Será que os robôs vão roubar seu emprego?

Especialistas ouvidos em pesquisa sobre futuro da automação imaginam aumento na desigualdade de renda, massas de pessoas excluídas do mercado de trabalho e o colapso da ordem social

Jena McGregor, The Washington Post

12 de agosto de 2014 | 10h44

De acordo com o mais recente estudo sobre automação, a boa notícia é que a maioria dos especialistas consultados pelo Pew Research Center Internet Project acha que os robôs não terão eliminado muitos postos de trabalho até 2025.

A má notícia é que, nesse caso, a maioria é de apenas 52%.

Quarenta e oito porcento dos quase mil especialistas da indústria, analistas da internet e aficionados pela tecnologia que participaram da pesquisa da organização disseram imaginar um futuro mais distópico, no qual robôs e "agentes digitais" substituiriam muitos empregos e no qual haveria "grandes aumentos na desigualdade de renda, massas de pessoas efetivamente excluídas do mercado de trabalho, e o colapso da ordem social", de acordo com o relatório.

Céus.

"Houve um grupo de pessoas que adotou o ponto de vista econômico: a tecnologia tem mudado e alterado os empregos desde a revolução industrial, e não há motivo para acreditar que isso vá mudar com a nova onda de avanços", de acordo com Aaron Smith, pesquisador sênior do Pew e coautor do relatório. "Por outro lado, houve quem dissesse: talvez seja verdade, mas a próxima onda de mudanças vai afetar as pessoas de maneiras diferentes do que no passado."

Smith acrescentou que especialistas nesse segundo campo dizem que as mudanças vão ocorrer particularmente rápido, tornando ainda mais difícil para que as pessoas se ajustem, e levando a disparidades ainda maiores entre os vencedores e os perdedores na economia.

O novo relatório divulgado na semana passada é parte de uma série do Pew marcando o 25º aniversário da internet. Em vez de perguntar a um segmento aleatório da população, o centro de pesquisas entrevistou 12 mil especialistas em tecnologia, analistas da internet e membros do público que acompanham atentamente as tendências de tecnologia, consistindo em oito questões diferentes. Uma das perguntas abertas, envolvendo o impacto da robótica e da inteligência artificial no futuro do trabalho, gerou quase 1.900 respostas, formando a base do relatório.

Alguns dos especialistas em tecnologia, muitos dos quais o Pew citou no relatório, se mostraram otimistas em relação ao impacto da inteligência artificial. Vint Cerf, evangelhista-diretor do Google para a internet, argumentou que todos esses robôs precisarão de alguém que tome conta deles. 

"Alguém precisa produzir e fazer a manutenção de todos esses dispositivos avançados", diz a citação dele no relatório. Tiffany Shlain, cineasta e apresentadora da série The future starts here, da AOL, respondeu que os robôs ajudarão a eliminar o trabalho monótono, "permitindo assim que os humanos usem sua inteligência de novas maneiras, livres das tarefas mais banais". E o economista Michael Kende disse ao Pew que "cada onda de automação e computadorização aumentou a produtividade sem deprimir os índices de emprego, e não há motivo para pensar que as coisas serão diferentes dessa vez".

Outros enxergam uma perturbação do mercado de trabalho, mas nada de muito dramático no futuro próximo. Jari Arkko, presidente da Internet Engineering Task Force, disse que "faltam apenas 12 anos até 2025" e "algumas dessas tecnologias precisam de tempo para serem implementadas em escala significativa".

Se isso não chega a ser animador, outros foram mais alarmantes em suas declarações. Jerry Michalski, fundador de um centro de estudos estratégicos dedicado ao futuro da economia, fez uma referência ao vilão de Harry Potter, dizendo ao Pew que "a automação é como Voldemort: a força terrível que ninguém ousa nomear". 

Judith Donath, bolsista do Centro Berkman para a Internet e a Sociedade, da Universidade Harvard, previu um mundo de desemprego crônico, no qual "humanos desempenhando funções como as de vendedores, enfermeiros, médicos e atores serão símbolos de luxúria, a seda da interação humana em oposição ao poliéster do contato humano simulado".

O colega dela, Justin Reich, respondeu: "não tenho certeza que os empregos vão desaparecer completamente, embora isso pareça possível, mas os empregos que restarem terão salários piores e menos estabilidade do que os existentes no momento. 

A fatia intermediária está se aproximando do fundo". Stowe Boyd, que escreve e presta consultoria a respeito do futuro do trabalho, foi ainda mais pessimista: "a questão central para 2025 será, para que servem as pessoas num mundo que não precisa do seu trabalho, e onde apenas uma minoria é necessária para comandar uma economia movida por robôs".

Tradução de Augusto Calil

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