Alex Silva/Estadão
O fundo GEF Capital, de Wadih e Alvim, mensura o impacto ESG dos investimentos Alex Silva/Estadão

Private equity foca em ativos com preocupações ESG

Seja por receio de perder dinheiro ou para aumentar o impacto social, fundos adotam a agenda da sustentabilidade para realizar aportes

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 05h00

 

O problema da baixa penetração de internet de qualidade e com um preço justo no País ficou ainda mais evidente durante a pandemia. Por isso, desde 2018, o fundo de private equity EB Capital vem comprando uma série de empresas do setor de internet de fibra óptica. A primeira foi a Sumicity, que era estabelecida na cidade de Sumidouro, no Rio de Janeiro.

Segundo Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras e um dos sócios da EB Capital, trata-se de uma oportunidade de mercado e um investimento de impacto ao mesmo tempo. “Entramos nesse mercado pois existe uma desigualdade digital que vai agravar a desigualdade social”, diz. Até agora, a gestora já investiu R$ 2 bilhões nessa área e ampliou o número de assinantes de 90 mil para 800 mil. A meta é chegar a 1 milhão em 2022 com planos de preço inicial em R$ 79. 

O EB Capital surgiu em 2018 com o propósito de alcançar retornos de, ao menos, 25% ao ano, mas apenas com investimentos que causem algum tipo de impacto positivo na sociedade. Além da internet de fibra óptica, investe em áreas como educação e serviços para pequenos e médios empresários. “A chave está no profit and purpose (lucro e propósito)”, afirma Parente. Com essa visão, o fundo já possui R$ 3 bilhões sob gestão e quer chegar a R$ 5 bilhões até dezembro.

O movimento do EB Capital vem se tornando cada vez mais frequente nos fundos de private equity. A agenda ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) entrou de vez nas tomadas de decisões de investimentos dessas gestoras, que observam tanto os impactos para a sociedade quanto a possibilidade de altos lucros e diminuição dos riscos de seus portfólios.

Segundo um estudo global feito pela consultoria PwC, 66% dos executivos de fundos afirmam que a criação de valor e o impacto já é um dos três fatores que mais contam na hora de investir. “Nos últimos anos, vimos uma mudança de comportamento nos fundos. Antes, ocorriam mais processos, para ver se nada estava errado. Agora, há diversos fundos criando portfólios voltados para o ESG”, afirma Christian Gamboa, sócio da PwC.

Fundos de impacto 

Segundo o levantamento da PwC, também aumentou o interesse no setor pela criação de fundos de impacto. Cerca de 17% dos entrevistados possuem algum fundo desse tipo. Ainda é uma minoria, mas 45% de todos os fundos já estão usando métricas para entender o impacto dos seus investimentos.

A GEF Capital, que tem Anibal Wadih e Alexandre Alvim como sócios, é um exemplo de empresa que calcula todo impacto de seus investimentos. O fundo tem R$ 2,7 bilhões sob gestão e, além de dar um retorno de 30% ao ano para os seus investidores em média, sempre aponta os retornos de ESG para os seus clientes. Um dos seus investimentos foi na empresa de construções modulares Tecverde. De 2015 a 2019, além de ter aumentado por cinco o faturamento, a Tecverde reduziu em mais de 80% as emissões de CO2 em suas construções, diminuiu em 85% a geração de resíduos e uso de água e beneficiou 2,5 mil famílias de baixa renda. Em 2020, o GEF Capital vendeu a sua participação para uma joint venture formada pelo grupo belga ETEX e os chilenos da Arauco. 

Atualmente, a GEF investe nas empresas de energia Luminae, Unicoba e ENC Energy, e na ProSolus, de agricultura. “O mercado está pedindo cada vez mais sustentabilidade e é um caminho sem volta. Quem não ficar de olho nisso não está fazendo o trabalho direito”, afirma Wadih.

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Falta de ESG faz fundos cancelarem investimentos

Gestores calculam riscos de longo prazo de empresas-alvo; 37% já deixaram de investir por preocupações com o ESG

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 05h00

 

Ao mesmo tempo em que muitos gestores começam a entender como o ESG impacta seus investimentos, outros estão até deixando de investir em empresas que não estão se adequando aos novos tempos. A PwC aponta que 37% dos fundos deixaram de realizar um investimento por preocupações com o ESG

O fundo canadense CDPQ, que administra planos de previdência públicos da cidade de Quebec, tem US$ 4,7 bilhões investidos no Brasil. Poderia ser mais, porém houve desistência de um aporte recentemente. “Olhamos uma indústria de transformação, e ela foi aprovada no quesito ‘S’ e no ‘G’, mas, quando fomos olhar o ‘E’, percebemos que o processo dela era extremamente intensivo em carbono”, afirma Denis Jungerman, principal executivo da operação brasileira, que representa 1,5% do total do fundo.

Mas já há algumas certezas do CDPQ em todo o mundo. Alguns setores estão descartados para investimentos, como o de petróleo e o de carvão. Em 2017, globalmente, o CDPQ colocou como meta alcançar US$ 36 bilhões em investimentos ligados à sustentabilidade e melhoria social até 2020. O número, contudo, foi superado em US$ 4 bilhões. “Em um prazo bem curto, faremos uma nova revisão dos nossos objetivos futuros”, diz Jungerman.

A GEF Capital também não quer saber de alguns setores, como o de óleo e gás, além de não colocar dinheiro em empresas de armas. O fundo Patria Investments tem as suas preferências: está de olho nos setores de saúde, energia renovável e educação, além de infraestrutura. Para Bruno Serapião, sócio do Patria, o fundo sempre olha o risco futuro antes de realizar um aporte. “Entramos em uma empresa agora para vender daqui a dez anos. Então, precisamos entrar em setores que terão compradores no longo prazo”, afirma Serapião

Pressão e risco

Quase metade das empresas incorporaram temas ESG na hora de avaliar se compram ou não uma empresa. Mais do que isso, de acordo com a PwC, 72% dos fundos avaliam as empresas-alvo ainda na fase pré-aquisição. Os motivos são variados, mas a questão do risco está em alta. Para 40% dos entrevistados, a proteção do valor do ativo é uma das grandes preocupações.

Porém, também há a questão de pressão dos investidores. No estudo, 41% dos gestores de fundos afirmaram que recebem algum tipo de imposição dos clientes para não investir em ativos que não sejam socialmente e sustentavelmente responsáveis.   

“O ESG está cada vez mais sendo avaliado como questão de valor, mas os riscos ainda são grandes. Os fundos têm que saber aonde estão pisando”, afirma Maurício Colombari, sócio da PwC

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