Protestos contra a austeridade se multiplicam pela Espanha

Espontâneas ou organizadas, manifestações se espalham pelo país e visam ao governo de Mariano Rajoy, que anunciou um novo corte de € 65 bilhões até 2014

Andrei Netto, correspondente, Paris,

16 de julho de 2012 | 15h48

PARIS - Depois da Grécia, é chegada a vez de a Espanha arder em protestos contra a política de austeridade que predomina na Europa. Desde o anúncio de que um novo garrote de € 65 bilhões vai estancar gastos públicos e aumentar a arrecadação até 2014, o governo conservador de Mariano Rajoy enfrenta uma onda de manifestações que se espalha pelo país.

Desde o final e semana, funcionários públicos, professores, policiais, enfermeiros e até bombeiros e policiais saíram às ruas para o fim do arrocho que levou o desemprego e superar 24%. Sindicatos já pedem a convocação de novas eleições, menos de sete meses após o último pleito.

Os protestos, convocados por sindicatos ou organizados por cidadãos comuns via redes sociais, como Facebook e Twitter, vêm mobilizando o cenário político e social do país. As manifestações de descontentamento vão da capital, Madri, às pequenas cidades, passando por Barcelona ou Valência. O cortejo mais surpreendente foi realizado no domingo à noite, quando policiais removeram as insígnias de seus uniformes e foram às ruas simulando os cordões de isolamento que eles costumam fazer para bloquear manifestantes. Só que, desta vez, eles eram os indignados. Ao lado deles, estiveram os bombeiros.

Manifestações

Em Valência, a capital de uma das comunidades autônomas mais endividadas do país, o Estado verificou no final de semana protestos de comboios de caminhoneiros e de desfiles de servidores públicos, que distribuíram adesivos por toda a cidade com palavras de ordem contra Mariano Rajoy e contra o novo plano de rigor. Em automóveis, alguns cidadãos também circularam com cartazes com dizeres "Eleições antecipadas já".

As manifestações têm um alvo central: o novo corte dos salários do funcionalismo público. Isso porque em 2010 o governo socialista de José Luis Rodríguez Zapatero havia decidido pela redução de 5% dos rendimentos. Agora, Rajoy anunciou que extinguirá o 14º salário, o prêmio natalino, o que representará um corte de 7% da renda anual dos servidores.

Além dessa medida, o primeiro-ministro anunciou o aumento da TVA - o maior imposto sobre o consumo do país - dos atuais 18% para 21%, o que representará em média uma perda pouco inferior a € 500 por ano para a população. Não bastasse, o seguro-desemprego também cairá de 60% para 50% de seu valor de base a partir do sexto mês de ociosidade - tudo em um país em que 24% da população economicamente ativa não tem trabalho.

Cortes

Os cortes visam a adequar as contas públicas a duas novas realidades. A primeira é a queda nas previsões de crescimento. De acordo com previsões atualizadas ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), a Espanha enfrentará recessão em 2012 mas agora também em 2013. Em lugar de um crescimento mínimo de 0,1% no próximo ano, o país enfrentará um recuo de 0,6%.

"As turbulências nos mercados se aceleraram na Espanha em razão das novas inquietudes e da saúde do sistema financeiro e suas possíveis implicações fiscais", diz o relatório do fundo.

Além disso, o governo de Rajoy também tem de se adequar às exigências impostas por Bruxelas em troca do plano de recapitalização dos bancos do país, de até € 100 bilhões. Em um primeiro momento, o premiê havia afirmado que Madri não precisaria realizar novos cortes, nem sofreria a intervenção dos técnicos da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do FMI.

O que se vê, entretanto, é um governo correndo para responder à exigência de Bruxelas, de reduzir o déficit público a 6,3% em 2012, a 4,5% em 2013 e a 2,8% em 2014.

Ajuda

No domingo, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, voltou à ofensiva contra os países em crise - inclusive a Espanha -, condicionando qualquer ajuda financeira às reformas que sua administração prega. Em entrevista à rede de TV pública ZDF, reiterou que "todas as tentativas de dizer 'sejamos solidários', mas sem nenhuma contrapartida, não terão nenhuma chance frente a mim, frente à Alemanha".

Para os analistas do Barclays Bourse, Merkel "reafirmou a responsabilidade dos Estados mesmo quando a ajuda financeira é destinada apenas ao setor bancário, como é o caso da Espanha".

É contra essa política de rigor imposta por Berlim e acatada por Madri que os trabalhadores se revoltam. Nas redes sociais uma campanha denominada #graciasfuncionarios vem combatendo o discurso do governo, que propõe novos cortes na educação, na saúde e no atendimento ao público.

E ontem as principais centrais sindicais do país, como a Confederación Sindical de Comissiones Obreras (CCOO), advertiram o governo de que, se não houver recuo no novo garrote, uma greve geral será "inevitável". Na quinta-feira, uma "jornada de mobilização" será realizada nas principais cidades do país, em uma advertência a Rajoy. 

França

O presidente da França, François Hollande, anunciou ontem em Paris a revogação das principais isenções de impostos criadas por seu antecessor, Nicolas Sarkozy, e apresentou um pacote de aumento de impostos para enfrentar o déficit público e as dívidas, que chegam a 87% do PIB.

O texto a ser entregue ao parlamento suspende isenções de impostos para grandes fortunas, reforma as cotizações sociais e anula a isenção fiscal de horas-extras, além de aumentar os impostos sobre heranças e doações e sobre ações de companhias petrolíferas. A lei que ampliará a 75% o imposto sobre salários anuais superiores a € 1 milhão, porém, ainda não foi apresentada. Ela só deve ser enviada à Assembleia Nacional no mês de setembro.

Como símbolo de disciplina fiscal, o primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, também apresentou a lei de corte de 30% dos vencimentos do presidente e do primeiro-ministro.

(Com AP e AFP)

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