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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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Quebrando o asfalto

Possibilidades para a infraestrutura e o espaço das cidades

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2017 | 06h00

Em um futuro no qual os carros serão movidos a energia limpa, onde a tarefa de dirigir ficará com os computadores e compartilhar ao invés de possuir um veículo será a escolha de muitos, qual será o impacto de tudo isso sobre a infraestrutura das cidades?

Um fenômeno comum entre os chamados “millennials” – a geração nascida entre 1980 e 2000 – é a adoção crescente da cultura da “economia colaborativa”. Ao invés de adquirir seu próprio carro, que fica estacionado durante a maior parte do tempo, as pessoas passam a encarar de forma natural o uso compartilhado de um mesmo veículo. Empresas como a Zipcar, fundada em 2000 e adquirida em 2013 pelo grupo Avis Budget por US$ 500 milhões, ou como a Uber, fundada em 2009 e com receita superior a US$ 1,5 bilhões em 2015, disponibilizam – utilizando modelos de negócios distintos – carros onde e quando for mais conveniente para o usuário.

Ainda não parece claro se esse paradigma irá de fato reduzir o número de carros vendidos, uma vez que os veículos compartilhados irão rodar uma quantidade muito maior de quilômetros por dia que suas contrapartes de uso individual, sofrendo consideravelmente mais desgaste. E é bem provável que muitos ainda tenham um carro para viagens fora de áreas urbanas densamente povoadas.

Ainda assim, uma das prováveis consequências para o espaço urbano será a redução da necessidade de termos grandes áreas ocupadas por estacionamentos. Os carros compartilhados (autônomos ou não), ao finalizarem o dia de trabalho, não precisam ficar na cidade, podendo ser estacionados em espaços pré-definidos mais afastados. Para o mercado imobiliário, trata-se de uma potencial mudança importante, com a liberação de áreas valorizadas que hoje servem apenas para abrigar carros e que podem passar a ter utilização mais eficiente.

Não importa o modelo que será adotado – carros autônomos ou não, compartilhados ou não – a forma como os carros elétricos serão recarregados também irá trazer oportunidades nas áreas imobiliária e de infraestrutura.

A fonte de energia para esses carros será a eletricidade, necessária para recarregar as baterias. Imaginar que os postos de combustível atuais serão adaptados para recarregar os carros não parece razoável – afinal de contas, o acesso à eletricidade é praticamente universal. Um acordo assinado entre Ford, Mercedes-Benz, BMW e Volkswagen recentemente estabeleceu uma parceria (ainda aberta para outras montadoras) para o desenvolvimento e a implantação de uma rede de recarga rápida pela Europa, visando aumentar a autonomia dos carros elétricos. Essa rede irá começar com cerca de 400 pontos em 2017, e planos de expansão contínua até pelo menos 2020.

Atualmente, carros elétricos são literalmente ligados na tomada para serem recarregados, exatamente como um telefone celular. Uma vez que não seja mais necessário que uma pessoa dirija o carro, qual a lógica de exigir-se que uma pessoa realize seu abastecimento, mesmo que simplesmente ligando-o na tomada?

O futuro da recarga – não apenas para carros, mas para quaisquer dispositivos que utilizam baterias – vai prosseguir na busca por alternativas sem fio. As estradas poderão possuir uma faixa que irá transmitir energia para o veículo, e regiões próximas aos sinais de trânsito nas cidades poderão ser equipadas com pontos de recarga sob o asfalto. A tecnologia para isso, baseada em indução eletromagnética e mais recentemente em ressonância magnética, já está sendo testada e abre possibilidades para diversos mercados.

Semana que vem iremos seguir discutindo o tema da economia colaborativa ou compartilhada como agente de mudanças - que já podem ser verificadas em diversos setores da economia. Até lá.

*Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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