Daniel Teixeira/Estadão
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Setor aéreo espera retomada puxada por viagens corporativas para este ano

Após queda de 5,5% na demanda por passagens em 2016, associação que reúne empresas do segmento divulgou alta de 3,5% no ano passado; para 2018, expectativa é de resultado mais expressivo, graças ao aumento das compras de bilhetes por empresas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2018 | 23h18

Depois três anos considerados fracos pelos principais executivos do setor, as companhias aéreas do País preveem um 2018 de retomada. A recuperação deverá ser puxada principalmente pelo segmento corporativo, o mais rentável e que já começou a ganhar tração no último trimestre de 2017.

A Gol, por exemplo, maior empresa do mercado doméstico no Brasil, projeta aumentar sua oferta em até 3% para responder ao aquecimento da demanda. Segundo estimativas preliminares, essa alta ficou em 0,5% no ano passado. Durante a grave crise financeira e de demanda pela qual passou, a companhia reduziu sua frota média de 129 aviões, em 2015, para 116, em 2017. Agora, projeta elevar para 118 neste ano.

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Na Latam, a previsão é de uma oferta doméstica até 4% maior em 2018, após uma queda de 4% em 2017. “Claramente, a partir de abril deste ano, voltaremos a crescer no Brasil”, diz o presidente da empresa no País, Jerome Cadier. “Em 2017, a demanda doméstica foi se consolidando e agora olhamos para 2018 como um ano mais positivo internamente. No internacional, a recuperação já vem de antes”, acrescenta.

Recuperação. O executivo da Latam destaca que o segmento corporativo – cujas tarifas são mais caras por serem compradas com menor antecedência – sofreu muita oscilação no primeiro semestre de 2017 e começou a se consolidar no fim do ano. “No quarto trimestre, o segmento ficou mais firme, com semanas seguidas de crescimento na comparação com 2016. Mas são taxas de 3% a 4%, não de 15%.”

Com a crise brasileira, o segmento corporativo chegou a registrar queda de 6,3% e 4,7% no número de passagens vendidas para voos nacionais em 2015 e 2016, respectivamente.

Já nos nove primeiros meses do ano passado, a alta foi de 6,2%, segundo a Associação Brasileira de Viagem Corporativa (Abracorp). “Com uma maior confiança, as empresa brasileiras começaram a retomar seu ritmo de consumo, o que teve um impacto direto no setor aéreo. Já vemos melhora em setores como farmacêutico, financeiro e de agronegócios”, diz o diretor executivo da entidade, Gervasio Tanabe.

Também para o presidente da Azul, John Rodgerson – o único que considera que 2017 já foi um ano bom, em razão da abertura de capital da empresa, que arrecadou R$ 2 bilhões –, 2018 será mais sólido porque grande parte dos setores da economia está saindo da crise, elevando a demanda corporativa. “O ano passado foi bom, no primeiro semestre, por causa da safra, mas agora estamos vendo outras indústrias indo bem. Não é mais algo isolado”, diz.

O presidente da Avianca, Frederico Pedreira, entretanto, afirma que a retomada da indústria aérea deverá ficar mais para o fim de 2018 e o início de 2019. “O ano passado foi um pouco melhor que 2016, que foi o ano mais difícil. A forma como estamos trabalhando é que 2018 será de transição, melhor que 2017, mas não forte como acontecia em 2009 ou 2010.”

Em 2017, a demanda doméstica cresceu 3,51%, após queda de 5,47% em 2016, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) divulgados ontem.

Desafios. O especialista no setor aéreo André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company, destaca que há indicativos de que 2018 começou “muito bem” no setor aéreo, tanto no segmento corporativo quanto no de lazer. Ele também afirma que a melhora começou no segundo semestre do ano passado, mas não de uma forma “muito brilhante”.

Castellini frisa que, assim como os demais setores da economia, a indústria aérea pode sofrer depois do carnaval, conforme as eleições se aproximarem. “Tudo deve ficar um pouco parado, esperando uma definição do cenário político. Se a perspectiva política piorar, pode haver impactos no câmbio e, consequentemente, no preço do petróleo.”

Procurada, a Gol não comentou o assunto por estar em período de silêncio.

Jerome Cadier, presidente da Latam

‘Infraestrutura será desafio'. Em 2018, os desafios estão mais relacionados à infraestrutura. No aeroporto de Congonhas, dificilmente teremos mais voos. O terminal está absolutamente tomado durante a semana. Guarulhos é outro que está chegando perto de sua capacidade nos horários de pico. Então você acaba tendo horários de 2h ou 3h da manhã, que não são muito bons. O desafio é crescer com gargalos de infraestrutura, especificamente em São Paulo, que é onde grande parte do mercado corporativo está presente e um mercado-chave para a Latam, pois é nosso hub (terminal de conexão) internacional. 

John Rodgerson, presidente da Azul

‘Principal risco é a eleição’. Estou mais otimista com o País para o ano de 2018. É claro que o combustível aumentou um pouco, mas temos de lembrar que combustível mais alto é bom para o País, para a Petrobrás. Uma coisa que é ótima é a queda de juros, que deixou as empresas aéreas menos alavancadas e tem ajudado muito o fluxo de caixa. A demanda corporativa está chegando, sentimos isso desde agosto, setembro do ano passado. Isso mostra que as pessoas voltaram a trabalhar e investir. Acho que nosso principal risco para 2018 é que a eleição vai trazer muita volatilidade para o mercado.

Frederico Pedreira, presidente da Avianca

‘Retomada virá só no fim do ano'. O ano de 2018 será de transição, melhor do que 2017, mas não forte como acontecia em 2009, 2010. Vemos retomada mais para o fim de 2018 e o início de 2019. Ainda existem dúvidas políticas que precisam ser resolvidas para dar um pouco mais de confiança ao consumidor e também ao investidor estrangeiro. O grande motor da aviação no Brasil é o segmento corporativo, que está deprimido há quase quatro anos. O cliente corporativo é o que compra as passagens mais caras e, sem dúvida, ajuda a equilibrar as contas de uma companhia aérea. E isso ainda não aconteceu.

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