Risco relacionado às commodities arrefeceu, mas ainda é o maior, diz BC

Relatório de Inflação considera que, do lado interno, principal risco está relacionado à possibilidade de a alta da inflação nos últimos meses ser transmitida ao cenário prospectivo

Fabio Graner e Renata Veríssimo, da Agência Estado,

29 de junho de 2011 | 11h28

O Relatório de Inflação do Banco Central afirma que o principal risco inflacionário, no cenário externo, ainda está relacionado ao comportamento dos preços das commodities. "Esse risco arrefeceu, embora a perspectiva para a evolução dos preços das commodities nos mercados internacionais, inclusive petróleo, ainda se apresente envolta em incerteza", afirma a autoridade monetária.

O BC avalia que, desde o último relatório em março, consolida-se a visão de que são reduzidas as chances de haver nova rodada de ações monetárias não convencionais, que são vistas como elemento de apoio para a escalada recente dos preços das commodities nos mercados internacionais, e aumentaram as preocupações com a possibilidade de desaceleração da atividade econômica na China. Por outro lado, nesse período, aumentou a aversão ao risco nos mercados financeiros internacionais, um desenvolvimento com repercussões baixistas sobre os preços de ativos domésticos.

Segundo o documento, a elevação de preços no atacado e a dos preços administrados influenciaram desfavoravelmente a dinâmica da inflação ao consumidor de janeiro a maio deste ano. "De fato, as evidências sugerem que há estreita relação entre a aceleração de preços no atacado nos meses finais de 2010 e iniciais de 2011 com a dos preços das commodities no mercado internacional", ressalta. Por isso, o BC entende que grande parte do efeito direto da elevação dos preços das commodities já foi incorporada aos preços ao consumidor.

No entanto, ainda é significativa a elevação dos preços das commodities e dos preços no atacado no acumulado em 12 meses e os impactos remanescentes representam um risco presente para a inflação ao consumidor.

O BC acredita que os produtos importados tendem a continuar a arrefecer as pressões inflacionárias domésticas. Em primeiro lugar, porque competem com produtos produzidos domesticamente e, assim, impõem maior disciplina aos formadores de preços. Os produtos comprados no mercado externo ainda reduzem a demanda nos mercados de insumos domésticos e, dessa forma, contribuem para o arrefecimento de pressões de custos e, por conseguinte, de seus eventuais repasses para os preços ao consumidor.

O relatório afirma que, o cenário prospectivo externo contempla moderação no ritmo de recuperação da atividade econômica global e na dinâmica dos preços das commodities. Do lado interno, embora as projeções de inflação ainda indiquem dinâmica para a inflação menos benigna do que a constante do último Relatório de Inflação, o balanço de riscos mostra sinais mais favoráveis para o cenário prospectivo, em ambiente de moderação da atividade econômica.

Risco interno

O Banco Central considera que o principal risco do lado interno da economia brasileira está relacionado à possibilidade de a alta da inflação nos últimos meses ser transmitida ao cenário prospectivo. De acordo com o relatório de inflação, a autoridade monetária lembra que esse risco ocorre em um contexto de estreita margem de ociosidade nos mercados de fatores - em especial no de trabalho - e de descompasso entre as taxas de crescimento da oferta e da demanda. "Esse risco pode se agravar pela presença, na economia, de mecanismos que favorecem a persistência da inflação", diz o BC.

Nesse sentido, o Copom destaca que existem resistências importantes à queda da inflação no Brasil, por conta dos mecanismos que perpetuam a inflação passada. "Nesse contexto, os riscos associados aos mecanismos de indexação tornam-se particularmente importantes em circunstâncias como a atual, quando a inflação acumulada em doze meses se posicionou acima da trajetória de metas", avalia a autoridade monetária.

No relatório de inflação, o BC também destaca que, embora as projeções de inflação ainda indiquem uma dinâmica menos benigna para os preços, o "balanço de riscos mostra sinais mais favoráveis para o cenário prospectivo, em ambiente de moderação, em ritmo ainda incerto, da atividade econômica".

Alta do crédito

O Relatório de Inflação do Banco Central afirma que há sinais de que a expansão da oferta de crédito tende a persistir, embora em ritmo ainda mais moderado, em virtude de ações macroprudenciais e de ações convencionais de política monetária e pelo fato de a confiança de consumidores e de empresários se encontrar em níveis historicamente elevados, a despeito de alguma acomodação na margem.

Para o BC, a dinâmica do mercado de crédito merece atenção, tanto pelos potenciais impactos sobre a demanda agregada e, por conseguinte, sobre a inflação, quanto por riscos macroprudenciais que dela podem se originar. O BC lembra que o dinamismo do mercado de crédito tem determinado o crescimento contínuo da relação crédito/PIB, o que, entre outros fatores, contribui para ampliar o poder da política monetária no Brasil.

Por outro lado, a fragilidade observada em algumas economias maduras, combinada com as perspectivas favoráveis para a economia brasileira, tem determinado a entrada de intensos fluxos de recursos estrangeiros no Brasil, sendo que parte desses recursos tem sido canalizada para o mercado de crédito. Nesse sentido, afirma o BC, a entrada de capitais externos tende a enfraquecer o canal do crédito, ao suavizar sua contribuição para a contenção da demanda agregada, bem como causar distorções nos preços de ativos domésticos.

O BC avalia que a moderação da expansão do mercado de crédito constitui elemento importante para que se concretize seu cenário central. A autoridade monetária defende ainda a introdução de iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito. Em relação ao quadro vigente no relatório anterior, de março, prevalece a visão de que houve aumento na probabilidade de concretização da hipótese de moderação da expansão do mercado de crédito de um modo geral. A propósito, diz o BC, informações disponíveis evidenciam alterações importantes tanto nos preços e prazos praticados quanto nas quantidades de recursos transacionados no mercado de crédito, após a introdução das iniciativas macroprudenciais.

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton, afirmou que a instituição não tem meta para o crescimento do crédito este ano, mas afirmou que a estimativa atual de 15% permite que o BC trabalhe de forma confortável no controle da inflação. "A moderação do credito é importante para que se concretize o nosso cenário central. Nós estamos confortáveis com crescimento de 15%", afirmou em entrevista para comentar o Relatório de Inflação de junho.

Segundo ele, o aumento do estoque, que cresce muito, não é um bom parâmetro porque incorpora dívida indexada à inflação. "A maneira melhor de se avaliar a moderação do crédito é pelo volume do mercado de concessões", destacou.

Segundo Hamilton, o que é importante para o BC, do ponto de vista da inflação, é que haja a moderação da concessão de crédito esse ano. Ele afirmou que um crescimento do crédito de 15% é compatível com cenário de inflação apresentado pelo BC. O diretor destacou que também há uma moderação nas operações de mercado de capitais. "Isso é crédito para a pessoa jurídica, substituto para crédito bancário", destacou.

(Texto atualizado às 12h29)

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