AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
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Saraiva cai 14% e atinge mínima histórica após pedido de recuperação judicial

Com dívidas de R$ 674 milhões, maior rede de livrarias do País fechou acordo com editoras para ter produtos em estoque no Natal e também costurou parceria para terceirizar área de tecnologia à distribuidora de eletrônicos Allied, controlada pelo fundo Advent

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2018 | 04h00

O pedido de recuperação judicial da Saraiva fez a ação preferencial da maior rede de livrarias do País atingir sua mínima histórica na Bolsa paulista: o papel fechou na sexta-feira, 23, em baixa de 13,88%, cotado a R$ 1,80, em meio a dúvidas de investidores sobre a capacidade da empresa em resolver seu problema financeiro. No pedido de recuperação, a companhia informou endividamento de R$ 674 milhões. A Saraiva é a segunda rede de livrarias a pedir proteção judicial para pagar dívidas em um mês: a Cultura encontra-se na mesma situação.

A recuperação judicial veio após uma tentativa frustrada de negociar débitos com fornecedores. As editoras de livros, pressionadas pela necessidade de escoar exemplares para as vendas de Natal, preferiram deixar o passado para resolver posteriormente e garantir um acordo que permitisse a continuidade do fornecimento para a Saraiva, que hoje domina 30% das vendas no País. Os atrasos serão resolvidos no âmbito da negociação judicial, enquanto todas as novas vendas terão de ser pagas à vista.

Os problemas da Saraiva não se resumem somente às editoras. A companhia tem dívidas de R$ 128 milhões com o Banco do Brasil e R$ 42 milhões com o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No pedido de recuperação judicial, a companhia citou a malfadada aposta em tecnologia, a partir de 2014, setor no qual foi obrigada a enfrentar a Via Varejo e a Fast Shop. “Neste movimento (saída da área de tecnologia), a Saraiva diminuirá substancialmente a geração de créditos tributários, uma das principais razões de consumo de caixa nos últimos anos”, disse a empresa, no documento da recuperação judicial.

Parceria

Para estancar a sangria financeira com a aposta em tecnologia, e ao mesmo tempo garantir que os clientes ainda encontrem esses produtos em suas lojas, a Saraiva costurou uma parceria para terceirizar a operação. O Estado apurou que a rede de livrarias fechou um contrato com a Allied, empresa que distribui produtos de tecnologia e é controlada pelo fundo americano Advent.

O acordo com a Allied, que distribui marcas como Logitec, Motorola e Samsung, seria uma forma de a livraria garantir que os espaços hoje dedicados a eletrônicos não fiquem vazios. A Allied não atua no varejo, mas terceiriza algumas operações no País – ela é a responsável por operar, por exemplo, todas as lojas próprias da coreana Samsung no País.

Com os espaços nos pontos da Saraiva, a Allied aumentaria sua capilaridade em todo o Brasil. Segundo uma fonte próxima ao acordo, a terceirização da venda de eletrônicos chegará ao ponto de separar o faturamento dos livros e dos produtos de tecnologia. Desta forma, caso um cliente entre na loja e queira comprar os dois tipos de produto, precisará realizar pagamentos separados. A ideia, no entanto, é que o projeto seja implantado aos poucos. Procurada, a Allied não comentou.

Joia da coroa

Hoje, a Saraiva se dedica somente ao varejo. No pedido de recuperação, a empresa lembrou que vendeu seus ativos editoriais e de educação há três anos, por R$ 725 milhões. Esse acordo, apesar de ter injetado dinheiro na companhia, representou a desistência da “joia da coroa” em termos de resultados, disse fonte próxima à empresa. A venda de ativos, combinada ao enxugamento do varejo, deixou a Saraiva com 85 lojas – porte suficiente para manter a dianteira no setor.

A origem da Saraiva remonta a 1914, quando o livreiro Joaquim Ignácio da Fonseca Saraiva, um imigrante português, abriu um pequeno sebo na rua do Ouvidor, em São Paulo, chamado Saraiva & Cia. A Saraiva é uma companhia aberta desde 1972. Em 2008, adquiriu a rival Siciliano. / COLABORARAM CYNTHIA DECLOEDT e DAYANNE SOUSA

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