Sanções contra a Rússia colocam em xeque o domínio do dólar

Embora não se possa dizer que o dólar vai perder seu status de principal moeda de negociação num futuro próximo, seu domínio está recuando

Rachel Evans, Bloomberg News

07 de agosto de 2014 | 19h53

As sanções aplicadas pelos Estados Unidos e Europa contra a Rússia ameaçam apressar um afastamento geral em relação ao dólar que vem ganhando força desde a crise financeira global.

Um dos locais em que essa mudança se tornou evidente é Hong Kong, onde a venda de dólares levou o banco central a comprar mais de US$ 9,5 bilhões desde o início de julho para evitar a valorização de sua moeda enquanto as sanções alimentavam especulações de uma infusão de dinheiro russo. A operadora de celular OAO MegaFon, segunda maior da Rússia, converteu parte de seu dinheiro em dólares de Hong Kong. Em 31 de julho, as negociações do yuan chinês em relação ao rublo russo chegaram ao maior volume observado desde o final de 2010, de acordo com a bolsa de valores de Moscou.

Embora não se possa dizer que o dólar vai perder seu status de principal moeda de negociação num futuro próximo, seu domínio está recuando. A parcela das divisas globais que cabe à moeda americana caiu para menos de 61%, uma queda em relação aos mais de 72% observados em 2001. A tendência apenas se acentuou desde a crise financeira em 2008, evento que teve início nos EUA, e os principais países emergentes, como a Rússia, decidiram realizar mais negócios usando suas próprias moedas.

"A crise levou muitos a repensarem o mundo denominado em dólares no qual vivemos", disse Joseph Quinlan, estrategista-chefe de mercado do U. S. Trust da Bank of America Corp., responsável pela gestão de aproximadamente US$ 380 bilhões. "Este enfrentamento entre a Rússia e o Ocidente teve como efeito sanções que podem funcionar como catalisador da transição para um mundo mais plurimonetário."

Uma transformação desse tipo pode levar até 25 anos, com o dólar permanecendo no "topo da pirâmide" mesmo com outras moedas desempenhando um papel maior do que o atual, disse Quinlan em entrevista concedida por telefone no dia 4 de agosto a partir de Nova York.

Embargo de armamentos. EUA e UE anunciaram em 29 de julho novas restrições ao comércio com a Rússia em decorrência do apoio do país a insurgentes ucranianos. As sanções adicionais limitam o acesso de bancos de propriedade estatal aos mercados de capitais americanos e europeus. A Europa declarou também um embargo à venda de armamentos, enquanto os EUA acrescentaram um estaleiro à lista de entidades de tecnologia de defesa vetadas.

A MegaFon, empresa com sede em Moscou que não foi atingida diretamente pelas sanções, está transferindo suas reservas para o dólar de Hong Kong, disse o diretor financeiro Gevork Vermishyan em entrevista por telefone na semana passada. A operadora do bilionário Alisher Usmanov costumava manter suas divisas estrangeiras em dólares e euros, de acordo com a empresa.

Fuga de capital. A maior produtora mundial de níquel e paládio, OAO GMK Norilsk Nickel, também está mantendo parte do seu dinheiro na moeda asiática, de acordo com o que disseram duas pessoas informadas sobre a situação na semana passada, que pediram para não serem identificadas porque a informação não é oficial.

A produtora de níquel mantém suas reservas líquidas sob a forma de uma variedade de moedas e instrumentos financeiros, disse na semana passada o porta-voz Petr Likholitov, sem dar mais detalhes nem comentar o uso de dólares de Hong Kong.

Além disso, os russos mais ricos buscam transferir seu dinheiro para bancos em Hong Kong, Cingapura e Dubai, de acordo com o diretor executivo Danilo Lacmanovic, da Third Rome LLC, com sede em Moscou, encarregada de administrar cerca de US$ 400 milhões pertencentes a indivíduos de grande peso econômico, em entrevista por telefone.

Provações do dólar. Desde quando o dólar substituiu o ouro como alicerce do sistema financeiro após a 2? Guerra Mundial, a moeda resistiu a numerosas crises. Emergiu do colapso do sistema de Bretton Woods em 1971, suportou o surgimento do euro três décadas mais tarde e manteve seu status de moeda mais segura mesmo quando o colapso de 2008 se espalhou de Wall Street para as economias de todo o mundo.

O estímulo federal sem precedentes do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) para sufocar a crise trouxe dinheiro à economia por meio da compra de dívidas, levando países como Brasil e Alemanha a alegar que os EUA estariam desvalorizando sua moeda.

A contração aumentou os juros dos papéis desvinculados da força de um determinado país, levando o Fundo Monetário Internacional a aumentar em quase 10 vezes a alocação dos direitos especiais de saque, um ativo de reserva cujo valor tem como base uma cesta de moedas, e alimentando a demanda pelas chamadas moedas virtuais, como o bitcoin.

Uma multa de US$ 9 bilhões imposta em junho pelos reguladores americanos ao BNP Paribas SA, maior banco francês, também levou algumas instituições a temer as penas que as negociações em dólares podem acarretar, de acordo com Steven Englander, diretor de estratégia monetária do Grupo dos 10 no Citigroup Inc., em Nova York.

O BNP foi proibido por um ano de finalizar certas negociações de commodities denominadas em dólares depois que o banco admitiu ter violado restrições americanas ao negociar com Irã, Sudão e Cuba. Tradução de Augusto Calil

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