Sensores saudáveis

O monitoramento constante da saúde através de sensores conectados irá diminuir internações e tratamentos agressivos, aumentando a expectativa de vida

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2017 | 05h03

O monitoramento constante de diversos aspectos do nosso corpo - como frequência cardíaca e respiratória, nível de oxigenação no sangue e temperatura - apresenta benefícios para pacientes e médicos. Os sensores utilizados - que já começam a se tornar biodegradáveis, simplesmente se dissolvendo após determinado intervalo de tempo - permitem que pacientes estejam sob cuidados médicos não apenas em hospitais ou clínicas, mas em virtualmente qualquer lugar. Mais do que isso: caso alguma medida precise ser tomada em função das leituras dos sensores, a tendência é que a própria administração do medicamento seja feita remotamente, com a liberação de substâncias diretamente na corrente sanguínea.

 

No contexto da Quarta Revolução Industrial, a integração entre sistemas artificiais e biológicos, o desenvolvimento de técnicas de aprendizado para máquinas e a comunicação entre equipamentos são alguns dos aspectos que se adaptam perfeitamente ao novo paradigma daquilo que já é conhecido como Saúde 4.0. 

Semana passada falamos sobre como o uso dos "wearables" - os dispositivos vestíveis - podem fornecer dados a respeito de nosso estado de saúde que, se adequadamente analisados, são capazes de gerar alertas e diagnósticos de forma precisa e com antecedência suficiente para que as medidas adequadas sejam tomadas. Ou seja, ao invés de um setor de saúde com características reativas, a nova dinâmica será baseada na prevenção. Isso faz sentido considerando tanto o lado do paciente - cuja probabilidade de ser obrigado a passar por um tratamento mais agressivo torna-se menor - quanto considerando os aspectos econômicos do atendimento: é mais barato prevenir do que remediar.

 

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (World Health Organization), os trinta e quatro países membros da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico) gastaram, em 2013, 9,3% do seu PIB com saúde. Entre os chamados BRICS - grupo de países emergentes reconhecidos por seu potencial econômico - o Brasil ficou pouco atrás, com 9,1% de gastos, seguido da África do Sul (8,9%), Rússia (6,5%), China (5,6%) e Índia (4%). Apenas nos Estados Unidos, segundo o CDC (Centers for Disease Control and Prevention, ou Centros de Controle e Prevenção de Doenças), os gastos com saúde alcançaram US$ 3 trilhões em 2014. 

Ainda de acordo com a OMS, em 2015 cerca de 54% das mais de 56 milhões de mortes ocorridas no mundo foram causadas por apenas dez tipos de doenças. Na liderança, problemas de coração e derrames, como vem sendo o caso desde 2000. As doenças que foram erradicadas nas últimas décadas tendem a ser substituídas por aumentos em casos de câncer, derrames e problemas degenerativos (como Parkinson e Alzheimer) - doenças cujo monitoramento permanente pode alterar de forma fundamental a evolução do quadro clínico. 

 

Um trabalho publicado em janeiro de 2017 pela Escola de Medicina da Universidade de Stanford, por exemplo, obteve indicações concretas sobre as possibilidades do futuro dos diagnósticos. Um grupo de 43 voluntários foi monitorado, e seus dados individualizados foram analisados e correlacionados. Os cientistas conseguiram detectar com precisão os sinais incipientes da doença de Lyme (que causa inchaço e dor nas articulações) e de processos inflamatórios, além de conseguirem distinguir claramente diferenças fisiológicas entre pessoas sensíveis ou resistentes à insulina. Considerando que os wearables utilizados neste estudo foram dispositivos comerciais de propósito geral - medindo itens como frequência cardíaca, oxigenação sanguínea, temperatura da pele, sono e consumo de calorias -  é possível imaginar os avanços extraordinários que serão obtidos por dispositivos desenvolvidos especificamente para aplicações médicas. 

 

Profissionais da área de atendimento em saúde, conforme discutimos nas colunas sobre o futuro do emprego, estão entre as carreiras menos vulneráveis à automação. No relatório de 2006, "Trabalhando juntos para Saúde", a OMS já destacava uma carência global de mais de quatro milhões de profissionais na área, com ênfase nas regiões mais pobres. Este prognóstico, associado ao aumento da expectativa de vida da população reforça a importância da evolução das tecnologias ligadas à saúde, como a obtenção dos diagnósticos. Este é apenas um dos diversos aspectos que serão modificados com a chegada da Internet das Coisas e o uso cada vez mais frequente de dispositivos de monitoramento - ainda nosso tema para semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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