Preço no leilão do Madeira gera dúvida sobre viabilidade

O preço da tarifa de energiaoferecido pelo consórcio liderado por Furnas e Odebrecht noleilão da primeira usina do rio Madeira, em Rondônia,surpreendeu o mercado e abriu margem para especulações sobre ofuturo do projeto, que é fundamental para o crescimento daeconomia brasileira. Seguros de que a pressão política falou mais alto, apesarde todos os consórcios terem incluído uma empresa estatal,analistas e consultores especularam durante todo o dia após oleilão para tentar entender a lógica dos vencedores. Algunsacreditam que o valor oferecido torna o projeto praticamenteinviável. Com valor máximo de 122 reais o megawatt hora, o leilão dausina de Santo Antônio foi concluído em poucos minutos,confirmando a vitória de certa forma esperada do consórcioformado por Furnas, Odebrecht, Andrade Gutierrez, o fundo deinvestimento Banif-Santander e a distribuidora Cemig, queofereceram tarifa de 78,90 reais o megawwat hora, bem abaixo dosegundo colocado. A usina terá capacidade instalada de 3.150 MW, energia queserá vendida 70 por cento por contrato e 30 por cento nomercado livre. Para o consultor do Centro Brasileiro de Infra-EstruturaRafael Schechtman, que esperava preço em torno dos 100 reais oMWh, somente o futuro vai mostrar como o governo "vai resolvero impasse que será criado com o deságio de 35 por cento". Aopção de compensar o preço baixo da energia via contratos com avenda no mercado livre, segundo Schechtman, não será viável. "Furnas e Odebrecht estavam com muita gana de ganhar onegócio e colocaram um preço que ninguém em sã consciênciacolocaria, tanto que o segundo lugar foi 94,00 reais o MWh",afirmou Schechtman. As duas empresas iniciaram estudos de viabilidade doprojeto do rio Madeira em 2001, quando o sistema de venda deenergia não era atrelado a leilões como no governo Lula.Analistas já esperavam que como as empresas conheciam melhor oprojeto, poderiam minimizar riscos e oferecer um lance menor doque os concorrentes, mas esperavam valor entre 100 e 110 reaiso MWh. Schechtman calcula que para compensar o preço baixo dospreços contratados o consórcio teria que vender a energia livreem torno dos 180 reais o MWh, sem contar os custos detransmissão, o que inviabilizaria a venda para empresas como aVale, por exemplo. "Melhor ela (a Vale) construir térmica a carvão, é maisbarato", sugeriu o consultor. Segundo ele, o consórcio lideradopela Camargo Correa, que ficou em segundo lugar, teria umaoferta mais vantajosa para a Vale, com energia livre em tornodos 145 reais o MWh para um tarifa de 94 reais o MWH. Para o especialista, o projeto corre o risco de se tornaruma nova Itaipu, que teve a obra rateada entre todos osconsumidores para ser viabilizada. "Mas isso vai ser problemapara o próximo governo", lembrou Schechtman, já que a obra estáprevista para terminar no final de 2012. Na avaliação do analista de energia da Brascan CorretoraDiego Núnez, a noção de retorno do setor de energia é diferentedas construtoras, o que poderia ter levado a um lance menor.Ele observou que esse pode ser um indicativo para o preço daenergia das hidrelétricas da região. "Este é o primeiro grande empreendimento da região Norte,que vai concentrar tudo o que é grande projeto hidrelétricodaqui para frente, eles (Odebrecht e Furnas) podem achar quetem alguma vantagem sendo os primeiros a chegar e que com essaexperiência poderão arrematar outros projetos", avaliou. Outra hipótese, segundo Núnez, seria o consórcio vencedor,responsável pelo projeto desde o início, ter aumentado o valorde construção da usina e durante a obra reduzir o seu custo,hoje estimado em 9,5 bilhões de reais. Ele também prevê que os sócios estejam contando com aprorrogação por 20 anos da concessão, o que no caso levaria aocálculo de um fluxo de caixa de 50 anos, e não de apenas 30anos. "A Cemig acabou de ter várias concessões renovadas,porque não já contar com isso no Madeira", perguntou. Para o analista Pedro Galdi, do ABN Amro, no curto prazo asações das empresas envolvidas vão sofrer um pouco, como ocorreunesta segunda-feira, embaladas também pelo movimento derealização de lucros. Mas se pensar no longo prazo e a carênciade energia no Brasil, a expectativa é de que a obra sejaconcluída. A Cemig encerrou o pregão em queda de 3,29 por centoe a Eletrobrás de 3,5 por cento, enquanto o Ibovespa cedeu 0,29por cento. "O 'funding' ainda não foi anunciado, mas o BNDES vaientrar, tem alguns fatores que ainda não são sabidos", disse,avaliando que o processo de financiamento pode fazer algumadiferença. (Edição de Marcelo Teixeira)

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