Safra 2004/05: setor de insumos vê desânimo no campo

São Paulo, 2 - Preços mais baixos, custos de produção mais altos e menor oferta de crédito. Este é o cenário desenhado pela indústria de fertilizantes, defensivos e sementes no início do plantio da safra 2004/05. Representantes dos três setores participaram, na manhã de hoje, do XVI Seminário da Associação de Marketing Rural e Agronegócio, em São Paulo. "O clima é de desânimo no campo", afirma Paulo César Cau, líder de Negócios de Sementes de Milho e Sorgo da Monsanto e diretor da Associação Paulista de Produtores de Sementes. "Os produtores ainda estão indecisos, porque a rentabilidade do milho e da soja caiu muito." Segundo Cau, a indecisão dos produtores está respingando na comercialização de sementes dos dois produtos. No caso do milho, as vendas até o momento são 20% menores do que no mesmo período do ano passado. No caso da soja, o cenário também é nebuloso. "Um grande número de produtores que fez encomendas de sementes nos últimos 90 dias ainda não efetuou pagamento", disse. No caso da soja, somente com o pagamento há a confirmação da compra. Só nesse momento o produtor retira a semente das revendas para o plantio. Os preços mais altos dos fertilizantes são um dos responsáveis pela elevação dos custos de produção. Segundo Eduardo Daher, diretor executivo da Anda (Associação Nacional de Difusão de Adubos), os preços dos fertilizantes subiram 45% no último ano. Segundo Daher, fundamentos do mercado internacional explicam a elevação de preços. O Brasil é particularmente sensível, pois importa atualmente 70% de seu consumo. O motivo mais óbvio para a elevação dos preços dos fertilizantes é a alta do petróleo e do gás natural, matéria-prima para a produção de fertilizantes à base de nitrogênio. O barril de petróleo chegou a US$ 50,00 recentemente, e está acima de US$ 40,00 hoje. "Como resultado, o preço da uréia atingiu US$ 230 por tonelada, uma alta de mais de 40% em menos de um ano." O crescimento da demanda mundial por fertilizantes em um cenário de estoques apertados também vem mexendo com os preços. E este aumento não afeta apenas as fontes de nitrogênio, mas também o fósforo, o potássio e o enxofre. "A China está aumentando muito o consumo desses produtos, e isso provoca uma alta de preços", diz Daher. Por último, o diretor executivo da Anda menciona a alta dos fretes marítimos. "Está havendo um desvio da frota para o Pacífico, por causa do forte volume de importações da China", diz. Segundo Daher, não são os embarques de fertilizantes, mas de produtos como o aço e carvão que causam o problema. "O fertilizante representa pouco mais de 3% do mercado de frete, mas está sendo afetado pela forte demanda de navios." A alta dos preços dos fertilizantes não impedirá novo crescimento da área plantada com soja. A avaliação é de Eduardo Daher, diretor executivo da Anda. Segundo ele, o plantio da oleaginosa deve crescer em torno de 5%, assim como o do algodão. Já o plantio de milho seguirá estável. "O que estamos prevendo é que o produtor vai reduzir a tecnologia empregada no plantio", afirma. A redução poderá se dar pela redução de adubação por hectare, mas também pela utilização de fertilizantes de menor qualidade. Daher afirma que o motivo não é apenas a alta dos custos. Segundo ele, há também problemas de crédito para os produtores. A indústria de insumos praticamente não está fazendo trocas de fertilizante mediante entrega futura de soja, sistema que vigorou por muitos anos. "Alguns produtores não honraram os contratos este ano e o sistema perdeu credibilidade", explicou. Outro problema para os produtores é seu alto grau de endividamento, o que aumenta o risco de crédito. "Alguns agricultores estão trabalhando muito alavancados, com grande parte do capital imobilizado." Diante deste cenário a indústria trabalha com a expectativa de manter praticamente o mesmo volume de entregas de fertilizantes de 2003, quando o volume foi de 22,8 milhões de toneladas, um recorde. De janeiro a julho, as entregas atingiram 10,22 milhões de toneladas. Contudo, parte das entregas foi represada. "Entre a publicação da medida provisória que zera o PIS/COFINS para o setor, em julho, e sua regulamentação, em 26 de agosto, as compras foram adiadas." A indústria de defensivos agrícolas trabalha com prognósticos menos conservadores que a de fertilizantes para o Brasil na safra 2004/05. O gerente de marketing e produto da Dow AgroSciences, Celso Macedo, afirma que a indústria espera fechar 2004 com faturamento de US$ 3,6 bilhões, 16% acima dos US$ 3,1 bilhões obtidos em 2003. Para 2005, o segmento acredita em um aumento de mais 10%. Macedo representou a Andef (Associação Nacional de Defesa Agricultura) no XVI Seminário da ABMR&A, realizado em São Paulo. "O produtor pode prescindir de utilizar adubo, mas não de defensivos", afirma Macedo. "Por isso, o simples fato de a área crescer no Brasil provoca aumento de consumo de defensivos." A soja, como seria de se esperar, representa 45% do faturamento da indústria de defensivos. O algodão vem em segundo lugar, com 11%, e o milho em terceiro, com 9%. No caso da soja, a expectativa é de que as vendas aumentem de 10% a 15% na safra 2004/05. A venda de herbicidas deve ter crescimento de 5%, o mesmo da área. Já a venda de fungicidas contra a ferrugem asiática deve saltar em até 20%. Macedo avisa que, desta vez, não haverá problemas de suprimento aos produtores. "Há estoques de fungicida para todos." No caso do algodão, há expectativa de um aumento de 5% nas vendas. Já no caso do milho, a indústria trabalha com vendas estáveis. Macedo esclarece que o aumento das vendas feito pela Andef é baseado em receita, não em volume. "A alta do petróleo também afetou o setor de defensivos", disse. "Como resultado, o valor está crescendo mais do que o volume negociado." Macedo, entretanto, disse não haver estatísticas sobre o volume de vendas ou o aumento médio do segmento. (segue)

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