Representante dos trabalhadores na Petrobrás denuncia ingerência política

Segundo Silvio Sinedino, conselho não discute estratégia da empresa e só referenda acordos feitos entre governo e diretoria da estatal 

Sabrina Valle, da Agência Estado,

13 de dezembro de 2012 | 23h00

Primeiro representante dos empregados no Conselho de Administração da Petrobrás, o engenheiro Silvio Sinedino revelou nesta quinta-feira, 13, bastidores das discussões na principal instância decisória da empresa. Segundo ele, o conselho, presidido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, não discute estratégia da empresa com profundidade, referendando acordos previamente fixados entre o governo e a diretoria executiva da companhia.

"O conselho não está decidindo os rumos estratégicos da Petrobrás. Isso é feito em outro lugar", disse, em palestra nesta quinta à noite no Clube de Engenharia. (Na reunião) a diretoria executiva já costurou tudo com o governo".

Com a entrada de Sinedino, este ano, o conselho ampliou para dez o número de representantes. Nesta quinta, ele fez o balanço de seu primeiro ano de mandato a uma plateia de petroleiros e engenheiros da companhia, marcado pelo tom de denúncia de ingerência política nas decisões da empresa e também por cobranças acerca de projetos orçamentários.

Afirmando que a companhia não pode ficar sujeita "à política baixo paroquiana dos aliados do governo", Sinedino citou o projeto das refinarias Premium, previstas para serem construídas no Nordeste. Disse que os projetos ainda não tiveram sua viabilidade financeira provada. As refinarias estão "em análise" no plano de investimento da companhia.

Em sua explanação, o conselheiro comentou que, na época da elaboração, fazia sentido construir as refinarias no Maranhão e no Ceará, já que iriam exportar produtos. Logisticamente, a localização se justificaria ser mais próximas do mercado destino. No entanto, diz, o mercado mudou e o País precisará das refinarias para consumo interno.

De acordo com ele, há estudos mostrando que o Centro Oeste seria um local mais adequado para a construção. A manutenção dos planos de construí-las no Nordeste, declarou, poderia atender a interesses políticos. "(Uma coisa é usar a Petrobrás para) o desenvolvimento do País, outra é usar para atender à baixa política", disse, em palestra no Clube de Engenharia, no Rio.

Procurada, a Petrobrás informou que não comentaria as declarações do conselheiro que destacou, entre suas críticas, o aumento do orçamento da refinaria Abreu e Lima (Rnest/PE). A obra passou de US$ 2,8 bilhões para US$ 20,1 bilhões. Segundo ele, falta clareza para o aumento de custo.

Reajuste. A presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, pede aumento no preço de combustível em "todas as reuniões" do conselho, segundo enfatizou. As reuniões são mensais e o conselho é formado basicamente por representantes do governo, controlador majoritário da companhia.

O conselheiro disse, no entanto, que o aumento não é discutido na reunião. De acordo com ele, em uma das reuniões Mantega disse explicitamente a Graça que o conselho não é o fórum para decidir aumento. "Aqui entre nós, a senhora sabe que não é nesse fórum que se decide aumento de combustível", disse Mantega a Graça, segundo o relato de Sinedino.

O conselheiro afirmou que a companhia está com problemas de caixa, por não ter recebido os aumentos previstos em seu plano de investimentos. De acordo com ele, no limite, há risco de a companhia vir a perder o grau de investimento, o que elevaria o custo de capital da empresa. Afirmou, também, que o plano de desinvestimento da companhia, de cerca de US$ 15 bilhões, ainda não foi apresentado no órgão.

Sinedino

defende que o plano seja apresentado e está cobrando no conselho explicações sobre a refinaria de Pasadena (Texas/EUA), que integra a lista de ativos a serem vendidos. O ativo foi comprado pela companhia por preço acima do mercado e, segundo ele, a Petrobrás pode perder até US$ 1 bilhão com a sua venda, conforme revelou o Estado. Lembrou que a Petrobrás gastou US$ 1,2 bilhão para adquirir a refinaria, mas que hoje a planta "vale, no máximo, US$ 200 mil" 
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