Pedro Spina
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Proximidade de fundador da Gocil com políticos pode afetar IPO da empresa

Relação de Washington Cinel com Bolsonaro e o governador João Doria pode levar investidor a considerar risco político durante processo de abertura de capital da companhia, previsto para 2022 na B3

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 05h00

Em 36 anos, a Gocil se tornou uma das maiores empresas de segurança privada do País, com faturamento acima de R$ 1,2 bilhão e mais de 24 mil funcionários. Mas, nos últimos anos, a empresa vem ficando cada vez mais associada à aproximação do fundador Washington Cinel com figuras políticas – algumas delas até antagônicas –, como o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria.

É comum, por exemplo, Cinel fazer reuniões com empresários e o presidente em sua casa. Agora, a empresa planeja um IPO para 2022. E o risco político pode estar no radar dos investidores.

Isso é algo que parece não incomodar o presidente da companhia, Bruno Jouan. Desde dezembro de 2019 no comando da Gocil, Jouan enxerga Cinel com um papel importante para a empresa como presidente do conselho e fundador, mas afirma que ele próprio é o único responsável pela gestão do negócio. 

“Ele se posiciona assim como outros empresários e não fala nada sobre a Gocil. Defende os interesses da empresa e não enxergo nenhum tipo de resistência de investidores e fundos de investimento”, afirma Jouan.

Esse tipo de resistência aconteceu com a Havan, do empresário Luciano Hang (ligado a Bolsonaro), que tinha planos de realizar o seu IPO neste ano e mirava um valor de mercado acima de R$ 100 bilhões. Como esse valor ficou longe de ser atingido, em parte por causa das polêmicas do empresário, a Havan decidiu não realizar a abertura de capital.

Mas o executivo da Gocil afirma que a situação é diferente. Ele conta que se encontrou com mais de 30 fundos nos últimos meses e que o que chama a atenção deles são os resultados da companhia. 

Em 2020, a pandemia afetou diretamente os resultados da Gocil: além de uma queda de 3% no faturamento, a empresa teve uma rotação em 35% nos contratos, ante uma média histórica de 10%. A Gocil gastou quase R$ 30 milhões com indenizações de mais de 2,5 mil empregados demitidos durante a pandemia.

Nos últimos três meses, a empresa tem conseguido se recuperar. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), dado importante para medir a geração de caixa, deve subir de R$ 20 milhões, em 2020, para R$ 60 milhões neste ano. Jouan prevê um crescimento de 8% este ano. 

Com as contas mais ajustadas, a Gocil quer investir mais em seu braço de serviços de tecnologia, como instalação de serviços como alarmes, controle de acesso, câmeras de vídeo inteligentes e reconhecimento facial, entre outros produtos. Para Jouan, essa é a área que tem maior potencial de expansão. Ele enxerga que esse braço aumentará a representatividade dos atuais 5% para 30% do faturamento em três anos. 

Risco político

Se chegar mesmo à B3, a empresa será a segunda do setor de segurança privada na Bolsa. Em abril deste ano, o Grupo GPS abriu capital e arrecadou R$ 2,5 bilhões. Desde então, as ações do GPS subiram 37%. Mas Jouan admite que o ano eleitoral e a aversão do mercado a risco podem atrapalhar os planos. 

Para Carlos Eduardo Daltozo, diretor de renda variável da casa de análises Eleven, o risco político existe, mas como Cinel não faz tanto barulho como Hang, da Havan, o peso deve ser menor. “O executivo não está no dia a dia da operação, como é o caso do Luciano Hang, que é a figura central da Havan”, diz Daltozo. “Mas o risco político está em alta, é só ver o que aconteceu com a Petrobras e o Banco do Brasil, que está em seu maior patamar de descontos frente aos bancos privados.”

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