Dida Sampaio / Estadão
Câmara dos Deputados Dida Sampaio / Estadão

Projeto quer alterar prazo para locadora vender carro usado

Concessionárias alegam que muitas empresas não respeitam o prazo mínimo de um ano de uso

Cleide Silva e Letícia Fucuchima, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 05h00

Donas de uma frota de mais de 800 mil veículos, as locadoras enfrentam críticas pela forma que repassam os carros seminovos (com um ano uso) para o mercado de usados. Concessionárias alegam que muitas empresas não respeitam o prazo mínimo de um ano de uso e revendem os modelos a preços inferiores aos de mercado. Além dos altos descontos obtidos na compra direta das montadoras, elas não recolherem ICMS por se tratar de venda de ativos.

Projeto de lei em discussão na Câmara dos Deputados prevê o aumento do prazo sem recolhimento de ICMS de 12 para 24 meses. Mas até o presidente da Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), Alarico Assumpção Jr, crítico das vendas diretas, e o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, consideram o prazo longo demais.

Ricardo Bacellar, da KPMG, lembra que, no estouro da crise econômica, locadoras, frotistas e outras modalidades que adquirem carros diretamente das fábricas, a chamada venda direta, foram um grande canal de distribuição para as montadoras, inclusive para manter as fábricas menos ociosas. Essa dependência continua e, de janeiro a setembro, 45% das vendas totais foram para esse perfil de consumo.

Como negociam grande número de veículos a serem adquiridos, as locadoras têm elevados descontos (chegam a 35%) e, na hora da revenda, também oferecem o produto a preços atrativos, porque não recolhem ICMS (por tratar-se de venda de ativo), eliminando assim a concorrência das concessionárias, que não têm os mesmos benefícios.

“Consideramos que 24 meses é um tempo muito longo, pela característica do negócio das locadoras; acreditamos que 12 meses é um período de equilíbrio para o mercado”, afirma. O que ele defende é a fiscalização para que o prazo de um ano seja cumprido. Moraes, da Anfavea, também considerada exagero os 24 meses.

Atividade-fim

As locadoras ressaltam que não enxergam essas vendas como atividade-fim, mas sim como uma etapa secundária, necessária para girar a frota da locação e mantê-la jovem. Para o presidente da Unidas, um aumento do prazo para as vendas sem recolhimento de ICMS impactaria toda a cadeia automobilística, gerando menos vendas às montadoras e serviços piores e mais caros aos consumidores.

“Achamos que isso é destrutivo para o Brasil, não só para o nosso setor, pois não tem nenhum ganho na outra ponta. Não faz sentido, no momento em que estamos com governo liberal, pró concorrência de mercado, que se discuta algum tema que possa penalizar um setor por causa de outro. Quem perde é a indústria automobilística, a de aluguel, e os mais de 15 milhões de usuários da locação”, afirma Luis Fernando Porto.

Embora as vendas de seminovos representem parte expressiva do faturamento das locadoras, as empresas do setor defendem que o mais importante é olhar para a rentabilidade. Segundo elas, por essa métrica, os seminovos não dão resultado – e, por isso, não devem ser considerados como pilar dos negócios. “Não é um segmento no qual a empresa tem resultado, muito pelo contrário. O resultado da Localiza acontece no aluguel”, afirma o diretor de operações da empresa.

Em 2018, a margem Ebitda (indicador de rentabilidade operacional) da Unidas foi de 56,4% em locação e de apenas 3% em seminovos. Na Localiza, o panorama é semelhante: os números foram de 43% e 3%, respectivamente./ Cleide Silva e Letícia Fucuchima

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Montadoras investem no serviço de locação como alternativa de receita

Serviço passa a ser oferecido em momento em que parte dos consumidores já não prioriza a posse do carro; Toyota começou a alugar carros da marca para pessoas físicas, enquanto Volkswagen trabalha com frotistas; GM e Nissan estudam mercado

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 05h00

Na busca por novas receitas para garantir sobrevivência saudável, montadoras se voltam a nichos de mercado não explorados nos tempos em que só produzir e vender carros dava muito lucro. Com a mudança do perfil dos consumidores, que estão trocando a posse do automóvel pelo uso de mobilidade, o setor aposta na oferta de serviços como alternativa de ganhos. A locação é uma delas e, ao longo do tempo, pode colocar as fabricantes como concorrentes dos grupos que hoje são seus maiores clientes.

No mês passado a Toyota entrou no ramo de locação de seus modelos para pessoas físicas por meio de sua rede de concessionárias. O serviço está disponível em 12 revendas e chegará a 60 até o fim do ano. Outro movimento será o de estender o aluguel para clientes corporativos, informa Miguel Fonseca, vice-presidente de vendas.

Por meio de seu braço financeiro, a Volkswagen criou há dois anos a Fleet, que aluga automóveis do grupo para médios e grandes frotistas. Recentemente, a empresa iniciou projeto-piloto para oferecer também caminhões e ônibus. A próxima etapa é a locação para pessoa física.

“Inicialmente será para um grupo de controle, ou seja, vamos oferecer a locação para funcionários de empresas, muitas delas parceiras nossas, e bancos”, diz Rodrigo Capuruço, diretor do Volkswagen Financial Service. A Fleet deve encerrar o ano com frota de 10 mil carros. Uma de suas principais clientes é a startup Kovi, que realoca os veículos para motoristas de aplicativos como Uber e 99.

A General Motors tem planos de entrar no ramo, também por meio de seu banco, mas só no segmento de frota corporativa. “Não vamos competir com as locadoras”, adianta o presidente da empresa, Carlos Zarlenga. A Nissan é outra que quer atuar no segmento, e avalia se será em locação ou compartilhamento.

Competição

O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, diz que o movimento é parte da transformação do modelo de negócios do setor no mundo todo. “As empresas estão explorando novos negócios na área de serviços com projetos-piloto para ver o que funciona mais.”

Moraes admite que, no caso do aluguel haverá competição com as locadoras. “Se é bom para elas é bom para nós e para o consumidor.” Ele ressalta que há outros segmentos em que o setor estuda atuar, como de conectividade e infraestrutura, por exemplo na área de energia.

Ricardo Bacellar, diretor da consultoria KPMG, lembra que as locadoras apresentam “resultados financeiros maravilhosos”, enquanto as montadoras operam com margens espremidas. “O questionamento do setor é: nós fabricamos o produto essencial para que o negócio da locação exista; por que nós mesmos não podemos fazer parte disso?” Como compram veículos em grande quantidade, as locadoras conseguem descontos de até 35% das fabricantes. Além de obter receita com a atividade principal, após um ano também conseguem retorno com a venda dos carros usados.

Em alta

O presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), Paulo Miguel Junior, não vê a entrada das montadoras no ramo como “grande problema”. Para ele, o mercado está crescendo e “elas serão mais um player (jogador)”. O faturamento do setor cresceu 15% nos últimos dois anos, para R$ 13,9 bilhões, e a previsão é repetir a alta em 2019.

O número de empresas que atuam na locação cresceu de 11,2 mil em 2016 para 13,2 mil no ano passado. No tamanho da frota o salto foi de 30%, para 826,3 mil veículos. Ainda assim, diz Miguel Junior, o mercado tem muito a se desenvolver pois 80% a 90% das empresas do País ainda têm frota própria.

A Toyota oferece aos interessados todos os modelos de sua linha e luxuosos Lexus, a preços que vão de R$ 190 a R$ 599 a diária, acima do cobrado em várias locadoras. Um dos diferenciais é que há opção de aluguel por hora, não oferecida por locadoras. Fonseca ressalta que “a Toyota não lançou o serviço para competir com as locadoras, mas para atender às necessidades dos clientes; é um complemento para o nosso cliente que está em busca de mobilidade”. 

Bacellar ressalta que a locação será uma nova linha de receita para as montadoras, mas é preciso correr, pois, globalmente, empresas de tecnologia também estão de olho nesse mercado. Exemplo citado por ele é o da gigante de comércio eletrônico Amazon, que em junho iniciou projeto-piloto de locação de carros na Espanha. “Esse tipo de empresa tem capital de sobra para investir, enquanto as montadoras não”, diz. Para o consultor, uma solução seria as montadoras formarem um consórcio e oferecer diferentes marcas aos consumidores.

Outro serviço em que as montadoras apostam é o de gerenciamento de frotas. A PSA Peugeot Citroën iniciou nesta semana teste com um serviço chamado de Connect Fleet direcionado a todas as marcas de veículos. Opera por telemetria e é o primeiro da divisão global de mobilidade do grupo, a Free2Move, a ser introduzido no País. Outros devem chegar no futuro, como locação e compartilhamento./COLABOROU ANDRÉ ÍTALO ROCHA

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Líderes do aluguel de carros dizem que negócio é complexo

Localiza e Unidas não veem impacto em suas atividades com a oferta de aluguel de carros por parte das montadoras

Letícia Fucuchima, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 05h00

As duas maiores empresas do setor de locação, Localiza e Unidas, acreditam ter um diferencial competitivo importante para enfrentar as montadoras: a expertise num negócio complexo de se operar em escala e que, segundo elas, dificilmente gera retornos econômicos consistentes. De acordo com as locadoras, os desafios da atividade vão desde o gerenciamento logístico de mobilização e manutenção dos carros até a gestão de problemas como furto e fraude e o próprio atendimento ao cliente, que exige inovações tecnológicas constantes.

“Ninguém no mundo de hoje, que evolui tão rápido, consegue fazer tudo muito bem. As empresas têm de escolher quais as áreas que realmente vão se diferenciar e em quais vão fazer parcerias para oferecer os serviços”, diz o diretor de operações da Localiza, Bruno Lasansky.

O executivo afirma que “comemora” a iniciativa das montadoras, já que os consumidores terão mais opções. Mas pondera que, para se tornar líder de mercado, a Localiza precisou de 40 anos de esforços para se reinventar e inovar especialmente na experiência do usuário.

Como exemplo de inovação que caiu no gosto dos consumidores, Lasansky cita o Localiza Fast, disponível no aplicativo da empresa, e que transformou a locação em processo totalmente digital ao dispensar o atendimento no balcão das lojas.

Para a Unidas, a atuação das montadoras se dará em um nicho, focado na intenção de proporcionar uma boa experiência ao cliente para que decida comprar um carro daquela marca no futuro. “Enxergamos como um movimento natural que não deve impactar nossos negócios nem de curto, nem de médio prazo”, afirma o presidente da Unidas, Luis Fernando Porto. Segundo ele, pesquisas mostram que as locadoras não foram diretamente afetadas nos países onde as montadoras já oferecem locação ou compartilhamento de carros, como os EUA.

Porto destacou ainda que, para competir em pé de igualdade com as locadoras, as montadoras terão de estar posicionadas nos aeroportos. “A principal necessidade de locação, seja de empresas ou de pessoas físicas, está nos aeroportos. O nicho (de locação) na cidade é bem menor”, observa. Na Unidas, mais de 60% dos negócios de aluguel são gerados em lojas de aeroportos.

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