Protecionismo nos biocombustíveis supera preocupações ambientais

Apesar da preocupação mundial com oaquecimento e com o impacto da produção de biocombustíveissobre o preço dos alimentos, os governos pouco fazem paraincentivar o comércio internacional de combustíveis maisbaratos e ambientalmente corretos, segundo especialistas. As tarifas e barreiras comerciais impedem, por exemplo, queo Brasil, líder em competitividade no setor de biocombustíveis,exporte mais etanol de cana. Os embarques na verdade devem cairneste ano em relação a 2007. Na Europa, os produtores de biodiesel foram afetados por umaumento nas importações dos EUA, cujos fabricantes sebeneficiam de subsídios pela mistura do produto com o dieselmineral. Para contra-atacar e proteger os seus produtores dobiocombustível, a UE pode impor taxas compensatórias, segundofontes do setor. A UE também se vê afetada por enormes quantidades debiodiesel argentino barato, com estímulo de taxaspreferenciais. O governo da Argentina taxa o produto em apenas5 por cento, enquanto a exportação do óleo comestível é taxadaem 30 por cento. "Alguns países estão tentando resolver um problema mundial,que é o aquecimento global e a mudança climática, apenas comsoluções nacionais", disse Marcos Jank, diretor da Unica(entidade brasileira dos produtores de cana), durante o SummitGlobal da Reuters de Agricultura e Biocombustíveis. Segundo a Unica, o etanol de cana é mais competitivo do queo produzido com outros produtos agrícolas. Cada hectare de canarende sete litros de etanol, bem acima dos três litros porhectare de milho. Além disso, os custos de produção são menores, e aeficiência energética --quantidade de energia usada na produçãoversus a energia resultante-- é cinco vezes maior do que noálcool de milho, segundo a Unica. Além disso, seu impacto sobre os preços alimentícios é maislimitado do que no caso do milho e do trigo. Quase um terço dapróxima safra norte-americana de milho pode ser transformada emcombustível, o que pressiona a inflação dos alimentos. Mas as tarifas em alguns dos maiores mercados mundiais decombustíveis, como EUA e Europa, vão limitar as exportações deetanol do Brasil. A consultoria Datagro prevê uma queda de 3,8bilhões de litros em 2007 para 3,4 bilhões de litros nesteano. PERSPECTIVAS SOMBRIAS A Unica diz que seus argumentos não são auto-promocionais,já que Ásia, África e o resto da América do Sul, por exemplo,também poderiam produzir álcool combustível de cana. Mais decem países --a maioria pobres-- têm condições de cultivar acana-de-açúcar. "A Europa está tentando subsidiar seus agricultores paraproduzir etanol de beterraba e trigo ao invés de comprar etanoldo exterior. O mesmo acontece nos EUA. A maior parte do etanolde lá é de milho, provavelmente de biomassa no futuro, mas nãoimportado", disse Jank. "Acreditamos que, se esses países considerarem importarmais de países em desenvolvimento, o equilíbrio energético eambiental será muito melhor, e os custos serão muito maisbaixos", disse ele. Mas os sinais desses países apontam numa direção contrária. O presidente do Comitê de Agricultura dos EUA, deputadoCollin Peterson, disse na terça-feira que os créditos fiscais eas tarifas sobre o etanol teriam de ser mantidas para que hajacondições para o desenvolvimento do etanol de celulose. "Esperamos que não tenhamos mudanças no imposto ou nastarifas no curto prazo" afirmou. O álcool brasileiro é taxadoem 54 centavos de dólar por galão no mercado norte-americano.Assim, a exportação direta só é vantajosa em ocasiões raras eespecíficas, quando há preços excepcionalmente baixos no Brasile altos nos EUA. E as perspectiva continuam negativas, pois em dezembro osEUA aprovaram uma Lei de Energia que estabelece como meta o usode 36 bilhões de galões de biocombustíveis --em princípio, semrecorrer a importações. "Eles não vão abrir seus mercados. Vão manter sua tarifa deimportação e criar uma cota, e então vão administrar esta cotapor critérios geopolíticos", previu Plínio Nastari, presidenteda consultoria brasileira Datagro. Wallace Tyner, professor da Universidade Purdue, de Indiana(EUA), disse que a meta prevista em lei só pode ser atingidacom mudanças de tarifas. "O Brasil e muitos países centro-americanos têm capacidadepara ampliar rapidamente sua produção de etanol, caso (os EUA)sinalizem que há mercado para isso", disse Tyner. (Com reportagem adicional de Christine Stebbins em Chicagoe Tom Doggett em Washington)

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