Werther Santana/Estadão - 21/3/2019
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Quem é Caoa, o novo dono da fábrica da Ford no ABC Paulista

O paraibano Carlos Alberto Oliveira Andrade veio de uma família com 17 irmãos e formou-se médico na década de 1960; envolveu-se em polêmicas, mas obteve sucesso numa proporção ainda maior

Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 17h08

Carlos Alberto Oliveira Andrade, o Caoa, está perto de acrescentar ao seu grupo a fábrica de caminhões da Ford em São Bernardo do Campo (SP). As negociações, que se desenrolam praticamente desde que a empresa americana anunciou, em fevereiro, que iria fechar a unidade, caminham para um desfecho nos próximos dois meses.

Nesta terça-feira, 3, em uma cerimônia na sede do governo de São Paulo, os grupos anunciaram já terem um acordo, mas que ainda depende de detalhes para ser oficialmente fechado. A ideia é fabricar na fábrica paulista veículos da marca chinesa Changan – essa negociação está em andamento.

Se concluído o negócio com a Ford, será mais um passo na expansão de um grupo que já se tornou o maior do País nesse setor, com duas fábricas, quase 200 concessionárias e a criação de 25 mil empregos diretos e indiretos. A marca mais recente sob o comando de Caoa, a Caoa Chery, foi a que mais cresceu nos últimos dois anos. 

 

Aos 75 anos, o paraibano é conhecido como bom negociador. Vindo de uma família de 17 irmãos, trabalhava como cirurgião quando comprou, em 1979, um Ford Landau em uma concessionária da marca em Campina Grande (PB). A revenda quebrou, e Caoa a comprou barato, como forma de compensar a perda do dinheiro pago pelo carro. Fundou ali a Caoa, com a fama do doutor que fazia qualquer negócio.

Formado em Medicina pela Federal de Pernambuco, dr. Caoa aceitava como pagamento de carros usados a terrenos e cabeças de gado, passando por estoques de tijolos. Às vezes, perdia dinheiro, mas o importante era fechar o negócio, segundo o perfil oficial do empresário.

A fama fez com que compradores viessem de toda a região, até mesmo de João Pessoa e Natal. Não demorou para que a Ford oferecesse a ele a principal concessionária do Recife e, pouco tempo depois, algumas de São Paulo. Em menos de seis anos, Caoa se tornou o maior revendedor Ford do Brasil – posto que mantém até hoje. 

Collor e polêmicas

O porte dos negócios de Caoa mudou, no entanto, com a abertura do mercado, promovida no governo Collor. Em 1992, tornou-se importador exclusivo da Renault e, seis anos depois, da Subaru. A marca japonesa era representada por outro grupo e, em menos de um ano, o empresário triplicou suas vendas. O mesmo aconteceu com a coreana Hyundai: antes nas mãos de duas outras empresas, com Caoa o Tucson virou líder de sua categoria. 

Esse crescimento, porém, também veio cercado de polêmicas. Caoa foi à Justiça, por exemplo, contra os sócios da Renault e da Hyundai, depois que os acordos desandaram. O empresário também foi acusado de corrupção na Operação Zelotes, suspeito de tentar influenciar uma medida provisória que beneficiou as montadoras.

A Justiça, no entanto, decidiu que não havia provas contra o empresário. Na operação Acrônimo, Caoa foi denunciado por um delator por ter pago R$ 20 milhões ao governador Fernando Pimentel (PT), em troca de benefícios à empresa, quando era ministro do  Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior  

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Caoa construiu o sucesso da Hyundai, com Tucson, HB20, ix35 e outros – e depois da Chery – com a mesma estratégia: uma rede estruturada de concessionárias, pós-venda bem treinada e investimentos massivos em mídia impressa.

Para conseguir presença nos espaços mais nobres de jornais e revistas, novamente a estratégia de bom negociador. Caoa compra espaços em pacotes sem a intermediação de agências – e em períodos de entressafra de anunciantes, longe de datas nobres como véspera de Natal e Dia das Mães, por exemplo.

As fábricas

Durante a evolução das marcas, o empresário passou a produzir no País os carros Hyundai. Em 2007, investiu R$ 1,2 bilhão na Caoa Montadora de Veículos, em Anápolis (GO). Dez anos depois, pagou US$ 60 milhões pelo controle da Chery no Brasil, que se tornou Caoa Chery. No pacote, estava incluída a fábrica em Jacareí (SP). 

A montadora chinesa já havia investido US$ 530 milhões no Brasil desde sua chegada, sendo US$ 400 milhões na linha de montagem, com capacidade de produção de 50 mil carros por ano. Em 2016, só 5 mil unidades foram feitas. Em 2018, após um ano nas mãos de Caoa, foi a marca que mais cresceu no mercado, com alta de 131% nas vendas. Entre janeiro e julho de 2019, cresceu mais 245%. 

Caoa afastou-se do comando da empresa em 2013, quando Antônio Maciel Neto, que havia sido presidente da Ford, assumiu o grupo. Caoa foi para a presidência do conselho. Em 2017, houve nova troca na presidência, com Mauro Correia assumindo o comando do grupo. 

Ao negociar a compra da fábrica da Ford, o empresário continuou fiel ao seu estilo. Afirmou em entrevista que não esperava ajuda, mas condicionou a compra à aprovação da reforma da Previdência.

Procurada, a Caoa não respondeu ao pedido de entrevista até a publicação desta reportagem. 

 

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