Ritmo da indústria não altera política monetária, dizem economistas

Para especialistas, a desaceleração do ritmo da indústria era esperada, especialmente com o fim dos incentivosfiscais concedidos para consumidores adquirirem carros e eletrodomésticos

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

27 de maio de 2010 | 17h20

A retração da atividade das fábricas em abril no Brasil, como sugerem dados divulgados pela Confederação Nacional da Indústria, não deve alterar a trajetória de alta de juros de pelo menos três pontos porcentuais neste ano, avaliaram economistas ouvidos pela Agência Estado. De acordo com a CNI, o índice de produção caiu de 62,9 pontos em março para 51 pontos no mês passado, enquanto o nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) passou de 54 para 50 pontos no mesmo período.

Para os especialistas, a desaceleração do ritmo das empresas manufatureiras era esperada, especialmente com o fim dos incentivos fiscais concedidos pelo governo para consumidores adquirirem bens duráveis como carros e eletrodomésticos.

"Houve uma antecipação das compras pelas famílias em março em função dos benefícios fiscais e isso deve ter gerado uma sobra na produção industrial em abril", comentou o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges. Ele destacou que vários indicadores, considerados como antecedentes da fabricação de manufaturados, apresentaram queda em abril ante março. Nesse período, caiu 1,9% o fluxo de veículos pesados em estradas com pedágio, segundo a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias. No mês passado ante o anterior, a produção de papelão ondulado, de acordo com a ABPO, caiu 3,2%, o consumo de energia baixou 0,5%, segundo o ONS, a fabricação de veículos apurada pela Anfavea caiu 5,8% e a produção siderúrgica de aço recuou 0,3%, como apontou o Instituto Aço Brasil.

Na avaliação do economista sênior do BES Investimento, Flávio Serrano, a redução da demanda agregada em abril deve levar a produção industrial a um recuo próximo a 2%. Ele espera que o PIB deve apresentar uma alta de 2,6% no primeiro trimestre, na margem, o que representa uma elevação do crescimento do País de 10,6% em termos anualizados. Borges, da LCA, acredita que o Produto Interno Bruto deve ter avançado 2,3% de janeiro a março ante o trimestre anterior, o que representaria um ritmo de expansão de 9,5% se for mantido constante por um ano.

Como essas taxas de incremento do nível de atividade são fortes demais para uma economia que mal consegue atingir um patamar de poupança doméstica de 19% do PIB, quando o crescimento do Brasil alcança a velocidade de expansão de 7% os preços sobem, ressalta o ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto.

"Neste contexto de economia muito aquecida, podemos dizer que há chances iguais do BC elevar os juros em junho em 0,75 ou um ponto porcentual", disse Braulio Borges. Para 2010, a LCA estima que o PIB crescerá 6,2% e o IPCA deve atingir 5,2%, acima da meta de 4,5%. Segundo Borges, o aumento total da Selic em três pontos porcentuais neste ano deve levar o crescimento para 4,6% em 2011 e aquele índice de inflação deve chegar a 4,1%.

De acordo com o BES Investimento, o Copom deverá aumentar os juros em 3,25 pontos porcentuais neste ano, pois será necessário reduzir o custo de vida de 5,5% em 2010 para 4,5% no ano que vem. Com este aperto da política monetária, Flávio Serrano estima que o PIB deve desacelerar de uma alta de 7% neste ano para uma alta de 4% doze meses depois.

Tanto Borges como Serrano destacam que indicadores macroeconômicos apurados a cada mês, como a produção industrial, apresentam variâncias muito fortes, são voláteis, e normalmente não interferem de forma expressiva na condução da política monetária. "As decisões do BC sobre os juros levam em consideração tendências sobre vários fatores e seus efeitos sobre a inflação", comentou o economista-sênior do BES Investimento. "Contudo, se ocorre uma queda significativa dos indicadores industriais isso pode reduzir as expectativas de alta da inflação, sobretudo para 2011, o que pode influenciar as reuniões do Copom", comentou o economista-chefe da LCA.

De acordo com Bráulio Borges, o pico do NUCI apurado pela CNI e FGV neste ano não devem superar as marcas registradas há dois anos, quando a economia está crescendo com vigor, antes da deflagração da crise financeira internacional com a falência do banco Lehman Brothers. Ele acredita que a marca mais elevada do indicador apurado pela Confederação Nacional da Indústria será 83% em julho, abaixo dos 83,8% registrado em janeiro e fevereiro de 2008. No caso do índice estimado pela Fundação Getúlio Vargas, o patamar mais alto será de 85,5% em agosto, inferior aos 86,7% exibidos em julho de 2008. "O nível de utilização da capacidade das indústrias não deve atingir uma marca exagerada neste ano, mas mesmo assim será desconfortável e deve requerer uma ação enérgica da política monetária, como já está ocorrendo desde março, com a retorno de depósitos compulsórios dos caixas dos bancos para o BC", disse. 

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