em especial das commodities usadas pelo setor (aço, resinas, alumínio), que tem ajudado a puxar a constante alta dos preços dos automóveis. “Infelizmente teremos uma oferta mais inflacionada do que gostaríamos”, diz.

Italiano de 48 anos, casado com brasileira e pai de duas crianças nascidas no País, Filosa assumiu em janeiro o comando na região da Stellantis, empresa que reúne Fiat, Chrysler/Jeep, Peugeot e Citroën. O grupo detém 30% das vendas totais de automóveis e comerciais leves do mercado brasileiro e 23% do latino-americano.

Com o crescimento de 1,2% do PIB no 1º trimestre, é possível dizer que a retomada econômica está no caminho certo?

Os dados refletem uma condição muito típica do Brasil, que tem grande capacidade de recuperar sua economia por uma série de condições estruturais. Uma delas é que é um país jovem, onde a classe produtiva é maior que a não produtiva (aposentados). De um lado isso gera resiliência nos períodos difíceis, mas gera impulso na hora da retomada. O fato de ser um país jovem, altamente produtivo em vários setores como mineração, agricultura, pecuária, indústria e serviços, faz o Brasil ter vantagem competitiva em relação a outros países. À medida que a vacinação aumentar, a economia vai voltar até em patamares maiores do que os analistas esperavam. Isso vai gerar uma dinâmica de maior emprego e maior consumo, mas com alguns riscos, por exemplo associados à inflação.

O que precisa para que o crescimento seja consistente?

Ainda vamos ter um ciclo de grande demanda de commodities e isso vai beneficiar o crescimento econômico do Brasil. Internamente, a vacinação precisa aumentar e chegar a porcentuais parecidos aos dos EUA e da Inglaterra. Além disso, precisamos que as instituições elaborem um programa de competitividade da indústria e de previsibilidade do ambiente econômico, que passa pelas reformas tributária e administrativa.

Que avaliação o sr. faz da política econômica? 

Temos de considerar que vivemos um momento excepcional, marcado por uma pandemia que afetou duramente a saúde pública, a economia, a mobilidade e a vida das pessoas. Isto gerou um cenário de restrições que persiste. Precisamos continuar a administrar a pandemia, com todos os cuidados e protocolos que sua gravidade exige, mas é importante olharmos para o futuro. É preciso planejar a retomada do desenvolvimento econômico para desenhar o Brasil que pretendemos ser no pós-pandemia.

Quais são os maiores desafios?

O maior de todos é criar mais de 14 milhões de empregos, a fim de eliminar a alta taxa de desemprego. Isto só será possível a partir do fortalecimento da indústria e do setor de serviços, uma vez que o setor primário, apesar da importância e excelência do agronegócio e da mineração, não será capaz de abrir tais postos de trabalho ou alavancar as cadeias produtivas que estão retraídas. O desenvolvimento industrial deve ser baseado em inovação e aporte tecnológico e apoiado por investimentos em infraestrutura para reduzir os gaps competitivos da estrutura produtiva nacional frente aos principais competidores internacionais. As reformas estruturais, principalmente uma reforma tributária ampla, têm papel estratégico de orientar o desenvolvimento do setor produtivo. Um claro modelo de desenvolvimento somado a segurança jurídica e previsibilidade tem o poder de atrair novos investimentos e apontar o caminho do desenvolvimento sustentável.

A CPI que investiga a atuação do governo Bolsonaro na pandemia pode atrasar ações da empresa no País?

O Brasil sempre foi estrategicamente importante para nós, no Brasil e na América Latina. Tudo que acontece a nível social, político e econômico é monitorado. Temos planos de investimento para a região, acabamos de inaugurar uma fábrica de motores turbo, lançamos as novas Strada, Toro e Compass e ainda temos para o ano o lançamento do primeiro SUV da Fiat e do terceiro da Jeep, além de tecnologias de motores e uma plataforma de serviços conectados transversal. Nossa indústria é relacionada a ciclos de investimento de longo prazo e para isso sempre observamos o desenvolvimento do mercado também a longo prazo. Mas é claro que qualquer movimento de maior volatilidade política ou social cria apreensão. 

Um eventual impeachment pode levar o grupo a rever projetos? 

Checamos sobretudo o aspecto econômico de cada mercado em que atuamos. Por exemplo, se entrarmos em um período de hiperinflação, como o que ocorreu recentemente na Turquia e na Argentina, claro que gera preocupações. E se entrarmos em um período de queda contínua do mercado, associada ao grande desemprego, também gera preocupação e a necessidade de refletir. Lá atrás, quando tivemos o primeiro impeachment, a empresa não parou. Sofremos as consequências de uma desaceleração da economia, mas continuamos firmes no plano Brasil. Toda vez que existe grande volatilidade, de qualquer natureza, precisamos avaliar e verificar se nosso plano precisa ou não de correções. 

A inflação preocupa a indústria?

A inflação de materiais diretos é, de fato, uma preocupação para todo o setor automotivo. É um fator que afeta a eficiência e competitividade e consome uma energia enorme ao exigir que equipes cada vez maiores se dediquem a negociar preços com fornecedores e a buscar alternativas para mitigar o impacto direto sobre os custos. A inflação é muito severa para todas as commodities que o setor usa como aço resinas, alumínio e materiais nobres - algumas aumentaram até 120% em relação a dois anos atrás. Trabalhamos em produtividade, na otimização de processos e tentamos cortar custos o máximo possível. Não é possível repassar toda a inflação de custos para o consumidor. Mas, assim como as commodities estarão inflacionadas, o mercado dos carros será inflacionado. Isso já é visível e continuará pois também tem a inflação do câmbio. Infelizmente teremos uma oferta mais inflacionada do que gostaríamos.

Os automóveis já estão caros e estao chegando ao mercado modelos mais premium, enquanto os mais baratos saem de linha. Não vai mais ter ‘carro popular’? 

A mudança da oferta das montadoras depende do que o mercado quer. Vemos que o consumidor quer mais SUVs, mais picapes e tudo isso é custo, porque tem mais tecnologia. Também tem o fator regulatório que, corretamente, requer conteúdos tecnológicos de segurança e proteção ao meio ambiente e tudo isso também é custo. Por último tem a estrutura de custos em geral, incluindo o fenômeno da inflação. O aço é mais caro independente se vai no carro popular ou no premium. A definição de carro popular em si muda - antes era o modelo que custava R$ 30 mil, agora é o que custa R$ 50 mil. O apetite das montadoras em desenvolver mais carros populares, com menor rentabilidade, diminui frente à inflação dos materiais. A Fiat tem dois carros de entrada, o Uno e o Mobi, e continuaremos pelo menos com um modelo nessa franja de preço. Mas, assim como todas as empresas, estamos investindo muito em SUVs, em tecnologias. O mercado muda porque a demanda muda, porque a regulação muda e porque a estrutura de custos e de rentabilidade mudam.

A indústria vai fazer carros só para a classe média e abandonar o potencial da classe de renda menor?

Vamos continuar tendo produtos de entrada, talvez em proporção menor que no passado. Além disso vamos associar todos os produtos a outros modelos de mobilidade. Por exemplo, hoje para comprar um Argo paga-se entrada de 20% a 30% e o restante em prestações. A entrada muitas vezes é a barreira para quem não dispõe de possibilidades econômicas. Por isso temos o Flua, nosso serviço de assinatura que permite ao consumidor “comprar” o uso do Argo por dois anos ou mais, pagando uma subscrição mensal, sem pagar entrada. Pode ser que a estrutura de custos e a inflação reduzam a proporção de carros vendidos pelo modelo tradicional, mas alguns modelos de negócio como a assinatura vão permitir acesso ao carro, seja de entrada ou premium.

A falta de semicondutores tem parado muitas fábricas. Como está a situação das empresas do grupo?

Monitoramos em reuniões diárias com nossos fornecedores o que acontece no mercado de semicondutores. A capacidade de fornecimento está se readequando, mas ainda em velocidade aquém do desejável. Na minha visão, o problema não será resolvido neste ano e pode continuar por alguns meses do ano que vem. Estamos promovendo um remix de produtos para evitar paradas, e trocando o microchip que está em falta por outro que esteja disponível, sempre protegendo a qualidade. Nossa previsão de abastecimento não supera um mês. Vamos baixar a velocidade da linha para evitar ter de parar, mas não posso dizer com certeza que isso não vai ocorrer.

A Stellantis domina hoje 30% do mercado brasileiro, mas exporta pouco. Essa equação funciona?

A grande parte da produção agora está sendo ocupada para uma demanda brasileira e exportamos 15% para outros países da América Latina. Somos líderes no Brasil, na Argentina, no Chile e estamos crescendo nos demais mercados. Além disso exportamos para outras regiões. A picape Strada, por exemplo, tem importante exportação para o México, na América do Norte. A fábrica de Betim hoje tem a maior produção de motores e transmissões da América Latina e 25% dela vai para a Europa. Este ano serão 120 mil motores. Temos um centro de engenharia com 1,5 mil engenheiros e designers que trabalham para os modelos locais e prestam serviços para América do Norte e Europa. Temos um software center em Pernambuco que presta serviço para o software da Maserati.

O sr. está otimista com o mercado brasileiro?

Sou tão otimista com o País que quero que meus dois filhos brasileiros sejam educados aqui e construí minha casa em Minas Gerais. Em geral o povo brasileiro é otimista, proativo, empreendedor. Lógico que os tempos são difíceis, pois ainda não saímos de uma crise sanitária sem precedentes. A recuperação vai demorar mais um pouco, mas meu ‘feeling’ é de otimismo. 

A matriz do grupo também está otimista?

Ser um grupo global nos permite interagir com vários pontos de obervação do Brasil, da Argentina, do Chile, da Itália, Alemanha, França, EUA, Canadá, China. As situações geopolíticas são por natureza voláteis e mudam com muita velocidade, então é claro que eventos importantes como eleições, CPI e outros despertam curiosidade. Nós conversamos sobre isso com a matriz, assim como sobre os ritos geopolíticos da Europa, América do Norte e Ásia. Qualquer grupo ou corporação global como a nossa, que tem interesse em investimentos em tantos países, tem curiosidade sobre o que acontece. Mas nossa visão de longo prazo no Brasil é positiva.

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