Ser líder é só o começo

Maior comercializadora de açúcar e álcool no mundo, a Copersucar chega à posição em um dos piores momentos já vividos pelo setor

Fernando Scheller, de O Estado de S. Paulo,

15 de abril de 2013 | 18h56

Depois de conquistar a liderança mundial em comercialização de etanol com a compra da americana EcoEnergy, no ano passado, a brasileira Copersucar anunciou este mês que também chegou ao topo do ranking de açúcar, superando a americana Cargill. A liderança, por si só, não é motivo para grandes comemorações, pois o setor sucroalcooleiro vive um de seus piores momentos em termos de rentabilidade. No entanto, segundo especialistas em agronegócio, o porte conquistado pode ser usado para aproveitar melhor as oportunidades que podem surgir num horizonte de médio prazo. 

"O ‘timing’ da liderança da Copersucar não parece bom, pois vivemos o auge da superoferta de açúcar e etanol", diz o sócio da consultoria MB Agro, Alexandre Mendonça de Barros. No entanto, ele diz que a dificuldade de investimento no setor deverá trazer um período de recuperação de margens em dois ou três anos. Isso ocorrerá porque a expectativa é que a oferta fique estacionada, ao passo que a demanda por açúcar crescerá ano a ano e o governo deve ceder à pressão para definir algum incentivo ao consumo interno de etanol.

Neste cenário, a estratégia da Copersucar de decidir pela expansão agora, e não quando as coisas melhorarem, pode se mostrar acertada, já que os ativos do setor tendem a ficar mais caros em períodos de bonança. A expansão da empresa, aliás, ocorreu depois da euforia do etanol. A decisão de pôr o pé no acelerador veio após a mudança da estrutura do negócio, que deixou de ser uma cooperativa "pura" para virar uma sociedade anônima em 2008 - justamente o ano em que eclodiu a crise financeira internacional. Hoje, 47 usinas são acionistas da Copersucar.

A capacidade de moagem de cana da companhia, que era de 65 milhões de toneladas na safra 2007/2008, deve chegar a 130 milhões de toneladas na safra 2013/2014. No mesmo período, o faturamento vai quase quadruplicar, passando de R$ 4 bilhões para R$ 15 bilhões - sem contar a receita da EcoEnergy, que eleva a cifra para R$ 22 bilhões.

Toda essa expansão, segundo o presidente do conselho da Copersucar, Luís Roberto Pogetti, é baseada na crença de que o setor sucroalcooleiro - e especialmente o projeto de etanol - é viável no longo prazo. "Acho que o setor viveu um período de ‘dores de crescimento’. Mas a demanda potencial para o etanol no Brasil é enorme, pois é uma alternativa viável ao petróleo", afirma.

Desafios. No entanto, a promessa de lucratividade apresentada por um uso maciço do etanol não vai se materializar enquanto uma política pública não for definida - e ninguém no setor espera que isso ocorra até o fim do ano. Enquanto isso, o mercado de açúcar, que seria a salvação da lavoura, vive uma superoferta. As margens, que já eram apertadas no ano passado, devem ficar ainda mais comprimidas em 2013. Na safra 2011/2012, o lucro da Copersucar ficou em R$ 102 milhões, queda de mais de 70% em relação ao ciclo anterior.

E, pelo menos até o fim do primeiro semestre, não há previsão de reversão deste quadro da commodity. "O preço do açúcar não está grande coisa porque a produção foi boa em todos os grandes celeiros de açúcar, como Brasil, México, Tailândia e Índia", explica Fabio Solferini, sócio da consultoria em agronegócio americana Intl FC Stone.

Enquanto no açúcar a Copersucar está presa ao vaivém da demanda mundial e da cotação do produto na Bolsa de Chicago, a questão do etanol esbarra nas dificuldades enfrentadas internamente. As empresas do setor são unânimes em reclamar de que o congelamento do preço da gasolina promovido pelo governo para o controle da inflação não só comprometeu as contas da Petrobrás como também minou a competitividade do etanol.

Com a gasolina artificialmente barata, acabou o incentivo para o consumidor usar a alternativa. Segundo informações da MB Agro, a frota de veículos flex somava 10 milhões de veículos em 2009. Naquele ano, foram consumidos cerca de 15 bilhões de litros do combustível. No ano passado, o total de veículos bicombustíveis havia subido 80%, mas o consumo caiu para 11 bilhões de litros de álcool.

A solução para esse desequilíbrio só virá com a criação de uma política de longo prazo do etanol - algo que o governo, segundo o presidente do conselho da Copersucar, falhou em fazer. Atualmente, o setor trabalha com a possibilidade de redução de PIS/Cofins e a desoneração da folha de pagamento para a cadeia produtiva, além do aumento da mistura de álcool anidro à gasolina de 20% para 25%. Esses benefícios, no entanto, teriam só efeito paliativo, segundo Pogetti e outras fontes do setor.

Parcerias. Além dos desafios macroeconômicos, o modelo de negócio da Copersucar - em que a empresa basicamente atua como uma comercializadora da produção de seus associados - também apresenta desafios. Dias após o anúncio da liderança mundial em açúcar, foi divulgado que a paulista Clealco, que respondia por 7% do volume de cana da empresa, havia encerrado a parceria por estar insatisfeita com os preços de venda. A Copersucar diz que parte da perda de volume foi compensada pela entrada de uma destilaria em Nova Londrina (PR), que foi incorporada por um de seus parceiros, o Grupo Melhoramentos.

A "captação" de usinas é positiva no longo prazo, afirma o presidente da Copersucar, Paulo Roberto de Souza. "Passamos de 32 usinas, em 2007, para 47 atuais", diz o executivo. A conta já considera a saída da Clealco, que continuará a fornecer para a companhia fora do regime de exclusividade. Hoje, 23% do volume de cana esmagado pela Copersucar vêm de não-associados.

Além do acesso a um departamento comercial mais estruturado, Souza diz que a Copersucar é o meio de as pequenas usinas participarem de projetos de logística e inovação. A companhia pretende dobrar a capacidade de seu terminal privado no Porto de Santos e tem participação de 20% no etanolduto projetado para escoar o combustível produzido no interior de São Paulo. A empresa também já investe no etanol de segunda geração. Uma usina que produzirá álcool a partir do bagaço de cana entrará em fase de testes em 2014.

Apesar dos investimentos em produtividade, as dificuldades do setor sucroalcooleiro frearam um projeto ambicioso da Copersucar: a abertura de capital na BM&FBovespa, suspensa desde 2011. Antes de retomar a empreitada, diz o presidente da empresa, a confiança no mercado mundial de etanol e de açúcar precisa ser reconquistada. E isso depende de políticas de governo e mudanças no cenário econômico mundial que nem a líder mundial do setor consegue apressar. 

Mais conteúdo sobre:
Copersucaraçúcarálcool

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.