Proposta americana divide G-20

Sugestão de impor limites aos saldos externos dos países recebe o apoio de algumas nações, mas enfrenta a resistência de grandes exportadores

Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo,

22 de outubro de 2010 | 22h30

A proposta do secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, de fixar limites aos saldos comerciais de todos os países para tentar conter o risco de uma guerra cambial encontrou resistência entre ministros do G-20, grupo que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes.

A China não se manifestou oficialmente. Mas segundo uma fonte ouvida pela Reuters, o governo chinês não aceita limites aos saldos externos.

A oposição veio também de outros países que têm vantagem em seu comércio internacional e obtêm parcela significativa de seu crescimento das exportações, como Alemanha e Japão. Por outro lado, a proposta recebeu apoio do Reino Unido, Canadá e Austrália.

Geithner defendeu no encontro o estabelecimento de limites aos saldos em conta corrente de todos os países, tanto superavitários quanto deficitários. Ele propôs um teto de 4% do PIB para o resultado em transações correntes, indicador que reúne as operações de uma nação com o resto do mundo e reflete sua vantagem ou desvantagem comercial.

Mais do que opor desenvolvidos e emergentes, a iniciativa provocou cisão entre países ricos deficitários e superavitários. O primeiro grupo tem como maior representante os EUA, que há anos importam mais do que exportam. A China lidera o segundo grupo, no qual é acompanhada de Alemanha e Japão.

Geithner defende que países superavitários limitem sua vantagem comercial e estimulem o consumo doméstico, enquanto os deficitários, como os EUA, adotem medidas de austeridade e elevem suas exportações.

"Países do G-20 com persistentes superávits deveriam adotar políticas estruturais, fiscais e cambiais para estimular fontes domésticas de crescimento e suportar a demanda global", escreveu Geithner em carta aos participantes do encontro.

A proposta foi descartada por alguns ministros. "Fixar metas numéricas não seria realista", disse Yoshihiko Noda, ministro das Finanças japonês. Já a Alemanha diz que sua vantagem comercial não vem do câmbio, mas da competitividade das empresas.

A divisão dos países ricos ficou clara em reunião preparatória para o G-20 realizada na manhã de sexta-feira pelo G-7, que reúne EUA, Japão, Alemanha, França, Inglaterra, Canadá e Itália. O grupo não obteve consenso e decidiu que os americanos deveriam apresentar sua sugestão de maneira individual.

Dentro do Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – a proposta não foi bem recebida. A Rússia já avisou que acha pouco provável que a iniciativa tenha sucesso.

Apesar da resistência, a questão dos desequilíbrios cambiais deverá estar presente na declaração dos ministros do G-20, a ser divulgada neste sábado, 23. A dúvida ontem era a ênfase que será dada ao tema. O mais provável é que a linguagem seja vaga o bastante para acomodar as divergências.

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