Alex Silva/Estadão
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'Não tem como baixar passagem com o atual preço do combustível', diz novo presidente da Gol

Celso Ferrer, que assumiu o cargo no início do mês, alerta que não haverá redução de tarifas sem mudança na curva de custos; ações da Gol caem 62% no ano, e executivo tem missão de recuperar a confiança dos investidores no negócio

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2022 | 11h00

O crescimento da demanda no setor aéreo deve desacelerar nos próximos meses, segundo o presidente da Gol, Celso Ferrer. Com o preço do combustível pressionando os custos das empresas, a tendência é que isso seja repassado ao consumidor, freando o ritmo da recuperação, diz o executivo, que assumiu o comando da companhia neste mês. “O combustível representava 30% do custo antes (da alta do petróleo decorrente da guerra na Ucrânia). Hoje, está perto de 50%. Não tem como desassociar uma coisa da outra. A gente vai acompanhar o movimento do combustível.”

O preço do querosene de aviação tem atrapalhado o desempenho da empresa na Bolsa também. As ações caíram 62% no acumulado do ano e estão em patamar inferior ao de março de 2020, começo da pandemia. Para tentar reverter essa tendência, Ferrer trabalha para tornar a Gol mais eficiente, acelerando a introdução do Boeing 737 Max na frota. O modelo gasta 15% menos de combustível do que um da geração anterior. 

Outro desafio de Ferrer é melhorar a imagem da empresa entre os consumidores. As reclamações contra a companhia dispararam no ano passado em meio a uma mudança do sistema de reservas. Enquanto a empresa trocava a plataforma, passageiros enfrentavam problemas como não conseguir fazer o check-in online ou mudar a data do voo. 

 “Hoje, podemos falar que esses problemas estão resolvidos. Mas eu quero mais. Acredito muito na proximidade com o cliente. Sou piloto. Hoje de manhã fiz um voo para Goiânia e voltei. Converso com os clientes justamente para entender o que está faltando. E essa é a agenda.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

A demanda está sendo retomada no País, mas a Gol é a empresa com menor recuperação na comparação com o pré-pandemia. Por quê?

É uma decisão nossa de disciplina de capacidade. Colocamos a oferta o mais próximo possível do que a gente acredita que seja a demanda. Teve um momento em que a concorrência começou a colocar muita oferta, e nós decidimos ter essa disciplina porque poderia ter um cenário de aumento de combustível. Decidimos ser conservadores nessa volta do crescimento da demanda. Em muitas crises, empresas que sobrevivem ao período mais difícil podem sofrer na recuperação. No nosso caso, com perda de poder aquisitivo do consumidor, economia inflacionária e pressão de custos, achamos melhor adotar uma postura conservadora.

Isso pode mudar em breve?

A gente sempre vai se adaptar. Se sentirmos que tem demanda e que o corporativo de fato voltou, aumentamos a capacidade. O corporativo é a demanda que apareceu em 2022 e que não tinha em 2021. Esse segmento ainda pode crescer mais. Se esse cliente voltar rapidamente, conseguimos nos adaptar. Temos mão de obra para isso. Mas a desaceleração desse crescimento (de demanda) parece mais compatível com o cenário que temos agora. O cenário externo exige disciplina.

O sr. falou recentemente que o segundo semestre vai ter menos volatilidade. Mas estaremos em semestre de eleição e com a economia global desacelerando. Não pode ser um semestre ainda mais difícil que o primeiro?

O contexto desse primeiro semestre foi de maior escalada do petróleo. Quando falo que espero que o segundo semestre seja menos volátil, é num patamar alto, porém esperamos que seja sem escalada. Trabalhamos com um cenário de combustível em um valor relativamente alto. Um dólar também em um patamar relativamente alto, porém sem essa mudança de patamar que veio por conta da guerra. 

Quando haverá uma recuperação financeira? A alavancagem da empresa está alta.

Passamos por um momento em que houve uma retração muito forte da demanda. Isso deixou impactos no setor, exceto nas empresas que receberam ajuda governamental em dinheiro. No nosso caso, houve flexibilização de algumas regras importantes, mas não houve subsídio. Na crise, decidimos focar no caixa, imaginando que o mercado estaria fechado para captações. Também focamos em sair competitivos do ponto de vista de custo. Desde o primeiro momento, tínhamos certeza de que continuaria existindo a aviação, de que ela precisaria ser ainda mais eficiente e de que o mundo seria mais parecido com o modelo Gol. Vimos várias reestruturações de companhias tentando se transformar em algo mais parecido com a Gol, uma empresa de baixo custo e alta produtividade. A gente precisa desalavancar a companhia aumentando a produção, a receita e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Ao mesmo tempo, precisa ter um cenário para isso. O ritmo que estamos desalavancando é um pouco mais lento do que imaginávamos por conta da deterioração dos custos.

Como vocês vão fazer isso então?

A empresa tem uma estrutura de custo enxuta, ainda assim fizemos uma revisão. À medida que a gente aumenta a produção, os custos são diluídos. Temos também renovado a frota num ritmo muito acelerado. Pretendemos terminar o ano com 44 aeronaves 737 Max. Para você ter ideia, esse era o patamar que a gente imaginava para 2022 antes do modelo ter sido 'groundeado' (a operação do modelo ficou proibida por 22 meses após dois acidentes matarem 346 pessoas).

A ação da Gol acumula queda de 62% neste ano e está em patamar inferior ao de abril de 2020. Como retomar a confiança do investidor?

Precisamos mostrar sucesso na gestão de capacidade, de que o setor vai ser capaz de manter a disciplina e fazer frente aos aumentos do combustível. Temos tentado mostrar que, mesmo com todos os desafios, vamos ajustar o quanto for necessário para que a companhia continue existindo. Mas não vemos um cenário de que tenha, por exemplo, que cortar a companhia pela metade. A Gol ainda planeja voar no segundo semestre mais do que no primeiro semestre. Daqui a pouco, o investidor vai falar: 'Eles conseguiram navegar'. Foi um chacoalhão o que sentimos no primeiro semestre (por conta do aumento do preço do combustível). Hoje, o preço da ação reflete essa dúvida se será possível repassar (o aumento ao cliente).

O preço das passagens aumentou muito, em parte por causa desse repasse. Isso vai continuar?

O combustível representava 30% do custo antes. Hoje, está perto de 50%. Não tem como desassociar uma coisa da outra. A gente vai acompanhar o movimento do combustível. É difícil falar quanto vai ser o barril do petróleo. Se o preço do combustível se mantiver no patamar de hoje, provavelmente as tarifas vão continuar onde estão. Agora, para o segundo semestre, sabendo que o patamar do combustível é esse, nosso trabalho de previsão e de entender qual será a demanda fica mais fácil. Conseguimos preencher o avião o máximo possível.

Além da recuperação do investidor, a do consumidor também está abalada. As reclamações dos clientes dispararam no ano passado. Como recuperar a imagem?

Essa é a prioridade número um. Nosso cliente é o foco da minha gestão. Enfrentamos problemas no ano passado por conta de uma migração do sistema. De lá para cá, nossos indicadores de clientes tiveram um avanço significativo. Tudo que pode ser feito pelo app ou pelo site melhorou demais. Hoje, podemos falar que esses problemas estão resolvidos. Mas eu quero mais. Acredito muito na proximidade com o cliente. Sou piloto. Hoje de manhã fiz um voo para Goiânia e voltei. Converso com os clientes justamente para entender o que está faltando. E essa é a agenda. O sistema que colocamos é muito melhor do que o anterior. Ainda não pudemos desfrutar disso, porque boa parte do que fizemos nos últimos seis meses foi ter certeza de que ele está funcionando. Ele é base para tudo que formos fazer de interação com o cliente seja muito mais rápido e efetivo do que anteriormente.

 

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