Felipe/ESTADÃO
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Credores querem assumir Samarco e ampliar produção da mineradora

Grupo de 17 fundos, dono de R$ 26 bilhões em dívidas da Samarco, tem plano de acelerar o negócio nos próximos anos, mas devem enfrentar resistência de Vale e BHP Billiton; mineradora foi palco da tragédia em Mariana (MG), em 2015

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2022 | 10h31

Um mês depois de rejeitarem o plano proposto pela mineradora Samarco, um grupo de 17 fundos que são credores de R$ 26 bilhões em dívidas da companhia fizeram uma proposta para definir o futuro da companhia responsável pelo desastre em Mariana (MG), ocorrido em 2015, que deixou 19 mortos e um rastro de destruição ambiental. Porém, mais do que isso, os credores querem acelerar a produção da Samarco e marcar uma nova fase da mineradora.

De acordo com o documento entregue para a Justiça na madrugada desta quarta-feira, 18, os credores propuseram uma nova gestão para a companhia, a conversão de parte das dívidas dos credores em ações e a diluição quase que total das mineradoras Vale e BHP Billiton do quadro societário. Atualmente, as duas empresas dividem o controle da Samarco em fatias iguais.

O plano deve enfrentar forte resistência das atuais sócias, segundo revelou a Coluna da Broad. Os controladores já encaminharam à Justiça uma petição exigindo o direito de voto na assembleia para aprovar o plano. O grupo de credores, por sua vez, acredita que as acionistas não devem ter esse direito, já que elas contam com a proteção da lei de que não ficarão em posição pior do que na falência.

Procurada, a Samarco afirmou que tomou conhecimento do plano e fará uma avaliação dele. No entanto, a mineradora também disse que, apesar de estar aberta ao diálogo, "está preparada para defender a segurança e a sustentabilidade das suas operações e tomar as medidas judiciais apropriadas para prevenir condutas e propostas que ameacem sua perenidade ou não considerem a importância da sua função social e ações de reparação."

A Vale a BHP foram menos políticas em sua resposta. Segundo elas, a proposta dos credores é "inviável" e também defendeu o plano atual da Samarco, classificando-o como aquele com "as melhores práticas de segurança e meio ambiente e leva em consideração a atual posição financeira da companhia e sua função social."

Novo executivo

A principal cabeça por trás do plano é Tito Martins, ex-presidente da Votorantim Metais e que foi por anos um dos principais executivos da Vale, assim como atuou como conselheiro da própria Samarco no passado. Ele foi chamado pelo grupo de credores para criar um plano para a recuperação da companhia. "Queremos uma nova Samarco. Pegamos todo o plano original e fizemos uma revisão geral e que também está sujeito à alteração quando entrarmos", diz Martins.

No ano passado, a Samarco produziu pouco mais de 7,88 milhões de toneladas de pelotas de ferro e finos de minério, o que representa cerca de 26% da capacidade operacional da empresa em Mariana. A atual gestão da empresa vem trabalhando para que a produção vista no período pré-tragédia, de 30 milhões de toneladas, seja alcançada em 2029. Mas o grupo de credores e Martins acreditam que isso já seja possível em 2026.

Empilhamento a seco

No plano, a nova gestão afirma que conseguiria alcançar esses números com uma mudança no manuseio de rejeitos: sai a barragem e entra o empilhamento a seco. A Samarco, atualmente, trabalha na descaracterização da barragem do Fundão e tem até 2029 para concluir a operação. "Com o empilhamento a seco, o custo de operação vai ficar mais caro, mas o investimento inicial é menor. Com isso, conseguiríamos acelerar o cronograma de produção", diz Martins.

Além de voltar ao volume de produção já em 2026, Martins acredita que no ano que vem já seria possível dobrar o atual patamar produzido em Mariana. Para isso, no entanto, seria necessário dobrar os investimentos de US$ 150 milhões para US$ 300 milhões. Segundo Martins, o atual patamar de geração de caixa da companhia, que foi de US$ 1,1 bihão no ano passado, permite que a empresa faça esse aporte.

Martins diz que ainda não é um fato consumado de que ele será o responsável por tocar a operação da companhia, caso o projeto avance. "Há executivos sendo procurados e também confiamos muito nos que estão atualmente dentro da empresa. O que não concordamos é com o plano que a atual gestão está colocando em prática", afirma ele.

No longo prazo, de acordo com ele, a empresa não descarta ir a mercado por meio de um IPO ou até mesmo realizar a venda para um outro grupo que esteja interessado na Samarco. "De qualquer forma, como a empresa terá diversos acionistas e sem controlador definido, ela será praticamente uma corporação", diz Martins.

Dívidas

A proposta alternativa enviada pelo grupo de credores só foi possível por causa da nova lei de recuperação judicial. Mas, além do plano de ações para a companhia retomar as operações, o grupo também propôs uma nova forma de pagar os mais de R$ 50 bilhões de dívidas. Segundo o plano, os credores das classes 1 (trabalhadores) e 4 (micro e pequenas empresas) receberão 100% dos valores.

Para a classe 3, que consiste naquelas empresas que possuem créditos sem garantias dadas pela Samarco e que concentram a maior parte dos débitos, foram feitas duas propostas. A primeira delas é a possibilidade de converter 38% das dívidas em ações da empresa. Dos 62% restantes, 2% seriam pagos no ato e os outros 60% seriam pagos em um prazo de dez anos. Quem preferir não se tornar acionista da Samarco, terá a opção de receber o valor devido, com um desconto de 15%, em 18 anos.

No caso dos R$ 24 bilhões que Vale e BHP têm a receber da Samarco, os credores argumentam que o montante não deveria entrar no processo. Um laudo feito pela consultoria Galeazzi e Associados, a pedido do grupo de credores, aponta que as duas acionistas teriam a receber algo em torno de 3% a 4% do crédito que ela possui, após descontados todos os pagamentos que a Samarco seria responsável em uma eventual liquidação dos negócios, caso um acordo não seja realizado.

Por último, a proposta feita pelos credores se compromete a pagar a parcela correspondente à Fundação Renova, criada para indenizar os impactados pelo desastre de Mariana. Dos US$ 8,4 bilhões devidos, a possível nova gestão da Samarco se compromete a custar 33% do valor, divindo a conta igualmente com Vale e BHP.

"Desde o pedido de recuperação judicial, a empresa já pagou US$ 1,2 bilhão. Com isso, teria o saldo de US$ 1,6 bilhão a ser acertado", diz Renato Franco, sócio fundador da assessoria Integra Associados Restruturação Empresarial, que participou da formulação da proposta.

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