Fabio Motta/Agência Estado
Fabio Motta/Agência Estado

‘Produtoras e minas já estão com nariz debaixo d'água', diz ex-diretor da Vale

Para José Carlos Martins, preço do minério abaixo de US$ 40 acende luz vermelha no setor

Entrevista com

José Carlos Martins, ex-diretor da Vale

Mônica Ciarelli e Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

14 de dezembro de 2015 | 05h00

O preço do minério de ferro abaixo de US$ 40 por tonelada acende a luz vermelha do setor e pode não ser o fundo do poço, afirma o ex-diretor executivo de Ferrosos e Estratégia da Vale, José Carlos Martins, em entrevista exclusiva ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado

Com décadas de experiência no setor, ele acredita em algum alívio para a indústria com a saída de produtores menos competitivos do mercado, mas afirma que a cotação da commodity deverá ficar próxima do atual patamar enquanto a entrada de novas unidades de produção estiver em curso. Estudioso da economia e da cultura chinesa, Martins enxerga a acomodação econômica do país asiático como parte de um ajuste programado pelo Partido Comunista chinês. 

Sobre a tragédia na cidade mineira de Mariana, o ex-diretor prefere não fazer estimativas de impactos financeiros para as duas sócias da Samarco, Vale e BHP Billiton, mas defende uma ação coordenada entre empresas e governo para minimizar os danos causados pelo rompimento de uma barragem. “Em imagem, o prejuízo é praticamente eterno”, avaliou. 

O preço do minério está no fundo do poço?

Não existe preço mínimo nessa situação de super oferta. O preço é formado no porto da China e ninguém vai mandar navio até lá para depois trazê-lo de volta. Quando esse navio chegar ao porto chinês, você vai vender ao preço que estiver lá. Se ajustarmos o preço do minério pela valorização do dólar e pela deflação de custos da energia, a cotação de US$ 50 a tonelada equivale a US$ 80 de um ano atrás. Ainda é bastante lucrativo para os três grandes produtores de minério que têm custos mais baixos. A US$ 40 começa a se acender a luz amarela e mesmo a vermelha. Muitos produtores e muitas minas estão ficando com o nariz debaixo d’água. Acredito que haja alguma recuperação mais à frente. Além disso, o acidente na barragem da Samarco, em Minas Gerais, tira uns 40 milhões de toneladas/ano do mercado, mas isso só vai aparecer mais à frente. Em abril de 2015, o preço bateu em US$ 42, mas se recuperou rapidamente. Acredito que isso volte a ocorrer nos próximos três meses. 

Mas qual o cenário para o preço?

Diria que o preço do minério vai oscilar entre US$ 40 e US$ 60, mais para US$ 40, enquanto houver a entrada de novas produções. Quem investiu tanto dinheiro aceita o prejuízo até saber se o projeto tem alguma chance. Não tem como voltar atrás. O que podia estar ocorrendo era um recuo maior das três grandes (mineradoras BHP Billiton, Vale e Rio Tinto), mas não está. E eu entendo. Ninguém está tocando investimento novo, só terminando o que já começou e produzindo.

E quando a oferta e a demanda devem se equilibrar?

Vai depender do tempo que essas empresas vão levar para se ajustar. Por exemplo, grande parte das “junior companies” na Austrália e no Brasil não têm condições de operar nos preços atuais. Dentro da China ainda tem gente para sair de operação. À medida que as novas produções (de minério) entram no mercado, mesmo as três grandes vão ter de olhar dentro de sua estrutura de custos e manobrar ativos. Mas isso leva tempo.

O que deve mudar na estratégia das empresas?

O setor de mineração como um todo vai ter de se voltar para os melhores ativos. Dentro de cada negócio você tem ativos bons e ruins. Minha decisão seria direcionar para continuar operando os meus ativos melhores e parar os demais. Não importa se vou perder mercado. Para que operar um ativo contraproducente? E a conta não é só custo. Por exemplo, com o preço do minério a US$ 50 você pode ter uma mina ruim, com um custo de US$ 40. Nessas condições, ainda é possível ganhar US$ 10. Por que parar? Mas é preciso considerar qual é o impacto da saída desse volume no preço (do minério).

Como assim?

Hoje a elasticidade está acima de um. Se uma empresa aumenta o volume em 10%, seu preço cai mais que isso. Há alguns meses, a elasticidade estava em três. A cada 10% de aumento de volume, o preço caía 30%. É de se supor que, se eu tirar 10% de volume, o preço suba 30%. Isso começa a levar as empresas a pensarem que mesmo tendo lucro (na operação) é melhor tirar aquele volume (do mercado). Só que ninguém quer dar o primeiro tiro. Todo mundo está esperando porque se o outro fizer primeiro o preço vai subir, e eu posso manter meu “market share” a um preço bom. É a escolha de Sofia.

O setor de mineração vai demorar muito para se recuperar da tragédia da Samarco?

Em imagem, o prejuízo é praticamente eterno. As imagens do acidente são muito fortes, ficam gravadas no inconsciente das pessoas. As consequências também são muito extensas, como a questão dos rios. Já o impacto financeiro ainda não sei. A questão dos custos para reparar isso eu não tenho condições de avaliar. 

As empresas foram criticadas pela forma que conduziram o caso. Como o sr. vê a estratégia adotada por elas?

Não tenho informações suficientes para avaliar isso. O que acredito é que o foco – não só das empresas, mas também dos governos – deveria ser na reparação dos problemas. É preciso uma ação coordenada de todos para minimizar impactos.

O mercado chinês é outra preocupação do setor. O sr. vê um pouso forçado da China?

Tem uma acomodação. Se você me perguntar se isso vai acontecer agora eu diria que não. É mais fácil prever o que vai acontecer do que o “timing” (momento) em que isso vai ocorrer. Nos estudos que fazia (na época da Vale), esperava que isso fosse acontecer por volta de 2020, quando a urbanização estivesse chegando a uns 80% e não haveria mais tanta necessidade de infraestrutura. Começou em 2012, mas eu só me convenci em 2014. O fenômeno de crescimento da China tem um círculo virtuoso de urbanização e industrialização. Mas gerou especulação, corrupção, poluição, que é o círculo vicioso. O governo da China está mais preocupado com o vicioso.

Por quê?

O Partido Comunista Chinês é extremamente pragmático. Tanto é assim que adotaram a economia de mercado sendo comunistas. Não existe maior aberração, mas é o que funciona. Toda igreja tem um dogma. O deles é a hegemonia do Partido Comunista dentro da China. E viram que essa forma de crescimento estava ameaçando a sua hegemonia. O chinês chegava em casa e via a família doente (pela poluição), ligava a TV e via pessoas enriquecendo do dia para a noite, por especulação. Aquela forma de crescimento acelerado estava trazendo problemas que poderiam significar uma ameaça a essa hegemonia.

Quanto tempo deve levar o ajuste chinês?

O período de governo do Xi Jinping é de dez anos (2013-2023). Acho que ele está usando os primeiros cinco anos para fazer esses ajustes: reforçar a liderança do partido, reduzir o círculo vicioso. Uma coisa é a China de 40 anos atrás, com 80% da população no campo, sem telefone. Outra coisa é a China de hoje, com 55% da população na cidade, muito mais exposta à influência mundial. Hoje o chinês tem opções. O partido percebeu que precisa melhorar essa situação.

Os emergentes serão os mais afetados pela desaceleração da China?

Serão. Inegavelmente o quadro que vemos hoje é muito bom para os países desenvolvidos. Podemos tomar como exemplo a queda do preço do petróleo. O petróleo é um dos maiores itens de consumo na Europa e nos Estados Unidos. Esses países estão tendo um aumento de renda disponível para gastar em outras coisas.

Até que ponto a queda do preço do minério é influenciada pela China?

Do lado da demanda (a queda do preço) está ligada a ela porque todas as mineradoras investiram com a expectativa de um crescimento da demanda da China, que não veio. Estou falando de decisões tomadas cinco anos atrás, quando BHP, Rio Tinto, Vale e empresas novas definiram os planos de investimento cuja produção começa a aparecer agora. Até 2013 a China continuou crescendo dentro do esperado. A produção (adicional de minério) está chegando num momento em que a demanda está sendo mantida ou reduzida. O impacto é direto no preço. 

E qual é o limite? 

O limite é a curva de custos, que hoje está flutuando. Com a queda do petróleo e a desvalorização do câmbio, os custos das empresas caíram. Então a resistência (dos pequenos produtores de minério) que estava na faixa de US$ 100 (o preço por tonelada de minério) está na faixa de US$ 60.

Como a queda do preço do petróleo afeta a mineração?

Para tirar o minério do Brasil e levar até a China, usa-se petróleo nos caminhões, na ferrovia e nos navios. Quando o petróleo estava a US$ 100 (o barril), só esse custo estava em torno de US$ 25. Hoje isso caiu a US$ 12 – isso se considerarmos o dólar um para um. O petróleo representa 60% do custo de produção de minério de ferro da cadeia até o cliente. Isso tem um efeito em cadeia. A estrutura de custos das empresas ainda não se estabilizou. Quando o preço sobe todo dia se admite muita ineficiência. Eu não olhava custo (quando era diretor executivo de Ferrosos da Vale), porque não fazia sentido. Cada tonelada a mais que eu fizesse, eu vendia por US$ 150 e meu custo aumentava US$ 15. Hoje é diferente. A ótica se volta para o custo, porque o preço não pode mais referendar qualquer custo.

Existe alternativa à China?

Não existe isso. Por volta do ano 2000, o consumo de minério seaborne (transoceânico) no mundo era de 350 milhões de toneladas. Esse ano vai ser de 1,2 bilhão de toneladas. Em quinze anos o consumo de minério do mercado fora da China não cresceu. A Índia vai crescer, vai ser uma fonte importante de demanda, mas as condições que permitiram a criação da China são únicas. 

O fenômeno chinês não é replicável? 

Não. A China tem o único partido comunista do mundo que adota a economia de mercado. Podem falar o que quiserem, mas o governo chinês é eficiente. É um sistema de governo eficiente junto com uma maneira eficiente de alocar recursos que é o mercado. É uma combinação muito forte que você não tem na Índia. A China, em tese, deveria estar interferindo no mercado, mas não: está liberalizando a moeda, vai privatizar mais. Ela só anda para frente. Não conheço, na minha experiência de 12 anos de China, uma lei que favoreça o capital externo que seja retirada ou diminuída. Se eles não podem melhorar, não melhoram, mas não voltam para trás.

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